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30 abril, 2015

Bloqueio



BLOQUEIO


Há dias (semanas) assim. Pego na pena (lápis, caneta, teclado), encosto-a ao papel e…nada. Nem frases, nem palavras, nem ideias. Niente. É o terrível Bloqueio.

Depois de 2 anos de escrita prolífica (perto de 200 posts), eis que nos últimos 2 meses se instalou a míngua. Ironicamente, nestes meses Tempos Interessantes tem tido uma procura explosiva, de tal forma que o 1º terço de 2015 já vale mais do que qualquer dos anos anteriores.



Um mapa com o Bloqueio naval imposto pelos EUA a Cuba em 1962. Também se trata de um Bloqueio, tem a ver com RI e acrescenta (mais) um toque surreal a este post.

Mas então não se passa nada de interessante? Síria? Iraque? Ucrânia? Iémen? Líbia? Grécia? Reino Unido? Irão? De facto passam-se coisas interessantes, mas com um toque de déjà vu.

Na Síria, as múltiplas partes na refrega continuam a matar-se ao ritmo de umas dezenas de milhar/ano desde 2011.

No Iraque, o Estado Islâmico continua a matar em compita com as milícias xiitas que também continuam a matar. Confesso que me causa repulsa e perplexidade ver os Americanos num exercício de estultícia a ajudar o Irão e as milícias que controla no Iraque.

Na Ucrânia o cessar-fogo vai aguentando com uma fuzilaria de vez em quando, mas predomina uma certa modorra fatalista.

No Iémen, de quem muitos nem teriam ouvido falar antes de 2011/12, temos uma espécie de mini-Síria com um governo acossado, rebeldes xiitas dominando metade do país, a Arábia Saudita a bombardear e o Irão a apoiar os seus peões. E ainda uma franchise da Al-Qaeda em renovada ascensão. Muito déjà vu. Tempos Interessantes até já dedicou 2 posts a este país desgraçado.

Na Líbia quase poderia fazer um copy-paste do Iémen, até na existência de dois governos, com a diferença de já lhe ter dedicado 5 posts.

Na Grécia, enfim, continuo à espera, confortavelmente sentado para não me cansar muito, que o Sr. Tsipras mande a Troika e a Alemanha às ortigas. E sim, a Grécia também já foi contemplada com 4 posts.

No Reino Unido, sobre o qual já terei publicado pelo menos 10 posts, resta-me aguardar e fazer figas para que os Conservadores ganhem novamente. Até lá não digo nada.

No Irão também não há muito a dizer. O acordo entre o Irão e o P5+1 é uma fatalidade inevitável. Aliás, fontes bem colocadas confidenciaram-me que só falta mais uma concessão dos Estados Unidos para selar definitivamente o acordo: que Obama entregue as chaves da Casa Branca ao Ayatollah Ali Khamenei.

Independentemente das dificuldades de contexto, a responsabilidade do Bloqueio reside, em última instância, no escriba. Assim sendo, encontrei uma forma de combater o Bloqueio: escrever sobre. O meu lápis atacou com sucesso duas páginas em branco, preenchendo-as com um texto. Quebrou-se o feitiço bloqueador, o blog respira melhor, o lápis exulta e eu sinto um indisfarçável alívio: já consigo escrever outra vez.

Até amanhã!

18 novembro, 2013

Confidências e Confissões II

CONFIDÊNCIAS E CONFISSÕES II

 
As Relações Internacionais são uma paixão para mim. É uma paixão que vem de longe: ainda adolescente, aos 12/13 anos lia “O Primeiro de Janeiro”, o jornal que os meus Pais, a minha Avó materna e o meu Avô paterno compravam diariamente. Eram três as secções que sorvia com avidez: as tiras de BD, o “Desporto” e o “Internacional”.

No 10º ano, no âmbito da disciplina de Jornalismo, criámos um jornal escolar para o qual escrevi um artigo prevendo a vitória de Ronald Reagan sobre James Carter nas Presidenciais Americanas; apesar do cepticismo (e esquerdismo) da professora, 6 meses depois os factos deram-me razão.


Desde então, eu e as RI andámos quase sempre de braço dado: na escolha do curso superior (em segunda instância, confesso), na escolha da profissão (Professor na área de RI), no doutoramento, na actividade política parlamentar (Comissão de Defesa e Assembleia Parlamentar da NATO).


Actualmente, privado das aulas (outra paixão), este blog é o vector de partilha dos meus conhecimentos, pensamentos e opiniões sobre as Relações Internacionais. É certo que não me proporciona os momentos de partilha “ao vivo e a cores” inerentes às aulas até porque, se as visitas são muitas, o feedback directo (comentários) é relativamente reduzido, mas é o melhor sucedâneo que consigo encontrar.


Frequentemente, uma boa parte do dia que está descomprometida é passada a ler e pesquisar sobre RI, a História e a actualidade. O que acaba por ser vertido em Tempos Interessantes é uma parte quantitativamente menor do que é lido e analisado mas será, porventura, a melhor parte.


O blog permite-me romper o isolamento da minha biblioteca e aparecer às pessoas sob a forma de textos e de mapas e é uma prova de vida de quem, apreciando a solidão, não quer ser um eremita.


Tempos Interessantes e as Relações Internacionais são paixão, missão e devoção. Dão-me gozo.

04 novembro, 2012

As Quatro Potências do Médio Oriente - a Arábia Saudita


AS QUATRO POTÊNCIAS

DO MÉDIO ORIENTE

A ARÁBIA SAUDITA



ARÁBIA SAUDITA

A Arábia Saudita coincide e grande medida com a imagem geográfica que muitos têm do Médio Oriente, dado que ocupa a maior parte da Península Arábica. Como é óbvio a Arábia Saudita vale muito mais do que o nosso imaginário. Basta deixar dois apontamentos:


·        É o maior produtor. É o maior exportador mundial de petróleo. Possui as maiores resrevas conhecidas de petróleo.

·        É a guardiã dos dois lugares mais sagrados do Islamismo (Meca e Medina) onde o Profeta Maomé nasceu e viveu e recebeu de Alá os dogmas da fé.


O poder e a influência da Arábia Saudita assenta, portanto, em dois pilares: o económico e o religioso. Por um lado, estamos perante um país que gera receitas fabulosas oriundas do petróleo e que se senta, literalmente sobre um autêntico tesouro das Arábias (cerca de 262 biliões de barris!!!). Por outro lado, tem um papel liderante e influente sobre uma religião com mais de 1 bilião de devotos, em média mais pios e empenhados que os Cristãos do século XXI.


A isto podíamos acrescer a sua posição dominante na Península Arábica, ocupando um vasto território do Mar Vermelho ao Golfo Pérsico e exercendo um certo poder tutelar (mas não uniforme) sobre os seus parceiros no Conselho de Cooperação do Golfo (EAU, Oman, Kuwait, Qatar e Bahrain) e ainda sobre o Iémen.

Não obstante estes trunfos, a posição da Arábia Saudita no contexto do Médio Oriente surge sempre envolta num manto de prudência e vulnerabilidade. Numa era em que o dinheiro comanda a vida e também, em grande medida, as Relações Internacionais, porque é que o Estado mais rico da região apresenta vulnerabilidades marcantes?


1-   A população saudita (27 milhões) é significativamente menor do que as dos rivais que rondam todas os 80 milhões. Em termos de massa crítica, quer no potencial económico quer no militar, é um factor limitativo.

2-   Apesar das centenas de biliões de Dólares investidos em hardware militar, especialmente dos EUA, a capacidade militar saudita ainda se encontra uns patamares aquém da concorrência. Aqui o factor demográfico desempenha um papel, assim como o presumido fighting spirit (ou falta dele) das tropas e da população.

3-   A significativa minoria xiita, concentrada na Província Oriental (ver mapa infra) é uma vulnerabilidade e existem indícios que o Irão tenta fomentar a revolta dos xiitas, do mesmo modo que o faz no Bahrain. Acresce que esta província é muito rica em hidrocarbonetos.

4-   A política externa e de segurança saudita é tradicionalmente muito prudente e frequentemente reactiva. Num ambiente bastante agressivo e competitivo, onde potências rivais como o Irão não hesitam em recorrer à pressão, ao bluff, ao bullying, à ameaça, à desestabilização e à subversão, esta postura pode ser uma desvantagem, colocando Riyadh à mercê das movimentações dos rivais.

5-   Na linha do ponto anterior, a Arábia Saudita está habituada a pagar para resolver os problemas. Na década de 1980, financiou o Iraque para travar o avanço da Revolução Islâmica iraniana; em 1991 financiou o esforço de guerra aliado para expulsar os Iraquianos do Kuwait; na década passada financiava os insurgentes sunitas que, no Iraque, lutavam contra o emergente poder xiita; em 2011 gastaram dezenas de biliões de Dólares em apoios sociais para travar qualquer surto de “Primavera Árabe” no Reino; em 2012, financiam jihadistas para combater o regime alawita na Síria. Se, por um lado, é óptimo ter recursos financeiros to pay your way out of troubles, por outro lado, tal torna-se em algo muito mau quando a fonte do problema ou a solução para o mesmo, não são susceptíveis de serem influenciadas por pagamentos.

É, pois, nossa convicção que a Arábia Saudita será destas 4 potências a que menos probabilidades terá de se alcandorar a uma posição de domínio ou hegemonia no Médio Oriente. O motivo principal para tal será mesmo a falta de perfil do regime saudita para assumir tal papel. Se quisessemos definir o papel de excelência dos sauditas, esse seria o de éminence grise. Um país capaz e hábil a actuar nos bastidores, a aplicar o poder do seu dinheiro onde e quando necessário e possível e cortejando e coagindo a potência dominante (os Estados Unidos) a garantir a sua segurança. A isto acresce a manutenção do statu quo nos seus aliados mais próximos do GCC e a presença à mesa das negociações onde sejam discutidas e decididas as grandes questões regionais.

Em 5 palavras: importante e influente sim, dominante não.


A Província Oriental da Arábia Saudita: rica em petróleo e .... em Xiitas.

31 outubro, 2012

As Quatro Potências do Médio Oriente - O Irão


AS QUATRO POTÊNCIAS

DO MÉDIO ORIENTE

O IRÃO


 

IRÃO


O Irão é considerado por muitos estudiosos e analistas como o país com maior potencial no Médio Oriente. Pela sua dimensão (1.500.000km2), pela demografia (79 milhões de habitantes), pela riqueza e História da civilização Persa, pelo dinamismo e instrução da sociedade iraniana, pela riqueza em hidrocarbonetos, pelo poderio militar e pela posição geoestratégica – controla toda a costa setentrional do Golfo Pérsico, do Estreito de Ormuz e do Golfo de Oman, tem acesso ao Mar Cáspio e ocupa uma posição estratégica que faz de si um player no Médio Oriente, no Cáucaso e na Ásia Central.

No entanto, o Irão ocupa muitas manchetes na imprensa fundamentalmente por dois outros motivos: o regime teocrático liderado pelos ayatollahs e o programa nuclear. A questão é saber se estes dois factores são um multiplicador de poder ou um handicap.

As respostas são ambíguas.

A teocracia iraniana é, obviamente, um factor inibidor do progresso social e económico e a sua política de intransigência e agressividade tende a ostracizar o Irão e a semear inimigos e hostilidade.

O programa nuclear, fruto do regime e por ele protegido e nutrido é, acima de tudo, fautor de medos e inimizades que também tendem a isolar Teerão.

No entanto, o medo também gera respeito e pode comprar segurança. O certo é que a política externa e de segurança dos ayatollahs, aliada a factores externos como a neutralização e posterior eliminação do regime de Saddam Hussein no Iraque, catapultou o Irão para uma proeminência regional perdida em 1979 com o derrube do Xá.


Hoje em dia, o Irão goza de uma relativa invulnerabilidade e impunidade que só podem ser verdadeiramente violadas por Israel e por potências exógenas ao Médio Oriente. Mais, embora tenha gerado medos e ódios, Teerão também foi capaz de granjear aliados ou amigos em Bagdad, em Damasco, no Vale de Bekkaa (Hezbollah) e em Gaza (Hamas). E ainda em Moscovo, Pequim e …. Caracas.

O programa nuclear veio reforçar estes dois pólos: o do poder, prestígio e apoio acrescidos e o do crescente antagonismo, inimizade e receio. Sentimentos estes que não se confinam a Jerusalém, Washington, Londres ou Paris, mas se estendem a uma boa parte do Médio Oriente, nomeadamente à Arábia Saudita e aos emiratos do Golfo.

Afinal, o Médio Oriente é uma das regiões do globo onde a linguagem e o impacto do hard power são reconhecidos, praticados e temidos.

A situação actual e prospectiva do Irão pode resumir-se assim:

1-   O programa nuclear é uma faca de dois gumes: por um lado confere poder e, caso levado às últimas consequências será um factor de segurança, uma espécie de seguro de vida do Irão e do seu regime. Enquanto tal não acontece, a corrida ao nuclear coloca o Irão na mira permanente dos Estados Unidos e de Israel, o que pode levar à destruição do programa e de boa parte do poderio militar iraniano, para não falar dos danos económicos e infra-estruturais. Até agora, a determinação iraniana tem-se sobreposto às hesitações e receios do Ocidente, especialmente dos EUA.

2-   As sanções decorrentes do programa nuclear estão a provocar desgaste à economia do Irão. A queda abrupta do Rial, a moeda iraniana, é um dos sinais visíveis disso mesmo. Não obstante, tal não chegou, nem deverá chegar, para quebrar a vontade do regime em atingir a capacidade nuclear.

3-   O Irão conseguiu estabelecer um arco de influência que vai desde a fronteira com o Afeganistão a Leste até ao Mediterrâneo a Oeste (ver mapa infra). Esta área de influência garante ao Irão uma posição de primeiro plano na região e catapulta-o como candidato nº1 à hegemonia regional

4-   A sustentação desta área de influência arduamente adquirida está a revelar-se complicada por via da guerra na Síria que põe o regime vigente no fio da navalha; a queda de Al Assad e dos Alawitas terminará a ligação privilegiada Teerão-Damasco e interrompe o arco antes do Mediterrâneo e isola o Irão do Hezbollah. Daí o forte apoio do Irão a Al Assad.

5-   Contudo, o Irão não está só na defensiva. A coberto da dita “Primavera Árabe”, Teerão tem fomentado manifestações e agitação no Bahrain de governo sunita e de maioria xiita, na Província Oriental saudita, também de maioria xiita e no Iémen. Embora não tenha fruído até ao momento, este tipo de covert actions desestabiliza os regimes e gera insegurança e incerteza.


O destino do Irão aparece, portanto, envolto em mistérios e paradoxos. As mesmas políticas, as mesmas opções, os mesmos trilhos, podem gerar segurança e risco, hegemonia e isolamento, poder ou catástrofe.

É, pois, um caminho mais estreito do que o do estratégico Estreito de Ormuz que o Irão percorre actualmente, entre as promessas de poder e influência e a desdita da destruição e irrelevância, há ainda o prolongamento da situação intermédia que vive hoje. É, no entanto, minha convicção de que as situações de tensão e de conflito latente acabam por se tornar insustentáveis e por ter uma resolução….

O Arco de Influência do Irão