13 December, 2017

Russos e Americanos Entalam Turcos



RUSSOS E AMERICANOS ENTALAM TURCOS

 
No norte da Síria pode ver-se, a amarelo, o território controlado pelos Curdos e, a cinza azulado, a cunha que os Turcos conseguiram com a operação Euphrates Shields a noroeste.
in “STRATFOR” em https://worldview.stratfor.com/

Na sua saga de perseguição dos Curdos, a Turquia lançou em Outubro de 2016 uma operação militar na Síria designada Euphrates Shield. Os objectivos eram, em primeiro lugar, impedir que os avanços das forças curdas provindas do nordeste e do noroeste da Síria as levasse a unir os dois territórios, assim criando um contínuo no norte da Síria ao longo da fronteira com a Turquia; e depois, reverter pelo menos parte dos substanciais ganhos territoriais obtidos pelo YPG, o principal braço armado dos Curdos da Síria.

O primeiro foi cumprido com sucesso, apesar das baixas substanciais incorridas: os Turcos e os seus sequazes sírios lograram tomar a cidade de Al-Bab, que passou a ser uma cunha entre os cantões curdos de Afrani (a oeste) e de Kobani (a este).

O pior sucedeu quando os Turcos voltaram a sua atenção para a cidade de Manjib ocupada pelo YPG, apenas para verem o seu caminho barrado por unidades dos exércitos russo e norte-americano, obstáculos esses, que levaram ao término prematuro da Operação Euphrates Shield.
Então, a Turquia começou a planear incursões no norte da Síria para enfraquecer os Curdos e retirar-lhes território. Contudo, a Rússia, preocupada com a perspectiva de uma forte presença militar turca na Síria e os EUA, preocupados com os efeitos negativos que os ataques turcos ao YPG teriam sobre a operação de conquista de Raqqa ao Estado Islâmico, movimentaram forças para o norte, efectivamente criando um cordão sanitário entre Turcos e Curdos.

Desta forma, a Rússia e os EUA bloquearam o desiderato de Ancara de continuar a flagelar os territórios controlados pelo Curdos Sírios, tendo estes podido participar de forma decisiva na recente conquista de Raqqa e tendo mantido uma posição hegemónica no norte da Síria.
Enquanto houver tropas russas e americanas de permeio, Ancara não arriscará um confronto com estas potências para prosseguir os seus objectivos na Síria. Os riscos e os custos seriam demasiado elevados.

Não obstante, o objectivo não desaparecerá e o dia virá em que Russos e Norte-Americanos partirão e os Turcos, os Sírios em geral e os Curdos em particular, permanecerão. É improvável que os respectivos objectivos irreconciliáveis não se mantenham até lá. Por agora, enquanto não se abre nova janela de oportunidade, os Turcos desesperam com os maiores fornecimentos de armamento americano aos Curdos e com o bloqueio russo-americano e ainda pelo estabelecimento de cooperação militar transfronteiriça entre o YPG e o Exército do Iraque.

A Turquia foi entalada por Moscovo e Washington, mas a História diz-nos que, no final, são os Curdos quem costuma terminar entalado. A ver vamos.

09 December, 2017

Jerusalém, Capital de Israel



JERUSALÉM,
CAPITAL DE ISRAEL
 
Jerusalém, vista através da estrela de David.
in “The Economist” em www.economist.com

Vinte e dois anos após a aprovação pelo Congresso dos Estados Unidos do Jerusalem Embassy Act, que reconhecia Jerusalém como capital de Israel, os EUA oficializaram, finalmente, o seu reconhecimento, tendo o Presidente Donald Trump anunciado a mudança da embaixada de Telavive para Jerusalém.

Estou ciente que o meu regozijo me deixa numa minoria. Não é a primeira vez e não será a última. Previsivelmente e como milhentas outras coisas que sucedem nas Relações Internacionais e até na vida interna de muitos países, esta notícia que nem sequer é inesperada, gerou uma nova vaga de angústia e histeria injustificadas.

A situação:

1- Até ver, cada país escolhe a sua capital e Israel escolheu a sua há muito tempo, em 1949 e Jerusalém tem sido não apenas a capital designada, mas também a capital de facto onde estão sedeados o Knesset, o Governo e o Supremo Tribunal.

2- Não obstante, no caso de Jerusalém existe um contencioso quanto à posse da parte oriental da cidade que torna o assunto particularmente sensível.

3- O ponto anterior é agravado pela envolvente geopolítica, religiosa e emocional do conflito Israelo-Palestiniano em geral e por Jerusalém em particular.

4- Porém, não é provável que as consequências sejam graves e muito menos catastróficas.

A perspectiva:

5- A causa palestiniana há muito que caiu nas prioridades da generalidade do mundo árabe. O Irão, o Xiismo, as guerras na Síria, Iraque, Iémen e Líbia, as revoluções no Egipto, os diversos terrorismos, a queda do preço do petróleo, a reconversão económica, a evolução da política e da estratégia americana no Médio Oriente, constituem um rol de prioridades que ultrapassaram a Palestina. Consequentemente, o mais provável é que países como a Arábia Saudita, o Iraque e os Emiratos Árabes Unidos vocalizem o seu protesto, horror e repúdio, mas com poucas consequências práticas.

6- As reacções dos não-Árabes (Irão e Turquia) serão porventura mais veementes e consequentes, mas nenhum tem a vontade e/ou a capacidade e/ou a margem de manobra para castigar esta decisão de forma relevante.

7- No plano das consequências, a Jordânia é, efectivamente, o elo mais fraco devido à sua história (potência administrante de Jerusalém Oriental até 1967), à sua geografia (longa fronteira com Israel e com os Territórios Palestinianos) e demografia (perto de metade da população é palestiniana) e poderá conhecer alguma instabilidade.

8- A ameaça ao processo de paz é um argumento risível dado que o processo de paz não existe. Está morto, só falta enterrá-lo. Curiosamente, Trump prometeu ressuscitá-lo. Ah, foram os Palestinianos que o abandonaram há 3 anos. E não consta que Trump estivesse envolvido.

9- Terrorismo. Já existia, existe e existirá. Pode haver algum incremento de ataques terroristas? Pode. Aliás, essa é a tendência prevalecente desde o início do século XXI. Também é quase certo que vários ataques que já estejam a ser planeados sejam apresentados oportunisticamente como retaliação a esta medida. De qualquer forma, o Estado Islâmico, a Al Qaeda, o Hamas, o Hezbollah, etc, não precisam de um pretexto novo ou específico para atacar. They just do it.

O que se pode esperar então?

Manifestações, muitas das quais violentas, uns quantos profetas da violência como modo de vida e meio de promoção pessoal, como é o caso de Ismail Haniyeh, líder do Hamas; os media, primeiro a induzir a violência e depois a fazer uma cobertura ad nauseam do que efectivamente ocorra, pequeno, ou grande. E, é claro, haverá o habitual fogo de artifício vindo da Faixa de Gaza, seguido das respectivas retaliações. A partir daí, não há certezas, mas creio que não haverá uma grande conflagração, nem uma crise grave.

Três Presidentes dos EUA eximiram-se a dar seguimento a um acto legislativo do Congresso. Donald Trump, durante a campanha eleitoral, comprometeu-se a fazê-lo e, honra lhe seja feita, fê-lo. Jerusalém é a capital de Israel.


05 December, 2017

Só Há Duas Maneiras de Isto Acabar



SÓ HÁ DUAS MANEIRAS
DE ISTO ACABAR

 
As estimativas maximalista (13.000km) e minimalista (8.000km) do ICBM Hwasong-15 lançado no dia 29 de Novembro.
in “The Economist” at www.economist.com   

Tal como prevíramos em Tempos Interessantes (“C’est Excessivement Grave”, 14/11/2017 em http://tempos-interessantes.blogspot.pt/2017/11/cest-excessivement-grave.html ). A Coreia do Norte não iria cessar ou suspender os seus testes nucleares e de mísseis balísticos por causa da pressão internacional, das ameaças dos Estados Unidos, ou da influência da China.

Apesar da longa visita de Donald Trump à Ásia Oriental com reuniões com as principais potências e dos avisos produzidos pelos EUA, China, Coreia do Sul e Japão, a Coreia do Norte realizou o seu 20º teste de um míssil balístico em 2017. E, tal como outros dois realizados em Julho, também este foi um míssil intercontinental (ICBM). Este teste superou os anteriores, com o míssil (supostamente um novo modelo designado Hwasong-15 pela TV norte coreana KCNA) a atingir 4.500km de altitude e voando cerca de 1000km para leste.

Feitos os cálculos, concluiu-se que o projéctil teria um alcance de 13.000km lançado com uma trajectória balística normal e, presumindo que transportava uma ogiva  com dimensão e peso realistas. Tal permitiria à Coreia do Norte atingir qualquer ponto dos EUA. Caso a ogiva fosse uma réplica de pouco peso, o alcance do míssil passaria a ser de 8.000km (ver mapa).

Como vem sendo dito e repetido em Tempos Interessantes. É cada vez mais evidente que a Coreia do Norte não cede a pressões, ameaças, ou sanções. O anúncio de novas sanções pelos Estados Unidos e a convocatória de uma reunião de emergência do UNSC (Conselho de Segurança das Nações Unidas) pelo Japão são exercícios fúteis, inconsequentes e inúteis. Déjà vu.

O problema nuclear norte-coreano só pode ser resolvido de duas maneiras, antagónicas por sinal:

1- A Coreia do Norte conclui e estabiliza o seu projecto nuclear, completo com bombas atómicas e termonucleares e mísseis de alcance intermédio (IRBM) e intercontinentais (ICBM) fiáveis e capazes que lhe garantam uma capacidade dissuasora credível e reconhecida.

2- Alguém (os EUA) desencadeia um ataque maciço e devastador com meios convencionais e/ou nucleares e destrói o regime e, porventura, o país, assim pondo termo definitivo ao programa nuclear de Pyongyang.

Estas são as opções. Agora é só analisar a viabilidade e as consequências de cada uma e escolher. À la carte.

04 December, 2017

From Pyongyang To New York With(out) Love



FROM PYONGYANG TO NEW YORK WITH(OUT) LOVE
 
The 4th July Hwasong-14 ICBM launch. The North Korean TV channel KCNA announced that the missile tested was a new and more powerful one, the Hwasong-15, of which there are no available pictures, yet.

On the 29th November North Korea performed her 20th ballistic missile test of 2017, the third ICBM (Intercontinental Ballistic Missile). As usual, the North Koreans chose to use a lofted trajectory (the missile reached 4500km high) and went just 1000km far.

However, converting the test to a standard ballistic trajectory, the missile’s range, assuming the warhead’s weight corresponds to that of a real one, is 13.000km, i.e., capable of reaching New York or Washington D.C.

The North Korean propaganda movies depicting images of American cities in flames and destroyed do not look as ridiculous and hilarious as they used to. Any Christmas gift from Pyongyang to New York would definitely be without love.