GRILLO & MONTI
(OU O PALHAÇO POBRE E O PALHAÇO RICO)
Nem toda a gente conhece Beppe Grillo e Mario
Monti. Contudo, toda a gente conhecerá a dupla circense do palhaço pobre e do
palhaço rico.
Então visualizemos Grillo (o nome ajuda; a
profissão também) como palhaço pobre. Inexperiente na política, cabeludo e
despenteado, mal vestido, gritante, espalhafatoso e revoltado, de mal com a
vida política e a situação de Itália.
E vejamos Monti como o palhaço rico. Abastado, com uma longa
carreira ligada à política e à academia, elegante, bem vestido, com uma pose
patrícia e arrogância q.b. Olha o palhaço pobre e outros com a petulância de
quem os vê como um incómodo para atingir aquilo a que julga ter direito.
Ambos palhaços, cada um à sua maneira.

Resultados provisórios das eleições italianas. Em cima, os
resultados do Senado e em baixo os do parlamento. A vermelho a coligação de
esquerda de Bersani, a azul a coligação de direita de Berlusconi, a amarelo o
M5S de Grillo e a verde o grupo de Monti.
in Corriere della Sera em http://www.corriere.it/
O
rico passeia o seu prestígio internacional (afinal veio recomendado/nomeado por
Berlim e Bruxelas), defende a política do seu governo como a ÚNICA possível e
ridiculariza os adversários, especialmente Berlusconi.
O
pobre Grillo em boa verdade não tem programa. O seu programa é o não-Monti, o
não-Berlusconi, o não-Bersani. Acima de tudo, NÃO.
O
rico Monti tem o programa que nós conhecemos: Troika, austeridade, Merkel,
impostos, cortes de direitos adquiridos, Schauble e, claro está, ele próprio.
Regressando
ao circo, de onde em boa verdade não chegamos a sair, o palhaço pobre, a
vítima, costuma sair por cima, enquanto o palhaço rico acaba ridicularizado
pelo pobre, vítima da sua própria petulância.
E o circo da política em Itália teve o mesmo
resultado do outro circo. O partido de Beppe Grillo teve 25% dos votos. O
partido de Mario Monti teve 10% dos votos. O palhaço pobre elegeu 109
deputados. O palhaço rico ficou-se pelos 47. O Italiano revoltado elegeu 54
senadores. O candidato da Alemanha e do “Economist” elegeu 19.
Resultados definitivos das eleições italianas. A vermelho, os
resultados do Senado; a verde, os resultados da câmara baixa.
in “La Stampa” em http://www.lastampa.it
O
circo volta à estrada. O palhaço rico foi desmistificado e confirmou-se que não
tinha legitimidade democrática. O palhaço pobre ganhou e está na ribalta, prova
viva da saturação dos eleitores com the
politics as usual. Porém, sem programa e sem estofo, também ele será
lançado aos leões no Coliseu. Não creio que Beppe Grillo seja a alternativa ao
sistema político-partidário vigente. Certo é, porém, que a legitimidade das
políticas e das posturas das elites políticas tradicionais estão cada vez mais
em cheque. Mais tarde ou mais cedo, será imposta a mudança.
