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20 novembro, 2014

Guerra Fria?

GUERRA FRIA?
 O ano de 2014 foi marcado por muita conversa sobre o “regresso” da Guerra Fria, seja a mesma, ou uma nova (Guerra Fria II). É um rematado disparate.
 
A Guerra Fria foi um longo conflito multidimensional e global.
 
Multidimensional, porque foi ideológico, geopolítico, militar (por entrepostos agentes) e até económico, cultural e desportivo (veja-se os Jogos Olímpicos).
 
Global, porque foi combatido urbi et orbi: Europa, Nordeste da Ásia (Península da Coreia), Sudeste Asiático (Indochina), Ásia do Sul, Médio Oriente, América Central, América do Sul, África do Atlântico ao Índico e do Mediterrâneo ao Cabo.
 
O Âmbito do Conflito na Guerra Fria.
A “conversa” de 2014 é motivada pelo conflito na Ucrânia e pela resultante hostilidade entre a Rússia e os Estados Unidos e entre aquela e vários países europeus.
 
Resumamos então o que se tem realmente passado:
 
* A Ucrânia, na sequência do derrube do Presidente anterior, entrou em estado de guerra civil no Leste, entre o novo poder em Kiev e rebeldes separatistas.
 
* A Rússia anexou a região da Crimeia com apoio popular da maioria dos habitantes.
 
* A Rússia tem apoiado os rebeldes com equipamento militar, logística e homens.
 
* O Ocidente tem apoiado Kiev e impôs sanções à Rússia.
 
* A Rússia incrementou substancialmente a sua presença aérea e naval nos mares e oceanos – Atlântico Norte, Ártico, Pacífico Norte, Mediterrâneo, Báltico, Mar Negro.
 
* Aumentou a tensão entre a Rússia e o Ocidente (especialmente EUA) e nos países que rodeiam a Rússia (nomeadamente Polónia e Lituânia).
 
Resumamos agora o que NÃO se tem realmente passado:
 
* Não há um conflito e/ou rivalidade à escala mundial.
 
* Não existem duas superpotências.
 
* Não há qualquer indício de escalada de tensão ao nível nuclear.
 
* Não existe qualquer ameaça de ataque russo ao Ocidente.
 
* Não existe qualquer intenção ou vontade de intervenção militar ocidental contra a Rússia ou nos países que com ela confinam.
O Âmbito do Conflito na Ucrânia.
in STRATFOR em www.stratfor.com
Ou seja, em vez de um conflito hegemónico à escala global (que a Rússia não pode e os EUA não querem disputar), estamos perante um tradicional e localizado conflito pela definição de esferas de influência e que, racionalmente, só é realmente relevante para uma das potências envolvidas: a Rússia.
 
A Guerra Fria acabou há muito tempo, no século passado. Embora o actual Presidente dos EUA tenha declarado, com a sua proverbial soberba, que a Guerra Fria acabara em Lisboa (!!!) em 2010, aquando da Cimeira da NATO, na verdade acabou em 1989 com a queda do Muro de Berlim. Quando muito, pode colocar-se o óbito em 1991 quando a União Soviética finou.
 
A Guerra Fria só subsiste nalguma Nomenklatura política e jornalística de Washington movida pro uma sanha anti-russa e numa Nomenklatura simétrica em Moscovo que demoniza os EUA e deseja ver a Rússia a bater-se de igual para igual com os Americanos.
 
Não há pois qualquer Guerra Fria. Digo mais, a haver uma reedição da Guerra Fria, será mais provável que os contendores sejam os Estados Unidos e a República Popular da China do que Washington e Moscovo.

31 outubro, 2014

Vêm Aí os Russos


VÊM AÍ OS RUSSOS!


Este é um título saído directamente dos arquivos dos anos 70 e 80. Mas foi o que me ocorreu quando há umas horas recebi um SMS alarmado do meu amigo João Carlos: “Pela 2ª vez em 3 dias os nossos caças interceptaram aviões russos!”

Eu bem tentei, mas não consegui sentir-me alarmado. Nem sequer preocupado.

F-16 da Força Aérea Portuguesa intercepta um bombardeito russo Tu-95 “Bear”, ao largo da costa portuguesa.
in Estado Maior da Força Aérea, em http://www.emfa.pt/www/noticia-712-f16-intercetam-aeronaves-russas


Há meses que leio relatos sobre um forte incremento de vôos militares russos, incluindo bombardeiros estratégicos, no Atlântico, no Pacífico, no Báltico e no Mar Negro, roçando o (ou entrando no) espaço aéreo de países como o Canadá, os EUA, o Japão, a Finlândia, ou a Suécia.


Estas incursões inserem-se na crispação provocada pela crise da Ucrânia e, num contexto mais amplo de forte modernização e incremento militar pós-Soviético que Moscovo tem empreendido nos últimos anos.


Nunca pertenci ao numeroso grupo daqueles que estavam convictos que a guerra na Europa pertencia ao passado. Contudo, tal não significa que o seu regresso esteja iminente. A guerra, a acontecer, o que se apresenta cada vez menos provável, será confinada à Ucrânia, por duas razões: a Rússia não tem nenhum interesse em alastrar o teatro da guerra; e nenhum país ou organização terá vontade ou interesse em se envolver directamente no conflito.


Estes vôos intrusivos da Rússia eram normais mas preocupantes há 30 anos. Agora são anormais, mas não são preocupantes. Fazem parte de um jogo de mensagens e percepções.




O bombardeiro estratégico Tupolev TU-95 Bear.




Um F-16 da Força Aérea Portuguesa.
in Estado Maior da Força Aérea, em http://www.emfa.pt/www/aeronave-18

21 agosto, 2014

Morte da Vaca Sagrada? - Fronteiras no Passado


MORTE DA VACA SAGRADA?

AS FRONTEIRAS NO PASSADO

O Mapa do Mundo em 1989.
in US Library of Congress em http://www.loc.gov/item/2010585495/


Desde o fim da II Guerra Mundial as fronteiras foram elevadas à categoria de vaca sagrada: imutáveis e inamovíveis, as fronteiras eram e são defendidas contra as evidências, a racionalidade e a vontade dos povos. Não podem ser postas em causa nem em benefício da paz.


Há excepções, mas em casos muito contados. Houve 4 situações em que existiam pares de países que partilhavam o nome, a História, a língua, a religião e a cultura (num deles tal não é completamente assim) que foram separados por imperativos geopolíticos, em dois casos derivados directamente da II Guerra Mundial e nos outros de problemas relacionados com a descolonização. Referimo-nos à Alemanha Ocidental e à Alemanha Oriental, à Coreia do Norte e à Coreia do Sul, ao Vietname do Norte e ao Vietname do Sul e ao Iémen e ao Iémen do Sul.


O nome partilhado parece ter conquistado um consenso tal que se assumia que, quais gémeos separados à nascença, estes países mais cedo ou mais tarde se reunificariam. Tal já aconteceu, com as Alemanhas, com os Vietnames e com os Iémenes (se bem que este, a tal excepção, pode muito bem vir a desintegrar-se novamente). Já as Coreias ainda têm um longo caminho a percorrer divididas.


Além destes casos pacíficos, existiram mais 4, dos quais 3 também decorrem directamente do final da Guerra Fria. Estes, ao contrário dos anteriores, configuraram desintegrações em vez de uniões: União Soviética, Checoslováquia e Jugoslávia, que deram à luz 15, 2 e 6 novos Estados, respectivamente.


Finalmente, temos o caso do Sudão que após 40 anos de guerra civil (I Guerra Civil 1957-1972; II Guerra Civil 1983-2005), aceitou relutantemente a secessão do Sudão do Sul que, suprema ironia, se encontra já envolvido num arremedo de guerra civil desde o ano passado.


A maioria das fonteiras fora da América e da Europa Ocidental datam do final da I Guerra Mundial ou da II Guerra Mundial. E a grande maioria das que foram modificadas foram-no na sequência do final da Guerra Fria e do rebentar dos espartilhos geopolíticos, militares e ideológicos por ela impostos.


Nessa altura, a Alemanha, na impossibilidade de recuperar o statu quo pré-Versailles, recuperou a unidade possível. A Jugoslávia, abstrusa criação da Paz de Paris de 1919, implodiu numa vaga de ódio e violência. A Checoslováquia partiu-se num misto de de oportunismo e inércia e a URSS pagou com severidade os custos da derrota na Guerra Fria.


As fronteiras foram, portanto, desenhadas na ressaca dos abalos telúricos das duas Guerras Mundiais e alterados apenas na sequência de outro life-changing event, o fim da Guerra Fria, de certo modo, a III Guerra Mundial.


Pode-se então presumir que, na ausência de novos terramotos geopolíticos, ou de uma IV Guerra Mundial, as fronteiras regressarão ao seu estatuto de imutabilidade.


Será que devia ser assim?

12 agosto, 2013

Amuos de Washington com Moscovo

AMUOS DE WASHINGTON COM MOSCOVO

 
Barack Obama cancelou a cimeira que teria em Moscovo, em Setembro, com Vladimir Putin.

Motivo oficial: os dossiers bilaterais mais relevantes para os EUA estão estagnados, pelo que a cimeira não teria resultados e por isso o melhor era não a realizar.

Motivo oficioso: a Rússia não extraditou Snowden para os Estados Unidos.

Motivo mais real: a situação política interna norte-americana aconselhava a tomada de uma posição de força dos EUA face à Rússia.

Motivo acrescentado por mim: Putin cancelou há pouco mais de um ano a sua presença numa Cimeira NATO-Rússia que se realizou nos EUA.
 
Putin versus Obama


Curiosamente, alguma imprensa americana, fontes oficiais e oficiosas e analistas concluíram que Putin é que queria muito a cimeira por causa do prestígio que ela lhe traria e houve quem, como o diplomata e analista, Sthephen Pifer, sentenciasse com gravidade e sem apelo, que a Rússia acabava de se tornar irrelevante para os Estados Unidos. Finalmente, o próprio Obama, numa tirada estafada a que recorre quando Moscovo não faz o que ele pretende, acusou a liderança russa de ter recaídas de mentalidade de Guerra Fria.

Os Estados Unidos não conseguem lidar com a frustração de serem contrariados. Tique de Superpotência, agravado com a eleição em 2008 de um Presidente arrogante e convencido de que com as suas ditosas palavras conseguiria mudar o mundo. Previsivelmente, deu com os burros na água. Mesmo assim, esse Presidente não mudou muito. Façamos um pequeno exercício:

1-      Se a Rússia enganasse a Rússia na aprovação de uma Resolução de intervenção de índole humanitária na Líbia, os EUA reagiriam passivamente?
2-      Se, pouco depois, os Russos tentassem a mesma jogada com a Síria, os Estados Unidos deixar-se-iam enganar novamente?
3-      Se um qualquer Snowdov procurasse asilo nos EUA, estes deportá-lo-iam para a Rússia?
4-      Se a Rússia banisse agentes políticos e dos serviços de segurança norte-americanos envolvidos, por exemplo, num espancamento até à morte de um cidadão desarmado e inofensivo, de entrarem na Rússia, Washington reagiria com conformismo?
5-      Se a Rússia condenasse histrionicamente e repetidamente os EUA por incidentes ocorridos nas Guerras do Afeganistão e do Iraque, acusando-os de desrespeito pelos direitos humanos e de autoritarismo, os EUA acusariam a culpa?

Não, não, não, não e não. E podíamos continuar.



As diferenças e semelhanças dos Estados Unidos e da Rússia na Guerra Civil na Síria.


Quanto às questões de conteúdo, a situação actual é a seguinte: Putin quer que os EUA parem a instalação de dispositivos anti-míssil na Europa; Obama quer que Putin devolva Snowden, que deixe cair Assad na Síria e que assine novo tratado de redução de forças nucleares estratégicas. Neste último caso, quere-o desesperadamente porque se convenceu por um discurso proferido pelo próprio em Praga, em 2009, que vai varrer as armas nucleares da face da Terra. É óbvio que não o vai conseguir, mas pelo menos quer coleccionar umas reduções bilaterais que acha que lhe vão conferir um lugar na história.

No cenário actual, o mais provável é nenhum dos Presidentes conseguir o que quer. Saldo final: Putin, 3 – Obama, 1.

Uma palavra final para a questão da Guerra Fria. É verdade que a Rússia continua a encarar os Estados Unidos como o seu principal rival geopolítico, o que acaba por ser normal dado o poder e preponderância que Washington tem no xadrez político mundial. Não deixa de ser curioso, contudo, que o principal antagonismo que se detecta nas lideranças políticas nos EUA, quer na Casa Branca, quer no Congresso, é em relação à Rússia. E não é por causa do autoritarismo, porque há bem pior pelo mundo, a começar pela China, mas que não gera a mesma repulsa. Ou é um problema do foro freudiano, ou então a Rússia é mesmo relevante.

Amuos e recriminações, prestígio e convencimentos à parte, certo é que, quando Obama entrou na ribalta política mundial, já Putin tinha sido eleito Presidente da Rússia duas vezes e quando Obama sair de cena, Putin provavelmente lá continuará por mais uns anos. Até por isso, me parece que Obama é capaz de precisar mais de Putin do que o contrário.

15 abril, 2013

So Long Maggie


SO LONG MAGGIE

Margaret Hilda Thatcher (1925-2013)

in “The Economist”, 13 April 2013

I have always had the most profound admiration for Margaret Thatcher. I admired her fortitude, her courage, her straightforwardness, her principle-abidance posture, her uncompromising defence of her country’s national interest.

I was only a teenager, but I remember her upholding the special relationship between the United Kingdom and the United States, I grew up regarding Margaret Thatcher and Ronald Reagan as the ultimate defenders and promoters of freedom in their countries and in the world.

I remember her staunch opposition to Soviet Union and what she represented during the latter stretch of the Cold War. She owes the Soviets for the nickname that made her justice: the Iron Lady! But I also recall that Thatcher was the first Western politician to recognize that Mikhail Gorbachev, at a time he was just a Politburo member, as someone “we can deal with”.


The Iron Lady riding a Challenger I in West Germany.

She also fought the elite-driven relentless expansion of EU powers and integration, again what she viewed as the UK’s national interests. “I want my money back”, came to symbolize her attitude towards then European Community.

And, of course, I remember the steadfastness with which Margaret Thatcher sent an expeditionary force to the South Atlantic to take back the Falklands archipelago from an invading Argentinian force.

Most of all, Margaret Thatcher stood for freedom. Freedom in Eastern Europe from the Soviet and Communist juggernaut. Freedom in Great Britain and in the West from the smothering and stifling embrace of the omnipresent state. “The problem with socialism is that you eventually run out of other people’s money.”

This freedom creed, freedom in the political field, but in the economic one as well was coined as Thatcherism, which can be considered a crown of glory in Maggie’s political career: to be awarded an ism after herself. Even Labour under Tony Blair understood that to be viable and eligible it would have to let go of some of its traditional tenets and hold on to the crux of Thatcherism. There is an enduring legacy of Margaret Thatcher.

Today we miss her determination in the pursuit of the common good not coddling up to special and spurious interests. As Maggie once said: “If you just set out to be liked, you will be prepared to compromise on anything at anytime, and would achieve nothing”.

So long Maggie! God bless you!!!
Margaret Thatcher and Ronald Reagan, or Maggie and Ronnie,
 arriving at Camp David in 1984.


Margaret Thatcher in 1983 when she won a landslide victory at the polls.