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24 abril, 2020

Implosão do Iémen


IMPLOSÃO DO IÉMEN

 
A pulverização do Iémen mostrada neste mapa parcial da divisão territorial.

No dia 10 de Abril foi identificado o 1º caso de corona vírus no Iémen. No dia 11 de Abril, a Arábia Saudita e os seus aliados anunciaram um cessar-fogo unilateral na Guerra do Iémen para facilitar o combate à doença. Dias depois, o Ansar Allah, aka Houthis, que controla o Norte e o Oeste do Iémen incluindo a capital Sanaa, rejeitaram o cessar-fogo como sendo um estratagema dúbio da Coligação e prosseguiram com as suas acções armadas. No dia 17 de Abril, a coligação liderada pela Arábia Saudita retomou os ataques aéreos no Iémen, com o foco em Sanaa.

Poder-se-á concluir que pouco mudou no Iémen desde que o último post sobre o país foi publicado em Tempos Interessantes há 5 anos. Na verdade, o estado de guerra, as inúmeras baixas, a pobreza, a fome e a insegurança, mantêm-se imutáveis, mas o conflito evoluiu significativamente ao longo dos anos.

Desde logo, o fornecimento de mísseis balísticos e de drones do Irão aos Houthis, que reforçaram a capacidade do grupo atingir alvos na Arábia Saudita, demonstrada pelo lançamento de um míssil sobre Rhiyadh em Novembro de 2017. No mesmo mês, a coligação dos Houthis e das forças do ex-Presidente Ali Abdullah Saleh rompem a aliança que durava desde 2015 e Saleh acaba sendo morto em combate.

Em Agosto de 2019 dá-se nova ruptura, desta vez na coligação que promovia o governo legítimo do Iémen, liderado por Abbuh Mansour Hadi. O movimento separatista Southern Transitional Council (STC), apoiado pelos Emiratos Árabes Unidos (EAU) tomou controle da importante cidade portuária de Aden. Assim, o governo de Hadi, depois de ter sido expulso da capital Sanaa, foi também afastado de Aden, capital do extinto Iémen do Sul.

O ano de 2019 foi o segundo mais letal da Guerra com mais de 23.000 mortes e o primeiro trimestre de 2020 também se caracterizou por violentos combates.

O que se pode esperar do futuro próximo? O passado recente e o presente não auguram nada de bom.

O Ansar Allah/Houthis registou ganhos territoriais nos últimos meses o que lhes dá margem para elevar o nível de exigências: retirada de todas as tropas estrangeiras do território iemenita e levantamento do bloqueio naval e terrestre. “The Houthis see a ceasefire as more than just a halt to military activities," Aljazeera quoted. Tal significa que estão confiantes e seguros e só aceitarão compromissos que lhes sejam bastante vantajosos.

A Arábia Saudita parece cansada de uma guerra que se arrasta no tempo bem mais do que esperaria. Após uma fase inicial da Guerra em que registou significativos progressos, a partir de 2017/18 os ventos da guerra mudaram e os Houthis, apoiados pelo Irão, começaram a ameaçar os ganhos anteriores e a lançar mísseis sobre território saudita. A Arábia Saudita enfrenta um dilema complexo:

* Está enfraquecida pela saída dos EAU da coligação em Agosto de 2019, que redundou em combates entre forças patrocinadas pela Arábia Saudita e o STC apoiado pelos EAU. Note-se que os EAU eram o 2º parceiro mais relevante da coligação.

* Está pressionada pela queda brutal dos preços e da procura de petróleo, o que reduz a sua margem de manobra financeira.
* Tem vontade de encerrar este capítulo, mas não o quer fazer sem salvar a face e não quer que o Irão estabeleça um baluarte na Península Arábica e ainda menos num país contíguo com o Reino.

O Iémen e os diversos agentes envolvidos no conflito estão presos num círculo de violência e orgulho que vai inviabilizando qualquer solução que leve ao término da Guerra. O mais provável é que a situação se arraste com o seu lastro de morte, fome e violência na vã esperança que a situação e os dilemas se resolvam por eles próprios.





30 outubro, 2014

De 2 Fez-se 1, De 1 Faz-se 4 e 4= 0


DE 2 FEZ-SE 1, DE 1 FAZ-SE 4
E 4 = 0


As regiões de um Iémen federal.
in STRATFOR em www.Stratfor.com  


Pouco se liga ao Iémen. País pobre, o mais pobre do Médio Oriente, perdido nos confins da Península Arábica, apesar de ser quase do tamanho da França no mapa parece um mero prolongamento da Arábia Saudita. Enfim, é um lugar pouco notável, recôndito e violento. E a palavra-chave é violento.


Na verdade, o Iémen ocupa uma posição estratégica secularmente reconhecida: Afonso de Albuquerque conquistou a ilha de Socrota, entre o Golfo de Aden e o mar Arábico em 1507. Na segunda metade do século XX, quando ainda havia dois Iémenes, o porto de Aden, então capital do Iémen do Sul, era uma das duas principais bases navais e logísticas disponíveis para a União Soviética no Índico. A outra era Berbera na Somália até o líder Somali Siad Barre pular a cerca da Guerra Fria.


A importância do Iémen é mesmo geográfica dado que está estrategicamente situado para controlar o Estreito de Bab el Mandeb na embocadura do Mar Vermelho, bem como o acesso ao Mar Arábico, uma das principais rotas marítimas mundiais.


A parte setentrional do Iémen que pertencia ao Império Otomano obteve a independência após a I Guerra Mundial. A parte meridional esteve na posse do Reino Unido até 1967, altura em que obteve a independência com a designação de Iémen do Sul. O Iémen unificou-se em 1990 sob a égide de Ali Abdullah Saleh que se manteve no poder até 2012, quando abdicou na sequência de revoltas e protestos no âmbito da chamada Primavera Árabe.


A unificação não foi sinónimo de pacificação e estabilidade, pois as tensões independentistas no Sul subsistiram até hoje. A estas soma-se o estado de rebelião permanente da minoria xiita, os Zaidi, liderados por Hussein Al-Houthi, no Norte do país e, mais recentemente a Al-Qaeda da Península Arábica (AQAP) que ocupa boa parte do Centro e do Leste do país e que é, presentemente, o ramo da Al-Qaeda com maior capacidade para planear ataques terroristas no Ocidente.


Nos últimos meses, um pouco como o Estado Islâmico no Iraque, a insurgência Zaidi conheceu notáveis avanços militares, ao ponto de tomar a capital, Sanaa, em Setembro e, este mês, a 4ª cidade e 2º maior porto do Iémen Al-Hudaydah, no Mar Vermelho.


Tal como no Iraque, também no Iémen o avanço dos Zaidis deve-se não só ao seu potencial bélico, mas também à inércia de muitas unidades das forças armadas iemenitas. A diferença é que em vez da fuga apavorada de Mosul, aqui assistiu-se  a uma suspeita inacção de unidades militares que são conectadas com o ex-Presidente Ali Saleh. 

Al-Houthi não derrubou o Presidente Abd Hadi, mas apresentou exigências que passam pela federalização do Iémen em moldes favoráveis aos Zaidi, pela nomeação de um Primeiro-Ministro independente de facções e pela inclusão de Zaidis em cargos governamentais importantes. A pressão dos Zaidi e o seu poder na capital são tão fortes que o Primeiro-Ministro nomeado após a ocupação de Sanaa, o infeliz Ahmed bin Mubarak, durou 33 horas no cargo! O seu substituto, Khaled Bahah, entregou 6 pastas ministeriais aos Zaidi, incluindo o Petróleo e a Justiça.

As zonas de conflito e as 4 áreas de influência do Iémen contemporâneo.
in STRATFOR em www.Stratfor.com


A situação no Iémen é explosiva e tem todos os ingredientes para acabar mal:


* A maioria Sunita, apoiada pela Arábia Saudita versus a minoria Xiita que tem o apoio do Irão.

* Conflitos políticos entre o Sul independentista e o poder central.


* Conflito militar com a AQAP e actividade terrorista permanente desta organização, a que acresce o envolvimento dos Estados Unidos.


* A guerra surda entre Presidentes: o ex, Ali Saleh e o actual, Abd Hadi.


Enquanto os múltiplos players se preparam para os próximos confrontos, o Iémen que já foram 2 (1967-1990), dos quais se fez 1 (1990), está feito em 4. Neste caso, 4 = 0!





21 agosto, 2014

Morte da Vaca Sagrada? - Fronteiras no Passado


MORTE DA VACA SAGRADA?

AS FRONTEIRAS NO PASSADO

O Mapa do Mundo em 1989.
in US Library of Congress em http://www.loc.gov/item/2010585495/


Desde o fim da II Guerra Mundial as fronteiras foram elevadas à categoria de vaca sagrada: imutáveis e inamovíveis, as fronteiras eram e são defendidas contra as evidências, a racionalidade e a vontade dos povos. Não podem ser postas em causa nem em benefício da paz.


Há excepções, mas em casos muito contados. Houve 4 situações em que existiam pares de países que partilhavam o nome, a História, a língua, a religião e a cultura (num deles tal não é completamente assim) que foram separados por imperativos geopolíticos, em dois casos derivados directamente da II Guerra Mundial e nos outros de problemas relacionados com a descolonização. Referimo-nos à Alemanha Ocidental e à Alemanha Oriental, à Coreia do Norte e à Coreia do Sul, ao Vietname do Norte e ao Vietname do Sul e ao Iémen e ao Iémen do Sul.


O nome partilhado parece ter conquistado um consenso tal que se assumia que, quais gémeos separados à nascença, estes países mais cedo ou mais tarde se reunificariam. Tal já aconteceu, com as Alemanhas, com os Vietnames e com os Iémenes (se bem que este, a tal excepção, pode muito bem vir a desintegrar-se novamente). Já as Coreias ainda têm um longo caminho a percorrer divididas.


Além destes casos pacíficos, existiram mais 4, dos quais 3 também decorrem directamente do final da Guerra Fria. Estes, ao contrário dos anteriores, configuraram desintegrações em vez de uniões: União Soviética, Checoslováquia e Jugoslávia, que deram à luz 15, 2 e 6 novos Estados, respectivamente.


Finalmente, temos o caso do Sudão que após 40 anos de guerra civil (I Guerra Civil 1957-1972; II Guerra Civil 1983-2005), aceitou relutantemente a secessão do Sudão do Sul que, suprema ironia, se encontra já envolvido num arremedo de guerra civil desde o ano passado.


A maioria das fonteiras fora da América e da Europa Ocidental datam do final da I Guerra Mundial ou da II Guerra Mundial. E a grande maioria das que foram modificadas foram-no na sequência do final da Guerra Fria e do rebentar dos espartilhos geopolíticos, militares e ideológicos por ela impostos.


Nessa altura, a Alemanha, na impossibilidade de recuperar o statu quo pré-Versailles, recuperou a unidade possível. A Jugoslávia, abstrusa criação da Paz de Paris de 1919, implodiu numa vaga de ódio e violência. A Checoslováquia partiu-se num misto de de oportunismo e inércia e a URSS pagou com severidade os custos da derrota na Guerra Fria.


As fronteiras foram, portanto, desenhadas na ressaca dos abalos telúricos das duas Guerras Mundiais e alterados apenas na sequência de outro life-changing event, o fim da Guerra Fria, de certo modo, a III Guerra Mundial.


Pode-se então presumir que, na ausência de novos terramotos geopolíticos, ou de uma IV Guerra Mundial, as fronteiras regressarão ao seu estatuto de imutabilidade.


Será que devia ser assim?