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11 dezembro, 2006

"Portugal Merece Melhor"

“PORTUGAL MERECE MELHOR”

Portugal padece de um mal comum a muitas democracias: uma ausência de reais políticas alternativas. Os principais partidos têm uma vincada diferença histórica e programática, mas o dito pragmatismo e a luta desenfreada pelo centro político, fazem com que não tenham muito mais do que nuances de direita ou de esquerda.

Conquistado o poder, frequentemente as grandes linhas de acção conhecem vários pontos em comum, havendo casos, como no Reino Unido com o Labour de Tony Blair e em Portugal com o PS de José Sócrates, em que os partidos vencedores se apropriam de algumas bandeiras características dos seus adversários, assim retirando-lhes uma parte da respectiva base de apoio.

Neste tipo de cenários, o papel da oposição alternativa ao governo torna-se mais complicado do que o normal, pois a gradual confluência da praxis política estreita o espaço para a crítica, retira credibilidade aos ataques à acção governativa e, à falta de uma real e completa alternativa, confina o exercício da oposição ao trivial, ao acessório, ao fait-divers. Por outras palavras, aniquila-a.

Daí, alguns terem concluído que o poder não se ganha, mas sim que se perde. Não deixando de ser, por vezes, verdade, esta convicção conduz à prostração e passividade políticas, tornando-se o líder de oposição bem sucedido aquele que, pelo timing em que exerce o cargo, ou pela tenacidade com que a ele se agarra, se encontra nessa posição quando o poder efectiva e eventualmente, cai de podre.

Foi por recusar este estado de resignação, foi por ter alergia a este síndroma do politicamente correcto que assola as democracias europeias do nosso tempo e que conduz a uma crescente igualdade de políticas, foi por ter consciência que a democracia definha à falta de reais e credíveis alternativas, que no simbólico dia 1 de Dezembro, fui a Gaia participar no almoço realizado sob o lema “Portugal Merece Melhor”.

O slogan foi bem achado e é difícil não concordar com ele. Eu também apreciei a extraordinária mobilização (perto de 3000 pessoas) num período amorfo de militância político-partidária, o profissionalismo com que o evento foi organizado que o assemelhou à apresentação de um candidato a Primeiro-Ministro e, principalmente, o conteúdo das intervenções, nas quais foi feita uma real e implacável oposição ao governo do PS e se adiantaram algumas alternativas substantivas e não meramente retóricas ou cosméticas.

Luís Filipe Menezes está de parabéns. Contudo, como médico, saberá melhor do que eu que a última coisa que um doente em situação difícil precisa é de falsas esperanças; o fatal regresso à realidade coloca-o num estado de desespero e desesperança superior ao anterior. A sua responsabilidade é demonstrar ao paciente, até 2009 e nos quatro anos seguintes (se for caso disso), que tem efectivamente receitas e remédios diferentes e mais eficazes para Portugal do que aqueles que nos têm sido apresentados. Para bem de todos, desejo-lhe muito boa sorte, engenho e arte.

28 setembro, 2006

The Long Goodbye

THE LONG GOODBYE
 

Tony Blair riding into the Sunset.
in "The Economist", 28 September 2006

Tony Blair é o estadista europeu de maior sucesso da última década. Está no poder há 9 anos, conquistou três vitórias absolutas consecutivas (feito inédito para o Labour) e vai retirar-se pouco depois de completar 10 anos no 10, Downing Street. Melhor do que ele em longevidade, só mesmo Lady Margaret Thatcher.

Para além da longevidade, Blair distinguiu-se por ser um político que destacou do cinzentismo e/ou incompetência de grande parte dos seus contemporâneos: Chirac, Schroeder, Berlusconi, para citar alguns, combinavam oportunismo com incompetência, por vezes roçando a desonestidade. França, Alemanha e Itália, marcaram passo, enquanto que o Reino Unido se destacava da Itália e ultrapassava a França para se tornar na 4ª economia mundial. Acrescente-se que, ao ritmo dos últimos anos, poderá mesmo ultrapassar a Alemanha na segunda metade da próxima década. Mesmo herdando uma economia em recuperação, Blair teve o mérito de manter o caminho das reformas e da liberalização, tornando o Reino Unido numa das poucas excepções de competitividade e crescimento sólido na Europa.

Na política externa e de defesa, pode-se discordar da linha seguida pelo Governo de Londres, mas o certo é que demonstrou coerência, coragem e determinação, que encontraram do outro lado do Canal o eco da tradicional diplomacia palavrosa, espalhafatosa, arrogante, mas inconsequente, sem substância e sem capacidade de agir e ter reais alternativas.

Actualmente, o Reino Unido é um país que tem capacidade de intervenção militar no exterior só superada pelos Estados Unidos, tem a melhor e mais próxima relação com a única Superpotência, é muito menos periférico na Europa, por força do seu sucesso económico e do alargamento, que levou ao enfraquecimento do Eixo Paris-Berlim e a maiores possibilidades de encontrar aliados, como foi patente nas cisões que antecederam a guerra do Iraque.

Curiosamente, os Trabalhistas parecem ansiosos por ver sair o líder mais bem sucedido da sua história. A vontade de se posicionarem para o pós-Blair e garantirem os melhores cargos, parece estar a dominar o pensamento, as emoções e as acções de muitos deputados do Partido. Visto de longe, parece-me um exercício auto-fágico, em que se anseia pela saída de um vencedor, para antecipar a entrada de Gordon Brown, um sucessor que carece do brilho e do carisma de Blair. É um caso raro em que os ratos querem permanecer no navio em dificuldades e urgem o capitão para que saia. Consequentemente, o mais provável é que Tony Blair saia em meados de 2007 pela porta grande e de pés enxutos, enquanto que os ratos gananciosos vão tomar conta do navio e, possivelmente, conduzi-lo ao naufrágio em 2009. Serves them right.