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27 outubro, 2014

Descaramento


DESCARAMENTO

 

Passos Coelho discursou no encerramento das jornadas parlamentares conjuntas do PSD e CDS. Ouvi um excerto na SIC: Coelho atirava-se furiosamente aos media, aos jornalistas e aos comentadores políticos, acusando-os de desinformarem, de não estudarem, de não investigarem. Chamou-lhes desonestos, mentirosos, preguiçosos e patéticos. E exigiu-lhes um pedido de desculpas público. Devo ter ficado com os olhos esbugalhados.

 

Coelho começou por não ter a coragem de identificar os media, os jornalistas e os comentadores responsáveis por tão insidiosa conduta. O PSD, que tanto se revoltou recentemente por epítetos como “vigarista” serem aplicados por atacado aos políticos, aplaudiu este ataque indiscriminado a uma classe inteira. Enfim…

 

Contudo, o mais escandaloso no discurso do personagem, é o descaramento demonstrado.

 

Então temos um sujeito que tem mentido aos Portugueses de forma compulsiva ao longo dos últimos 4 anos a acusar em tom revoltado os media, os jornalistas e os comentadores de mentir?

 

Então temos um sujeito que infligiu, em larga medida por opção, um sofrimento ímpar à grande maioria dos Portugueses e que não só não pede desculpa, como se compraz do que fez, a exigir que os media peçam desculpas públicas por comentários que ofenderam a criatura?

 

Então temos um sujeito que em 2011 garantia ter um plano para reduzir o peso e a despesa do Estado e que não só não o tinha como teve preguiça de o fazer, optando pela via cómoda de reduzir salários e aumentar impostos, tem o dislate de rotular os comentadores de preguiçosos?

 

Então temos um sujeito que se recusa a prestar esclarecimentos e justificações sobre dinheiro suspeito que recebeu, aparentemente ao arrepio das regras parlamentares e à margem do fisco, esconde-se atrás da sua maioria e da prescrição, a acusar os comentadores de desonestos?

 

Finalmente, haverá algo mais patético do que um sujeito que ameaça e maltrata os que julga fracos e vulneráveis, como os funcionários públicos, os reformados e pensionistas, ou os jovens à procura de emprego, e se encolhe, humilha e enxovalha perante os fortes e poderosos, sejam eles os detentores das PPP, as empresas energéticas, os bancos, o os poderes de Berlim, Washington, Frankfurt, ou Bruxelas?

 

Passos Coelho é um pobre de espírito, destituído de carácter, ignorante e de má índole, ainda tem o supremo descaramento de invectivar quem quer que seja? Calhorda!

12 outubro, 2014

Cavaco Silva e a sua Pensão


CAVACO SILVA E A SUA PENSÃO

 

 

Cavaco Silva conduziu a sua carreira política com um discurso e atitudes anti-partidárias. Umas vezes fê-lo de forma vincada, outras de forma velada. Contudo, construiu a sua bem sucedida carreira política firmemente apoiado num e por um partido: o Partido Social Democrata.

 

Cavaco Silva catapultou-se para uma década de sucesso político (3 vitórias eleitorais, 2 maiorias absolutas e 10 anos como Primeiro-Ministro) com uma atitude DE ruptura: rompeu o consenso partidário de então (1985) entre PS e PSD, o chamado Bloco Central.

 

Esse mesmo Cavaco Silva, aproveitou o 5 de Outubro para exultar pela enésima vez nos últimos dois anos a “cultura do compromisso” e o consenso entre os partidos. Fá-lo contra a sua prática passada, fá-lo contra a evidência de divergências (aparentemente) insanáveis entre os partidos e fá-lo contra o interesse e a necessidade de um sistema político democrático disponibilizar alternativas aos eleitores.

 

Cavaco Silva (e o PSD) defende a reforma do sistema político para “aproximar políticos e eleitores”. O que ele não faz é explicar como reduz o número de deputados, aproxima os mesmos dos eleitores (cada deputado passaria a representar mais eleitores) e como mantém o sistema proporcional (com credibilidade).

 

Cavaco Silva ataca aqueles que fazem “promessas de facilidades” e condena a “demagogia e o populismo”. Contudo, o mesmo Cavaco, apadrinha e protege um Governo que atropela o seu programa eleitoral e as promessas e declarações que fez. O mesmo Cavaco Silva, Presidente da República, ignora olimpicamente os desmandos e os abusos praticados pelo seu governo sobre a maioria dos Portugueses. A única coisa que o apoquenta é a problemática das pensões na medida em que o afecta pessoalmente.

 

A realidade é que Cavaco Silva, seja por solidariedade partidária, seja por servilismo ao exterior, seja por medo de enfrentar certos poderes, subscreve e apoia as medidas extorsionistas do actual Governo (excepto as das pensões quando ele é afectado).

 

Penso por isso, que a razão do desespero pelo consenso que Cavaco vem demonstrando, contra-natura, advém do pavor de que algumas das medidas mais gravosas do Governo venham a ser desfeitas ou mitigadas pelo próximo (excepto as das pensões….). Infelizmente não acho que tal seja muito provável, mas é um risco.

 

Portanto temos a ironia (descaramento?) de um Presidente da República discursar no Dia da República, cuja extinção da lista dos feriados nacionais apoiou, a defender conceitos a que sempre se mostrou alheio, apoiando um governo que atropela a ética que ele (Cavaco) pretende defender em suposto favor de uma população que já não os pode ver (a Cavaco e ao Governo).

 

P.S. Será que a próxima reforma (gravosa, é claro) das pensões, exemptará de novas taxas e sobre-taxas todos os doutorados e só os doutorados, desde que nascidos em Boliqueime e apenas em Boliqueime? Então, o apoio de Cavaco Silva ao Governo será total e incondicional.

07 junho, 2014

Foras da Lei


FORAS DA LEI

 Como é que se qualificaria um grupo de pessoas que viola a lei de forma contumaz, ameaça e pressiona o tribunal durante o processo de deliberação, insulta e agride os juízes depois de ser anunciado o veredicto, ainda tem o desaforo de se vangloriar que vai repetir a ilegalidade de outra forma e, finalmente, cumpre a ameaça, repetindo depois todo o processo?


Bandidos? Criminosos? Bandoleiros? Mafiosos? Gente de má índole? Tiranetes? Foras da lei?



Membros do Governo disfarçados de Irmãos Metralha.


“Incompreensível”, diz Coelho com um fácies revoltado, como se alguém se surpreendesse por ele não compreender um acórdão do Tribunal Constitucional (TC). Uma pequena ajuda gratuita: É PROIBIDO violar a Constituição. Também é proibido roubar e isso nunca o deteve, talvez decorra daí a confusão do infeliz.


“Servidão fiscal” clama Paulo Portas com aquele trejeito que faz quando acha que desferiu um sound byte demolidor. O Ministro das cervejas, perdão, da Economia fez de câmara de ressonância do chefe. Temos, pois, o Vice-Primeiro-Ministro do Governo que aplicou os mais violentos e gravosos roubos fiscais de que há memória, a acusar alguém de pugnar pela servidão fiscal. É preciso, além de se ser fora da lei, ter um descaramento colossal.


Marco António Costa, o caceteiro de serviço do PSD de Coelho, acusou o TC de invadir a área de competência do Parlamento, sendo que o putativo visado não se queixou. Portanto, para o PSD actual, a fiscalização da constitucionalidade dos diplomas legais deve estar na esfera parlamentar, pelo menos enquanto lá estiver em maioria.


Coelho, cego de raiva por não o deixarem fazer o que lhe apetece, atacou os juízes do TC por terem insuficiente escrutínio na altura da sua selecção, acusação espantosa vinda de um parasita incompetente e desonesto que chegou a Primeiro-Ministro.


Claramente, esta quadrilha de foras da lei não tem:


            * Vergonha na cara;

            * Limites para a capacidade de extorquir os cidadãos;

            * Espírito democrático.


E tem:


            * Um grande desrespeito pelas leis, instituições e pessoas;

            * Um tremendo mau perder;

            * Uma subserviência miserável para com os fortes, cá dentro e lá fora.


Algumas questões pertinentes:


1- Porque é que o Governo não faz a verdadeira e prometida reforma do Estado, tornando-o mais eficaz e reduzindo-lhe as competências e áreas de intervenção?


2- Porque é que o Governo não corta drasticamente as despesas sumptuárias, os estudos, as comissões, os pareceres milionários e os serviços contratados junto do sector financeiro?


3- Porque é que o Governo não moraliza o sector energético, talvez a única recomendação da Troika que se recusa a seguir?


4- Porque é que o Governo não revê de forma drástica as PPP, unilateralmente se preciso for?


Em relação às questões 3 e 4, se há coisa que o Governo tem praticado nestes 3 anos, é a alteração unilateral e compulsiva de contratos e compromissos, portanto não há desculpas para não o fazer com todos.


Isso não acontecerá porque o Governo comporta-se como o pequeno gangster de bairro que pratica a extorsão aos pequenos comerciantes que aterroriza com ameaças de espancamento a quem ousar resistir, mas que foge amedrontado quando confrontado com máfias mais poderosas.


Além de serem foras da lei, são cobardes!



P.S. Há, porém, um aspecto que é de facto incompreensível: que a inconstitucionalidade só valha de Junho a Dezembro e não exista entre Janeiro e Maio. Já é a segunda vez que o TC faz esta habilidade, mas a justiça salomónica raramente é justa e este não é, definitivamente, um desses casos.

27 maio, 2014

Grande Manguito


GRANDE MANGUITO



A insatisfação com o Governo levou os Portugueses a castigar PSD e CDS com o pior resultado conjunto de sempre.


A desconfiança do PS, levou os Portugueses a conceder-lhe uma pequena vitória com contornos de Pirro.


O desprezo pela classe política e pelas eleições europeias e a desesperança, levou a um record de 66% dos eleitores a não votar.


Os insatisfeitos mais activos foram votar, mas canalizaram o seu protesto para partidos sem responsabilidades governativas presentes ou recentes (PCP), para um conhecido desconhecido (Marinho e Pinto), ou para o voto branco ou nulo.


Com uma votação colectiva na ordem dos 58%, um mínimo histórico, pode dizer-se que PSD, PS e CDS levaram um manguito do povo português. Merecido, acrescentamos nós.


O perene Zé Povinho de Rafael Bordalo Pinheiro fazendo o manguito aos partidos do poder em Portugal.

  
VENCIDOS:


* PSD+CDS: Levaram um banho histórico. Pela primeira vez desde que há eleições democráticas (39 anos), os dois partidos não somaram sequer 30%. Ficaram pelos 27%. A distância para o PS não foi grande, mas foi disfarçada pelo 2 em 1 que representou a coligação. Coelho e Portas tentaram chamar a atenção para a vitória escassa do PS, mas a derrota clamorosa da coligação não é disfarçável e os motivos são bem conhecidos: governação desastrosa, punição impiedosa dos Portugueses, mentiras sucessivas, servilismo ao exterior. Há mais, mas estes bastam. Aliás, os dois líderes mostraram que esperavam perder por 8 ou 10, mas perder por 4 foi fraco consolo.


* PS: Foi o vencedor nominal, mas protagonizou a vitória mais pírrica de que há memória. Vencer com 4% de vantagem sobre os partidos de um governo execrável é como ficar excitado por Portugal vencer San Marino por 1-0. Medíocre, à imagem do líder.


* BE: Em queda livre, resume a situação actual do Bloco de Esquerda, que em 5 anos passou de estrela ascendente do panorama político português a um moribundo candidato a protagonizar a sequela PRD Parte II. Passou o efeito novidade, passou a ilusão de diferença, passou Louçã. Ficou um partido normal, ficou um partido sem rumo e ficaram Catarina & Semedo. Há 9 meses escrevemos que o “O BE virou Bloquinho”. Agora só podemos acrescentar que o Bloco ficou sem folhas.



VENCEDORES:


* PCP: E o PCP ganhou outra vez. Mais um deputado e 2º melhor resultado de sempre em eleições europeias (13%). Parece que a coerência e credibilidade dão resultado, bem como ser trabalhador, organizado, com militância, eleitorado fiel (e fiel ao eleitorado) e presença na rua e no trabalho. Quando os outros são muito maus, a competência ainda mais se salienta.

Abstenção: Por protesto, desprezo, ou preguiça, a mole imensa de 66% dos Portugueses eleitores mandou a política, os políticos e o Parlamento Europeu às urtigas e não compareceu. Não votou. Tiveram a atenção compungida dos políticos na noite eleitoral em mais um exercício recorrente de hipocrisia de quem pouco ou nada se importa com o estado do país e da democracia. Duvido que algum se tenha arrependido de ser abstido.

* Marinho e Pinto: Confesso que fiquei atónito com os resultados do MPT aka Marinho e Pinto. Um sucesso estrondoso na estreia eleitoral. Este sucesso, além de resultar do sedimentado conhecimento púbico do ex-bastonário da Ordem dos Advogados e do seu jeito peculiar mas eficaz de comunicar, é também fruto da falência dos políticos do sistema. Marinho foi um dos veículos que os Portugueses escolheram para gritar o seu protesto.

Aliança Brancos e Nulos: Foram quase ¼ de milhão. É a aliança daqueles que não abdicam do direito de votar e não se revêem na oferta partidária que temos. Eu votei branco pela 3ª vez consecutiva e assim continuarei enquanto não houver uma alternativa séria, honesta, não totalitária e de direita.



NOTAS SOLTAS:


* Eurocepticismo. À falta de melhor para dizer, Coelho resolveu manifestar a enorme preocupação com o eurocepticismo que põe em causa o ideal (?) europeu. Porquê? Não se pode ser contra? É crime não gostar? Já pensou que são incompetentes e desonestos como ele próprio que são a maior ameaça ao tal projecto europeu?


* Ridículo. Estivemos à espera de resultados até às 22.00 porque….os Italianos ainda estavam a votar. Sim, porque se em Itália soubessem os nossos resultados, tal informação teria um efeito telúrico nos resultados eleitorais italianos. Se o ridículo matasse….


* Novo. Marinho Pinto é o novo hype da política portuguesa. Já se fala de legislativas, de presidenciais e o que mais haja, É preciso prudência para verificar se não se trata de fogo fátuo. De qualquer modo, as legislativas seriam uma má aposta: implicam uma estrutura com Abrangência nacional, centenas de candidatos, listas, ou seja, é demasiado complicado para marinho. As Presidenciais sim, adequam-se ao seu estilo one man band e com uma ou duas aparições por dia, com o interesse dos media que desta vez não teve e possivelmente enfrentando candidatos desgastados perante o eleitorado, pode fazer estragos.


* Semi-Novo. Rui Tavares é recente mas já não é novo na política. Aliás ainda é deputado no PE, apesar de ter abandonado o partido (BE) pelo qual foi eleito. Já se sabia que Tavares e o Livre iam atrair a atenção de alguns media e intelectuais saturados do BE e ansiosos por uma novidade; também era previsível que fora das zonas mais urbanas do Sul a sua votação fosse inexpressiva. Em 2015 ele voltará à carga como cabeça de lista do livre por Lisboa; se for eleito o Livre continuará mais uns anos, se falhar, definhará irreversivelmente. A melhor aposta para um indivíduo como Tavares é apanhar uma boleia do PS à procura de novos mercados e com vocação para albergue espanhol.

07 novembro, 2013

Diálogos e Consensos

DIÁLOGOS E CONSENSOS

 
Depois das investidas de Cavaco Silva no Verão, a questão da premência e obrigatoriedade do diálogo e do consenso voltou à baila, desta vez por iniciativa do Governo e das suas extensões: o CDS e, especialmente, o PSD. A esta renovada pressão, junta-se o clamor dos opinion makers do regime. O alvo é o PS.

A pressão é intensa: Cavaco Silva diz que sem diálogos e consensos não somos um país europeu normal; Marco António acrescenta que o PS se tornou um partido radical; outros declaram que o PS não tem alternativa – TEM que se sentar à mesa das negociações.


Que fundamento e viabilidade têm estes apelos/ameaças?


Recuemos a 2011. Passos Coelho faz tremendos ataques ao Governo de José Sócrates e promessas de red lines que não pisará. José Sócrates negoceia o PEC IV à sorrelfa, sem dar cavaco a Cavaco nem ao PSD. O PSD, CDS, PCP e BE chumbam o PEC IV. O Governo demite-se. Vem o Memorando de Entendimento com a Troika, uma campanha eleitoral agreste e tensa, eleições e um novo governo.


Em retrospectiva, o chumbo do PEC IV pelo PSD e CDS foi um erro crasso. Bem, na verdade foi uma manobra de assalto ao poder. Derrubado o governo, Passos Coelho subscreve um memorando mal negociado por Sócrates e pelo seu incompetente Ministro das Finanças (Teixeira dos Santos), mais duro do que o PEC IV, renegando uma boa parte das suas promessas eleitorais (ver “Outro Mentiroso” em http://tempos-interessantes.blogspot.pt/2011/07/outro-mentiroso.html ). As outras seriam repelidas já no governo.


Após estes acontecimentos, entre o PS socrático e o PSD coelhista só há bad blood. Contudo, com o cadáver de Sócrates ainda quente, António José Seguro anuncia que é candidato à liderança do PS, para a qual vem a ser eleito. Numa primeira fase da sua liderança, Seguro colabora com o Governo, mesmo fazendo umas ameaças ocas pelo meio (ver “O Idiota Útil” em http://tempos-interessantes.blogspot.pt/2012/04/o-idiota-util-antonio-jose-seguro-foto.html  ).


Instalado no poder, com o conforto de uma maioria parlamentar laranja-azul, Passos Coelho e o PSD desprezam Seguro e o PS. Em bom Português, não lhe passam cartão e recusam qualquer diálogo com significado. Por muito sonso que fosse, chegou o ponto em que Seguro se fartou e começou a opor-se efectivamente ao Governo, votando contra o orçamento de Estado de 2012. Com a nova postura verificou que evitava grande parte das chatices internas no PS e ainda ganhava popularidade. E à falta de melhor, endureceu a postura em relação ao PSD.


Sucede que em 2012 o Governo começa a ver o comboio da governação a andar para trás. De forma mais precisa, a descarrilar. Então fez-se luz no PSD: com o navio a meter água por todos os buracos orçamentais, há que envolver o PS no processo de aplicação do Memorando, dar um balde ao Seguro e pô-lo a tirar água do navio. Este, contudo, satisfeito com os resultados da sua nova postura e com as renovadas perspectivas de sobrevivência política, disse que não: vocês meteram água, agora tirem-na.


Em 2013, com as eleições autárquicas no horizonte, a vontade do PS em negociar diminui proporcionalmente ao agravamento da desagregação do Governo. Para conter a crise política, o Presidente da República obriga PSD, PS e CDS a negociar. Já era tarde. Para prevenir qualquer recaída de Seguro, o PS jurássico emitiu avisos à navegação que torpedearam à nascença a remota hipótese de consenso.


Seja como for, os maus resultados da governação aliados aos bons resultados das Autárquicas, puseram Seguro em election mode: só quer eleições e quanto mais cedo melhor, não vá o balão esvaziar. Tal como Sócrates e Coelho antes dele, Seguro só pensa em ser Primeiro-Ministro. Espera-se que, se lá chegar, tal não aconteça de forma espúria como o anterior e o actual.


Por sua vez, PSD e CDS perderam o timing do diálogo e do consenso por soberba. Agora querem fazê-lo em desespero de causa e por dois motivos: por um lado, para arrastar o PS para um acordo que o torne cúmplice e co-responsável por uma governação desastrosa e extremamente impopular; por outro lado, para aprofundar e perpetuar os desígnios programáticos do Governo para além da Troika.


A assinatura do memorando de Entendimento foi um episódio de convergência acidental entre um Sócrates encostado à parede e um Coelho ávido do poder que estava a um passo de distância. A partir daí, os partidos divergiram continuamente, crisparam e barricaram-se nas respectivas trincheiras. Face à magnitude das divergências e do antagonismo, qualquer acordo assinado agora seria uma manifestação de hipocrisia ou o resultado de forte coacção, provavelmente externa.

É grave este afastamento e crispação? É grave a falta de consenso?

Não e não. Eu sei que a opinião publicada e transmitida tem vindo num clamor crescente pedindo/exigindo diálogos, consensos e acordos, mas trata-se de pessoas que em regra pertencem ao sistema, onde pululam os interesses, as trocas de favores e os acordos interesseiros, mas a resposta é mesmo “Não”.


Estou convencido que os Portugueses querem e precisam de alternativas e possibilidades de escolha. Também estou ciente de que o actual PS está longe de oferecer uma alternativa de confiança e não contará com o meu voto. Não obstante, penso que será difícil fazer pior, ou até tão mal como o actual Governo.


Portugal não precisa de acordos suspeitos que visem decidir pelos Portugueses o que cabe aos Portugueses decidir. Umas eleições entre o António José Coelho e o Pedro Passos Seguro seria um pesadelo a somar ao que já vivemos.


02 outubro, 2013

Vencedores, Vencidos e Outras Cenas

VENCEDORES, VENCIDOS E OUTRAS CENAS

 
Algumas notas sobre as eleições autárquicas: vencedores, vencidos e outras cenas.

VENCEDORES:


* PS. Foi o vencedor. Teve mais votos, venceu em mais concelhos, obteve o maior número de presidências de câmara da sua história (150), conquistou câmaras importantes, como Coimbra, Sintra, Gaia e Funchal e ficou com  44 câmaras municipais de vantagem sobre o PSD. Negativo foi a perda de autarquias relevantes para o PCP (Évora, Beja, Loures) e PSD (Braga e Guarda) e para um ex-PS (Matosinhos). Os media insistem que a vitória retumbante de António Costa em Lisboa lhe dá carta de alforria para desafiar Seguro, mas creio que é pouco provável, a não ser que as europeias corram mal, dado que Seguro liderou uma vitória inequívoca no país quase todo.


* PCP. Ganhou muito. Já dediquei um post ao PCP (“Assim Se Vê a Força do PC” em http://tempos-interessantes.blogspot.pt/2013/10/assim-se-ve-forca-do-pc.html ), pois o PCP venceu em toda a linha: aumentou as câmaras (de 28 para 34), as câmaras emblemáticas, os votos, a percentagem de votação, obteve a hegemonia no Alentejo e Península de Setúbal e o melhor resultado desde 1997 (41 câmaras). Pedia-se um Jerónimo de Sousa com um ar mais jovial e distendido na conferência de imprensa da noite eleitoral. Estamos em crise, mas uma vitória não é para encarar de forma carrancuda.


* CDS. Desde 2001 que o CDS estava reduzido a uma Câmara Municipal: Ponte de Lima. Este Domingo subiu o total para 5 (três conquistadas ao PSD e uma ao PS), com participação numa 6ª, dado que foi o único partido a apoiar a e a participar na candidatura vencedora no Porto. Cinco câmaras não é excepcional, mas representa uma viragem. Tal como o PCP, o CDS obteve o melhor resultado desde 1997 (8 câmaras). Para Paulo Portas foi um balão de oxigénio no momento oportuno, depois da trapalhada da irreversibilidade há 4 meses atrás. Aliás, ao contrário de Jerónimo de Sousa, Portas estava eufórico, com um sorriso rasgado e quase aos pulos quando anunciava os cinco triunfos. Pudera, ganhou novo fôlego no Partido e ainda conseguiu demarcar-se da hecatombe eleitoral da coligação que governa o país.


* Voto de protesto (Brancos & Nulos). Os votos brancos e nulos, forma de protesto mais eficaz e inequívoca do que a abstenção, mais do que duplicou para 340.000, atingindo um score equiparável aos independentes. Este voto crescente demonstra que o descontentamento de muitas pessoas não se cinge ao partido A, B, ou C, mas é transversal a todos eles. Houve 324.000 eleitores (7% do total) que se deram ao trabalho de se deslocar à assembleia de voto para dizer que não se revêem nas candidaturas apresentadas. Esta é a principal mensagem que o sistema partidário devia ouvir. Infelizmente, nem esta nem outras serão captadas e digeridas pelos partidos.


* Independentes. Também ganharam. Nada menos do que 13 câmaras. Contudo, não partilho o entusiasmo desenfreado que grassa na opinião publicada sobre os independentes. Não acredito que sejam uma solução salvífica para os problemas do sistema político. Tal como acontece com os candidatos partidários, haverá os bons, os medianos e os maus. A minha experiência passada e a minha observação presente, também me leva a concluir que a maioria dos independentes, não o é verdadeiramente. A maioria foi preterida pelo seu partido e, não acatando essa decisão, concorre à revelia do partido, mas levando com ele a maioria da estrutura e candidatos, do partido, que com ele já haviam concorrido. Tal foi o caso de Guilherme Pinto em Matosinhos e de Adelaide Teixeira em Portalegre, como já havia sido o caso de Valentim Loureiro, Isaltino Morais e Fátima Felgueiras. Mesmo Rui Moreira, que não tinha lastro partidário, contou com o apoio do CDS e de parte substancial do PSD-Porto; para todos os efeitos, teve a máquina eleitoral do CDS de forma aberta e de algum PSD de forma encapotada. Não obstante, o certo é que obtiveram resultados muito positivos e a vitória no Porto não deixa de ser um feito assinalável. É óbvio que Rui Moreira criou expectativas dentro e fora do Porto e se o seu mandato for um sucesso poderá constituir um incentivo para o independentismo. Se for uma mera extensão de Rio, o balão esvaziará.

 
 
VENCIDOS:

* PSD. Foi o perdedor. Perdeu câmaras, votos, percentagem e ânimo. Teve, aliás, o pior resultado de sempre: 106 câmaras (em 1989 teve 113). Na coluna das perdas amontoam-se o Porto, Coimbra, Sintra, Vila Real, Gaia, Funchal, enquanto os únicos ganhos relevantes foram Braga e Guarda. Passos Coelho surgiu na noite eleitoral para fazer a “leitura nacional dos resultados” e reconheceu a estrondosa derrota. Dito isto, deixou de saber ler e declarou que não retirava qualquer consequência da pesada derrota. Não esperava outra coisa. Fica a imagem de um líder tristonho e sozinho que continua a ter uns assomos de sobranceria. Contudo, quando em Maio de 2014 somar uma provável nova derrota, o isolamento será maior, como maior será o número de cortesãos a afiar as adagas nos bastidores. Um exercício interessante será o de tentar perceber quem será o “Bruto” que avança e crava primeiro.


* Bloco de Esquerda. O BE virou Bloquinho. Não o digo com carinho, que não tenho, mas porque foi aquilo a que o BE ficou reduzido. Perdeu a câmara que herdara e ficou à porta das vereações de Lisboa e Porto. Foi deprimente ver João Semedo vestido do mesmo azul que o background do palco (parecia que estava atrás de um daqueles bonecos de feira onde se coloca a cabeça para tirar uma foto), vergado ao peso da derrota, a vociferar contra a Direita e Alberto João Jardim apontando a sua (deles) colossal derrota tentando omitir a sua (dele próprio) derrota colossal. Será que o BE bicéfalo está a ficar acéfalo?


OUTRAS CENAS:

* Oeiras foi o palco do surrealismo. O candidato vencedor, Paulo Vistas, clamava louvores a um presidiário chamado Isaltino Morais, com o mesmo fervor fanático dos pregadores de certas seitas. Os apaniguados do vencedor foram comemorar para o exterior da prisão para partilhar o triunfo com o referido presidiário. Este foi um dos tais independentes que ganhou, apesar de ser doentiamente dependente. Do presidiário, claro está. A este ritmo, poderemos vir a ter os irmãos Dalton a liderar o concelho.


* O Porto foi o palco da falta de fair-play. Manuel Pizarro protagonizou a mais miserável intervenção da noite. Ele perdeu as eleições, mas bajulou o vencedor (ai a vereação, que vontade!) e regozijou-se de forma larvar e raivosa com a derrota de Luís Filipe Menezes, atirando aleivosias como quem atira perdigotos. Lamentável. O vencedor Rui Moreira, cumprimentou o rival do PS e ignora o concorrente do PSD, que algum tempo antes o havia felicitado e feito um apelo à colaboração com o vencedor. Muita prosápia acerca de ser diferente, mas a mesma falta de chá de muitos outros. Menezes pode ter muitos defeitos, mas foi dos três o que teve uma postura mais digna na noite eleitoral.


* Acerto de Contas. Rui Rio e Luís Filipe Menezes há muitos anos que nutrem um ódio de estimação mútuo. Quis o destino que gerissem duas câmaras em simultâneo nas duas margens do trecho final do Douro. Mais do que o poderoso rio (o Douro), separava-os o estilo, o feitio e o modelo de governação; nem o partido comum (PSD) os unia. Só o ódio. O destino maroto obrigou-os a deixar os respectivos cargos na mesma altura. Menezes arriscou atravessar o Douro. Rio (o Rui) optou por ficar em casa e, de pés enxutos, minou e armadilhou o trilho de Menezes da Ribeira à Avenida dos Aliados. Menezes soçobrou e Rio ganhou sem ir a jogo. Não creio que tenha sido o combate final.


* Blá, Blá, Blá. Porque será que nas noites eleitorais, os porta-vozes dos perdedores, derrotados e esmagados gastam a sua intervenção inicial com platitudes? Dizem, por exemplo: “Quero felicitar os Portugueses, blá, blá, blá, pelo enorme civismo e maturidade democrática, blá, blá, pela forma ordeira e sem incidentes como decorreu o acto eleitoral, blá, blá, blá…”, enquanto pensam: “Que grande banhada que levámos! Quem me dera estar longe daqui… Será que o gajo (o líder) se demite ainda hoje? A quem me devo colar? Tenho de me pôr a mexer!” Este papel no Domingo coube a Marco António (o do PSD).