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09 dezembro, 2012

O Beco de Gaza

O BECO DE GAZA


Este mapa e os gráficos dão uma informação muito completa sobre a problemática dos rockets e mísseis lançados de Gaza contra Israel e a das retaliações israelitas. O mapa mostra o alcance das armas palestinianas; os gráficos mostram o nº de rockets disparados entre 2001 e 2012, os nº de mortes de ambos os lados e nos dois de baixo, a quantidade de alvos atingidos por Israel e o nº de rockets disparados pelos Palestinianos durante a Operação Pilar de Defesa no mês passado.
in “The Economist” em www.economist.com
 
A Faixa de Gaza é um berbicacho internacional. Nada se vislumbra de positivo relacionado com Gaza. Vejamos:

1-   Território muito pequeno (360 km2) e sem recursos.
2-   População gigantesca (1.700.000 h) para a dimensão do território.
3-   É pouco mais do que um enorme bairro de lata.
4-   É governado por um grupo terrorista (Hamas).
5-   Alberga outros grupos terroristas, como a Jihad Islâmica Palestiniana, os Comités Populares de Resistência Islâmica e o Conselho da Shura dos Mujahedin de Jerusalém.
6-   Dela são lançados anualmente centenas ou milhares de rockets sobre Israel.
7-   É um território muito pobre e com pouca viabilidade.
8-   Está geograficamente separado e politicamente incompatibilizado com o outro território palestiniano (a Cisjordânia).
9-   Constitui um incómodo e relativa ameaça para Israel.
10-               Constituiu um problema político para o Egipto, que não pode dissociar-se dele por completo, nem pode dar-lhe total apoio sob risco de colocar em cheque as suas relações com Israel.

Com este decálogo de problemas mais ou menos irresolúveis, o futuro de Gaza afigura-se, no mínimo, sombrio. Analisemos os principais actores envolvidos:

HAMAS
O Hamas é a entidade que governa a Faixa de Gaza. Tem ligações históricas com a Irmandade Islâmica que agora tenta governar o Egipto, mas é rotulado como grupo terrorista pelos EUA e não é reconhecido internacionalmente. Por outro lado é mais popular entre os Palestinianos do que o seu rival, a Fatah. O Hamas também está preso por estar programaticamente impossibilitado de reconhecer a existência e legitimidade do Estado de Israel. Os ataques a Israel e o seu objectivo de destruir o Estado Judeu, inviabilizam o seu envolvimento em qualquer solução negociada. Finalmente, apesar de e por causa dos seus frequentes ataques a Israel, está sujeito às retaliações da maior potência militar do Médio Oriente. Cada nova escalada do conflito, faz Gaza recuar severamente nos capítulos económico e social. O panorama geopolítico do Médio Oriente é-lhe, no plano teórico, mais favorável do que em 2010, mas o Hamas continua num beco político do qual não será fácil sair honrosamente.

FATAH
O antigo partido de Yasser Arafat e parte principal da OLP, está a ver a História a passar-lhe ao lado. A dita Primavera Árabe está a derrubar ou a pôr em cheque a antiga arquitectura política árabe que se dividia fundamentalmente entre as monarquias tradicionais (Arábia Saudita, Jordânia, Kuwait, etc) e as repúblicas militares de inspiração nacionalista árabe e socialista (Egipto, Iraque, Síria, por exemplo). A inspiração da Fatah encontra-se neste último grupo que foi o principal alvo e vítima das revoltas de 2011 e que está à beira da extinção. Vide o Egipto, a Líbia, a Síria, o Iémen e, por motivos diferentes, o Iraque. Hoje em dia a Fatah é, em termos internacionais uma quase não-entidade, dada a sua pouca relevância. O número que executou com êxito na ONU vale pouco mais do que zero em termos geopolíticos e da realidade no terreno. O Hamas enfrenta Israel, adquire mísseis e mostra robustez. A Fatah ganha na ONU o direito a pertencer eventualmente ao Tribunal Criminal Internacional. À Fatah faltam ideias, capacidade de agir, carisma e legitimidade popular. E sobram-lhe fadiga, corrupção e inoperacionalidade. Resumindo, ou a Fatah encontra a via da regeneração, ou vai deslizando para a irrelevância total.

EGIPTO
Teoricamente, deveria ser o patrocinador do Hamas. A realidade é mais complexa e menos linear. A política de defesa e segurança do Egipto assenta, desde 1978, naquilo que os Acordos de Camp David lhe proporcionaram: paz com Israel, logo segurança a Leste, e a aliança com os Estados Unidos, que significava apoio militar e económico e ainda uma protecção genérica contra problemas mais sérios. Com a Irmandade Muçulmana no poder, este jogo torna-se mais difícil: a larga falange de apoio da Irmandade favorece o Hamas, a revisão dos Acordos de Camp David e uma posição dura relativamente a Israel; por outro lado, a realidade geopolítica aconselha a pisar um trilho muito próximo do que foi seguido por Sadat e Mubarak ao longo de mais de 30 anos.

ISRAEL
Também para Israel o statu quo na Faixa de Gaza é um incómodo. Israel retirou do território em 2002, porque era uma dor de cabeça, uma situação em que os custos ultrapassavam as vantagens. Contudo, a tomada do poder em Gaza pelos irredentistas do Hamas, tornou o Sul de Israel num campo de tiro para o braço armado do grupo (Brigadas Izz al-Deen Al-Qassam) e para outros grupos terroristas. Tal leva Israel a ter de retaliar com regularidade e, quando a situação atinge proporções mais graves, a desencadear operações militares de envergadura, como sucedeu no Inverno de 2008/09. Israel não pode tolerar o chuveiro de rockets e mísseis sobre o seu território, mas não pode exterminar de forma definitiva a ameaça de Gaza porque os custos políticos seriam insuportáveis. Assim sendo, o jogo do gato e do rato promete continuar por muito tempo.

 
A Faixa de Gaza deverá continuar a ser uma das zonas críticas do planeta, não se vislumbrando nem uma solução diplomática nem militar para o problema. Como tal, a precariedade sócio-económica também continuará.
O panorama geopolítico do Médio Oriente também faz que o problema palestiniano seja relegado para uma terceira linha de prioridades. Numa região em que o Egipto se debate com o seu rumo político-constitucional, a Síria se destrói numa guerra civil, em que Turcos e Iraquianos se debatem com os respectivos Curdos, em que o Irão prossegue o programa nuclear e se debate com sanções internacionais, em que a Arábia Saudita e os seus aliados tentam manter o seu statu quo interno, em que os EUA reduzem o envolvimento na região e em que regimes novos (Líbia, Iémen) e velhos (Jordânia) se debatem com instabilidade política e económica, a grande maioria dos actores políticos tem pouco tempo e espaço para dedicar à Palestina.

Consequentemente, a Faixa de Gaza continuará no seu beco sem grandes saídas, uma espécie de pardieiro à beira-mar instalado.

20 janeiro, 2009

A Guerra de Gaza

A GUERRA DE GAZA

Merkava 3, o principal carro de combate israelita, abrindo fogo em exercícios realizados em 2005.
Ao fim de 22 dias terminaram, até ver, as hostilidades em Gaza. Apesar de ser prematuro tirar conclusões definitivas, é tempo de fazer um balanço do que aconteceu e da actuação dos protagonistas e traçar as perspectivas que se colocam ao minúsculo território.

A guerra de Gaza era inevitável: o lançamento de cerca de 7000 rockets do Hamas e da Jihad Islâmica sobre o Sul de Israel ao longo de três anos, não deixavam outra alternativa. O único dado surpreendente será a paciência que Israel teve durante este período, esperando talvez que o bloqueio económico surtisse efeitos. Era de esperar que não fosse suficiente e de facto não foi; como é frequente nestas situações, a população foi atingida antes e mais duramente do que a estrutura dirigente e militar.

Israel: A vitória militar foi inquestionável. O IDF (Israel Defence Forces) conduziu a guerra da forma que bem entendeu, de uma forma faseada, organizada e sem falhas aparentes, ao contrário do que sucedera em 2006 no Líbano. As baixas israelitas são quase insignificantes (13 mortos, 4 provocadas por friendly fire) e os alvos terão sido todos atingidos. Além do mais, o cessar-fogo também foi feito no timing israelita. As dúvidas são três: Primeiro, o fim das hostilidades não terá sido precipitado por causa da mudança de poder em Washington? E, também por causa disso, o processo de esmagamento da capacidade militar do Hamas poderá não ter ido tão longe quanto desejável. Em segundo, que garantias existem que a fronteira Sinai-Gaza vai ficar selada aos abastecimentos militares do Hamas? Terceiro, se os rockets voltarem a cair nos próximos tempos em Siderot ou HGhg, os candidatos a Primeiro-Ministro que são neste momento Ministro da Defesa (Ehud Barak) e Ministra dos Negócios Estrangeiros (Tzipi Livni) poderão ter dificuldades em explicar a Operação Chumbo Derretido aos Israelitas.

Hamas: A bravata habitual sobre o inferno que ia descer sobre as tropas israelitas e o massacre que se iria seguir deu lugar à verdade nua e crua: o Hamas revelou-se absolutamente incapaz de constituir uma ameaça credível para o IDF, infligiu-lhe apenas 9 mortes, e teve de recorrer à habitual táctica cobarde de se esconder atrás dos civis palestinianos que supostamente devia proteger. Acabados os combates, os bravos líderes e combatentes (?!?) reemergiram para repetir as suas grotescas ameaças. Não obstante, não é líquido que esta organização terrorista esteja fora de combate e a tentação de atingir Israel antes das eleições de 10 de Fevereiro deve ser grande, para tentar maximizar as hipóteses de o Likud de Netaniahu ganhar as eleições e garantir assim o endurecimento de Jerusalém nas negociações do processo de paz. Resta saber se a população de Gaza terá ficado mais esclarecida quanto à incapacidade de o Hamas lhe garantir desenvolvimento económico, paz e segurança. Duvido.

Fatah: A Fatah é o elemento escondido desta guerra e, potencialmente, o seu principal beneficiário. O reassumir do controlo da Faixa de Gaza por Mahmoud Abbas seria o melhor meio de tentar repor algum grau de paz de tranquilidades na zona, mas pelo se afigura, tenho dúvidas se o Hamas estará suficientemente enfraquecido para não conseguir colocar resistência ao regresso da Fatah a Gaza e até que ponto é que a população a acolheria bem.

Egipto: Renascido do limbo diplomático, o Egipto foi o protagonista dos planos para findar o conflito e o centro das peregrinações de estadistas europeus à região, mas o seu papel verdadeiramente importante começa agora: pela selagem da fronteira do Egipto com Gaza, passa muito da duração do cessar-fogo existente.

Estados Unidos: A guerra teve um bom timing para os EUA – com um Presidente pró-Israel de saída e outro com muitas incógnitas de entrada, Washington apoiou Israel, criticou o Hamas e assobiou para o ar a maior parte do tempo.

Mundo Árabe: Conspicuamente ausente, torcendo a maioria que o Hamas fosse dizimado e a minoria que Israel soçobrasse, sobrou a irrelevância.

União Europeia: A Presidência Francesa acabou e a Checa começou, mas ninguém notou porque, nos momentos graves e importantes, são as grandes potências que aparecem e intervêm, seja com a presença colectiva com o Primeiro-Ministro Olmert no anúncio do cessar-fogo, seja no frenético cruzar do Médio Oriente de Sarkozy.

Agora, se as coisas se mantiverem calmas, resta esperar que os Israelitas votem e que a nova Administração Americana assente, para ver qual vai ser o rumo a curto prazo, porque no médio prazo, já não haverá muita gente que se atreva a pensar.