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30 novembro, 2013

Soberania Limitada


SOBERANIA LIMITADA

 
A Doutrina da Soberania limitada, também conhecida por Doutrina Brejnev, foi enunciada* em 1968 por Leonid Brejnev, então líder da então União Soviética. Com ela, o Secretário-Geral do PCUS pretendia apresentar uma justificação teórica e política para a invasão da Checoslováquia de Agosto de 1968 por 5 países do Pacto de Varsóvia.

Leonid Brejnev (1906-1982) deu o nome à Doutrina da Soberania Limitada e presidiu às invasões da Checoslováquia (1968) e do Afeganistão (1979).
in http://moscow-point.ru/culture/9086.html

Esta semana em Vilnius, na Lituânia, Durão Barroso, o funcionário de topo da burocracia da União Europeia, pronunciava enfaticamente que “os tempos da soberania limitada na Europa já terminaram.”

O seu ar impante mostrava a sua satisfação com o que julgava ser um sound bite com impacto mediático e profundamente intelectual. A sua postura tensa traía a irritação com o fiasco da cimeira da Eastern Partnership, que reuniu os 28 Estados-Membros da EU e 6 ex-repúblicas soviéticas.


O FIM DA SOBERANIA LIMITADA

A declaração que Durão pronunciou com severidade é, na verdade, farsesca. O indivíduo que a proferiu e os seus acólitos pronunciam-se repetidamente sobre assuntos que não lhes dizem respeito e que são do domínio da soberania dos Estados. É certo que não faz isso com todos. É truculento e valentão quando se pronuncia sobre Portugal, Grécia, Espanha, ou até a Itália. Já o fez sobre a França, mas, louve-se os Franceses, foi posto rapidamente no seu lugar. Certo é, porém, que Durão não interfere nos assuntos da Alemanha, que trata com mesuras servis, mas até isso encaixa bem no espírito da soberania limitada: a Doutrina Brejnev limitava a soberania da RDA, Bulgária, Checoslováquia, Polónia, etc, mas não a da URSS. Obviamente.


Esta declaração feita num tempo em que a soberania de muitos estados europeus está limitada como nunca, quando Durão e os seus comissários achincalham essa soberania, quando a Alemanha exerce um poder tutelar sobre grande parte desses estados, só pode vir de uma mente delirante na qual as referências de Mao, Brejnev, Merkel, Schauble, Delors, se devem misturar e baralhar. Uma coisa é certa, a referência de Sá Carneiro naquela cabeça deve estar bem morta e enterrada.

ESFERAS DE INFLUÊNCIA

Por proposta da Suécia e da Polónia, a EU criou a Eastern Partnership em 2008 para atrair os estados que envolvem a Rússia a Oeste e a Sul para a órbita europeia. Para choque de muitos estados europeus e da burocracia de Bruxelas, a Rússia resistiu a essa nova incursão na sua esfera de influência. E essa resistência não se quedou por plácidas declarações. A Rússia adoptou a velha táctica do carrot and stick. Desenvolveu iniciativas diplomáticas para cativar esses estados, mas não hesitou em recorrer à pressão, à ameaça e, pasme-se, à concretização de algumas ameaças. Tal abordagem conferiu credibilidade aos avisos de que maiores retaliações se seguiriam para quem assinasse os acordos com a EU.

 
Resultado: 4 dos 6 países, incluindo a Ucrânia que é de longe o mais relevante, não assinaram nada com a EU. Os restantes, Geórgia e Moldova, rubricaram os acordos num passo preliminar e não vinculativo, o que significa que os acordos não estão em vigor.

CONCLUSÃO

A EU e os estados mais envolvidos neste projecto estavam bem cientes que estavam a atacar a área de influência de Moscovo e que é muito sensível em termos de segurança nacional da Rússia. Também sabiam que não estavam a tentar concluir um mero acordo comercial, mas sim a impor o seu modelo político, económico, jurídico e social. Sim, aquilo que quando é feito por outros tem o rótulo de imperialismo.


Contudo, os Europeus parecem ainda não ter percebido que a Rússia dócil, frágil e submissa de Yeltsin pertence a um passado já distante. A Rússia de Putin faz o que entender ser necessário para defender os seus interesses, recorrendo aos meios disponíveis para os prosseguir. No caso da disputa pela Europa Oriental, não usou punhos de renda, usou poder e a força (não militar) que este lhe confere. Em duas palavras, POWER POLITICS. E ganhou.


Por seu lado, Durão não percebeu que Putin não é como os líderes políticos da Europa mediterrânica. Confrontado com o Presidente da Rússia, Durão é….molinho. Aliás, Durão podia servir como uma espécie de Big Mac Index do poder na Europa.


Com quem é que se porta como um bully? Quem maltrata? Samaras, Passos Coelho, Rajoy, etc. São os que não têm poder (nem espinha).

 
Quem é que ele não afronta? Com quem é reverencial? Quem é que o repreende ou contraria? Merkel, Hollande, Cameron e Putin. São estes que detêm o poder.


Entretanto, na Europa Oriental e até ver, o maior poder é a Rússia.


Tanques soviéticos ocupando Praga e sendo apedrejados pela população.


01 outubro, 2013

Assim Se Vê a Força do PC

 
ASSIM SE VÊ A FORÇA DO PC

 
Assim se vê a força do PC era um slogan gritado nas manifestações e comícios do PCP no tempo em que o Partido tinha um poder brutal na rua e nas empresas, tinha votações acima dos 15% e detinha mais de 50 câmaras municipais. Esses tempos não voltaram, mas lembrei-me deste slogan quando seguindo a noite eleitoral de Domingo ia ouvindo: PCP reconquista Alcácer do Sal, retoma Évora, volta a ganhar Beja e Vila Viçosa e Grândola e Loures. Veio-me à memória a ameaça/promessa de Odete Santos: “O Alentejo ainda será nosso outra vez!” Tinha razão. Já é.


A icónica bandeira vermelha com a foice e o martelo flutua em 34 câmaras municipais de Portugal.

O PCP é o grande vencedor das Autárquicas de 2013. Passou de 28 para 34 câmaras, incluindo concelhos importantes, como alguns do que referi. Além disso, foi o único partido que aumentou o nº de votos numa conjuntura de aumento da abstenção e do voto de protesto (brancos e nulos).


Quando conto a amigos estrangeiros a força eleitoral dos Comunistas em Portugal, somada à natureza ortodoxa do Partido, eles ficam, invariavelmente perplexos. Incrédulos mesmo. Mesmo naqueles países onde os respectivos PC’s tiveram peso e influência, como Itália, França, Espanha, Finlândia, após a Queda do Murro de Berlim e o colapso da União Soviética, estes partidos reformaram-se, mudaram (até de nome), esvaziaram-se e praticamente desapareceram.


Precisamente em 1992, na sequência da desintegração da URSS, um jornal de Guimarães, “O Povo de Guimarães”, com uma matriz acentuadamente de esquerda, fez um inquérito sobre o assunto, incluindo questões sobre o PCP, nomeadamente o que pensava sobre a opção de Álvaro Cunhal, contra a corrente da época, de manter inalterado o nome, programa, identidade e política do PCP. Sendo eu conotado com a “Direita”, ficaram surpreendidos por ter respondido que admirava a coerência e coragem dessa opção e que essa honestidade intelectual talvez desse frutos.


Et voilá. Volvidos 22 anos, o PCP é o único Partido Comunista com relevo na Europa Ocidental. As eleições de Domingo demonstraram a resiliência do PCP que, cada vez que parece estar em declínio irreversível, recupera, ganha votos e aumenta mandatos.


Continuo a estar a milhas do ideário do PC, mas reconheço aos seus militantes e apoiantes a capacidade de trabalho, de luta, de disciplina e de trabalho que permite que 11% dos votantes nele se revejam e votem. Para muitos, o PCP é a voz da resistência à opressão, da luta contra as injustiças, do apoio aos trabalhadores, da preocupação com os desfavorecidos. Tem implantação nacional, tem tradição autárquica onde exerce o poder, tem enorme influência no movimento sindical e capacidade de mobilização na rua.


Por tudo isso mais a crise dolorosa e a governação incompetente, o PCP ganhou, sem fantasmas internos, sem dissidentes, sem bicefalias acéfalas, sem tricas com os parceiros de coligação. Simplesmente ganhou mais 6 câmaras, mais 13.000 votos. 92 anos após a fundação, assim se vê a força do PC!


21 setembro, 2013

The German Question II

THE GERMAN QUESTION II

 

“Germany is too big for Europe, too small for the world.”

Henry Kissinger

 
Mitteleuropa: a Alemanha no centro da Europa.
in STRATFOR em www.stratfor.com

 
TOO BIG FOR EUROPE


A realidade é que Kissinger tinha razão. Não só no passado, como também no presente. A Alemanha tornou-se ao longo da última década demasiado poderosa na Europa. A França começou por liderar a Comunidade Europeia; a partir da década de 70 partilhou a liderança com Berlim, o famigerado Eixo Franco-Alemão. Neste século, a décalage de poder entre Berlim e Paris acentuou-se notoriamente e o Eixo (que nome haviam de arranjar!) é cada vez mais uma mise en scène.


À medida que a França caminha para ficar mais próxima (em poder) da Itália do que da Alemanha, esta começa a assemelhar-se ao proverbial elefante numa loja de porcelana, com o inerente risco para os vários proprietários. Sem o contraponto francês e com o Reino Unido alheado do Continente, a Alemanha lidera sozinha. Negoceia com a Rússia sobre energia e influência na Europa Central e Oriental e vai partilhando o palco com Paris. E como se sabe, frequentemente, o que se passa nos bastidores tem mais relevância do que o que se passa no palco.


O desconforto entre os Estados médios e pequenos acentuar-se-á, especialmente na área do antigo Pacto de Varsóvia e da ex-URSS. Nestas zonas de fronteira de impérios, a retirada dos EUA e a ascensão de Moscovo e Berlim faz renascer velhos fantasmas, especialmente o fantasma Ribbentrop-Molotov. É uma maleita crónica que afecta os países situados entre a Alemanha e a Rússia.


Na Europa meridional, os receios são de outra natureza. As populações reagem negativamente ao que entendem ser um diktat germânico que tem provocado danos sérios e por vezes irreparáveis no seu modo de vida. Esse ressentimento aumenta na medida em que percepcionem os seus próprios líderes como meros comissários políticos do verdadeiro poder sedeado em Berlim.


Finalmente, mesmo na Europa do Norte, não faltam países que colocam resistências a uma crescente integração com receio da hegemonia germânica: a Escandinávia, o Reino Unido e a insuspeita Holanda, não formando ainda um bloco, têm razões históricas e actuais para preservarem um grau de autonomia não compaginável com uma Alemanha hegemónica.


Historicamente e por razões diversas, os países europeus ou não têm interesse, ou têm receio, ou mesmo pavor perante a ascensão de uma Alemanha todo-poderosa e hegemónica na Europa. Seja por tal levar ao isolamento (Reino Unido), à conquista (Polónia, República Checa, Dinamarca, etc), ou ao protectorado no caso dos países mais periféricos em relação à Mittel Europa.


Porventura a única excepção a esta regra são os países que ocasionalmente partilham com a Alemanha essa hegemonia. Tal foi o caso da União Soviética entre 1939 e 1941, da França entre 1960 e 2000 e poderá ser o da Rússia num futuro próximo. Infelizmente para esses parceiros de ocasião, acabaram por ser deglutidos (no caso da URSS) ou marginalizados (a França) pela imparável acumulação de poder (e ambição) da Alemanha.

 

TOO SMALL FOR THE WORLD


Também nesta vertente, Kissinger tinha razão. Pelo menos até agora. A Alemanha carece da massa crítica geográfica e demográfica de potências como os Estados Unidos, a Rússia, a China, ou a Índia. Tal como o Japão, a Alemanha pode tentar compensar essas insuficiências com capacidade económica e desenvolvimento tecnológico. Porém, falta-lhe (ainda mais do que ao Japão) uma capacidade crítica para competir geopoliticamente à escala global: o poder militar. Sendo, no tempo presente, uma valência secundária no plano europeu, a componente militar adquire uma importância primordial no tabuleiro mundial.


Não é por acaso que o Reino Unido e a França têm um protagonismo internacional superior ao da Alemanha: ambas têm superior capacidade milita, incluindo a capacidade de projecção de forças, têm influência política nalgumas áreas e têm assento permanente e direito de veto no Conselho de Segurança da ONU.


A Alemanha não tem nada disto. E não terá tão cedo. Desde logo porque, até ver, lhe falta a vontade; depois, porque mesmo que venha a ter essa vontade, são meios que demoram tempo a adquirir e uma reputação que custa a consolidar.


Desenganem-se, pois, aqueles que pensam que a Alemanha pode ser a curto prazo um major player na cena mundial em matérias que ultrapassem a área económica. Tal não significa que não venha a caminhar para lá. Não será fácil encontrar na História uma potência importante que resista indefinidamente a exercer o seu poder e a ocupar o espaço a que se julga com direito no concerto das nações.


O Japão já segue esse trilho, mais célere e afoito porque acicatado pela ascensão e agressividade da China. É provável que a Alemanha venha a enveredar por essa via, seja a motivação interna, ou externa. Tal pode passar por um delink transatlântico mais pronunciado, por uma Rússia demasiado assertiva, ou até por uma aliança (formal ou informal) entre vários países europeus para conter a Alemanha.


A Alemanha controla em grande medida a zona euro, tem um peso enorme na EU e faz valer o seu poder e influência na Europa, mas não tem as ferramentas para se impor à escala global. Forçar a Grécia, Portugal ou a Espanha a adoptar determinadas políticas fiscais e económicas exige meios que não funcionam para intervir com significado no Médio Oriente, ou para influenciar actores e acontecimentos na Ásia Oriental.


Kissinger tinha e tem razão. A Alemanha está numa encruzilhada em que tem de decidir como e até onde quer exercer o seu poder na Europa e se quer ter um papel relevante no tabuleiro de xadrez mundial. Suspeito, contudo, que não será no último terço do período merkeliano que a Alemanha vai decidir o seu rumo geopolítico.

27 agosto, 2013

Wishful Thinking

WISHFUL THINKING

 
Yuri Andropov sucedeu a Leonid Brejnev como Secretário-Geral do PCUS (Partido Comunista da União Soviética) em 1982. Após longos e estiolantes 18 anos de governo de Brejnev, durante os quais a URSS atingiu o apogeu do seu poder militar e político no plano externo e, também, estagnou e ossificou o seu sistema económico e político interno, a ânsia no Ocidente era ver suceder-lhe um líder reformista, mais aberto que começasse a rachar o monólito soviético.


Yuri Andropov (1914-1984), líder da URSS durante 15 meses (Novembro 1982-Fevereiro 1984) e Director da KGB entre 1967 e 1982, saudando da tribuna do Mausoléu de Lenine na Praça Vermelha, em Moscovo.

Da realidade ao desejo foi um pequeno passo para os media ocidentais que rapidamente descobriram que Andropov bebia Scotch whisky, ouvia Glenn Miller e devorava literatura norte-americana; desses supostos gostos ocidentais, deduzia-se uma generalizada adesão às convicções ocidentais, mormente no plano político. Ou seja, estávamos perante um reformador. Talvez cientes de que a extrapolação desafiava as regras do bom senso, media houve que foram mais longe, descobrindo (???) que quando regressava a casa à noite, Andropov entretinha tertúlias de debate político com oposicionistas do regime comunista, ao som de Glenn Miller e lubrificadas com Scotch.


Atenção, não estamos a falar de pasquins sensacionalistas e demagogos. Refiro-me a jornais como o Wall Street Journal, o New York Times, o Washington Post e o Christian Science Monitor.


Tudo isto é muito bonito, excepto que esbarrava num pequeno obstáculo: a REALIDADE. E essa realidade era pouco rósea: Andropov era embaixador soviético em 1956 quando os tanques soviéticos invadiram o país e suprimiram a Revolução Húngara com grande violência. Andropov foi um dos instigadores e mentores da invasão. Andropov era membro do Comité Central do PCUS há 21 anos e do Politburo há uma década, ou seja, pertencia ao grupo restrito de altos dirigentes soviéticos.

Mas falta a cereja no topo do bolo da realidade: Yuri Andropov era há 15 anos, desde 1967, o chefe da KGB. Sim, essa mesmo, a polícia secreta soviética, orgulhosa sucessora do NKVD de Staline.


Portanto, de acordo com esses media, Andropov tinha uma vida dupla: de dia mandava prender, torturar, deportar para a Sibéria, executar dissidentes políticos. À noite, convidava-os para ir a sua casa beber uns whiskies, ouvir música e desancar no regime do qual ele era dirigente e responsável pela segurança. Fantástico!!!!


Relembro estes desvarios jornalísticos dos tempos da minha adolescência, porque este é um trend que se mantém até aos dias de hoje. Qualquer novo líder de um país totalitário, autoritário ou simplesmente desagradável aos olhos do Ocidente, é recebido com expectativas inauditas de que se trata de um novo Vaclav Havel ou Lech Walesa, mesmo que ele faça parte integrante do sistema e nele tenha prosperado e dele dependa. Assim foi com Kim Jong Il na Coreia do Norte, com Medvedev na Rússia, ou com qualquer novo Presidente do Irão.


O mesmo esquema mental é aplicado a revoluções em países ditatoriais: em meados da década passada na Ucrânia e no Quirguizistão e, desde 2011 na Líbia, no Egipto, no Iémen e na Síria. Todos eles se iam tornar a breve trecho exemplos de democracias liberais. Oito anos depois, a Ucrânia e o Quirguizistão ainda estão longe de o ser. Dois anos depois, a Líbia e o Iémen são failed states waiting to happen, a Síria está em estado de guerra civil e o Egipto está perto de onde estava em Dezembro de 2010, antes de começar a dita Primavera Árabe.


Conselho de amigo: muito cuidado com aquilo que os media relatam nestas situações. Hoje em dia, a maioria dos media vive em função do que gostavam que fosse, o que muitas vezes está a milhas de distância do que é. Opinam sobre a espuma que vêem e ignoram a realidade histórica, política e cultural, bem como os interesses e os poderes fácticos que na maioria das vezes, passado o delírio das manifestações e dos entusiasmos, são os que prevalecem. No meu tempo de estudante, ensinaram-me que o jornalismo relatava factos e não estados de alma.


Em Inglês existe uma expressão fabulosa que retractar esta atitude na perfeição: WISHFUL THINKING, que significa algo como, pensar aquilo que se deseja, em detrimento da realidade.

04 julho, 2012

Jackson-Vanik & Magnitsky

JACKSON-VANIK & MAGNITSKY


Antes que pensem que o título deriva do consumo excessivo de whisky e de vodka, vamos contextualizá-lo e explicá-lo. Jackson, Vanik e Magnitsky são os nomes de três pessoas:

Henry Jackson (1912-1983): Senador Norte-Americano, Democrata, de Washington.

Charles Vanik (1913-2007): Congressista Norte-Americano, Democrata, do Ohio.

Sergei Magnitsky (1972-2009): advogado, Russo.

Jackson-Vanik é a designação pela qual ficou conhecida uma emenda (amendment) introduzida no Trade Act de 1974, pela qual os Estados Unidos não concederiam o estatuto de nação mais favorecida a países sem economia de mercado e que desrespeitassem os direitos humanos, especialmente o direito a emigrar.* Embora a emenda não fosse explicitamente direcionada, ela foi introduzida com a União Soviética em mente. Volvidos 38 anos, o Senado ainda não conseguiu (não quis) abolir a Jackson-Vanik que, além de obsoleta, é um empecilho à entrada da Rússia na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Sergei Magnitsky era um advogado russo que denunciou um alegado caso de fraude e evasão fiscal em larga escala e com envolvimento de elementos com ligação ao poder. Depois de um ano na prisão, morreu em condições e circunstâncias suspeitas.

No dia 26 de Junho, a Comissão de Negócios Estrangeiros do Senado dos EUA, aprovou por unanimidade o “Sergei Magnitsky Rule of Law Accountability Act” que, a ser aprovado no Senado, impedirá agentes políticos ou policiais russos envolvidos na prisão ou morte de Magnitsky de entrar nos EUA e congelará os activos que possuam no país. Se, como pretendem Senadores como John McCain, esta legislação complementar a Jackson-Vanik, o comércio entre os Estados Unidos e a Rússia será posto em causa.

Este tipo de intervencionismo é discutível e contraproducente.

Em primeiro lugar, tal representa uma ingerência grosseira nos assuntos internos de outro país. Independentemente das razões de Magnitsky, ou até do seu eventual assassinato, não se colocam as relações entre dois países em causa por um caso de polícia, seja ele corrupção, ou homicídio. Até porque, como sabemos, quem tem telhados de vidro deve usar de prudência e ponderação.

Em segundo lugar, enforma de uma hipocrisia gritante. Basta dizer que países como a China e a Arábia Saudita não estão sujeitos a este tipo de retaliações, para ficarmos esclarecidos acerca da consistência desta postura.

Em terceiro lugar, contraria os interesses nacionais dos Estados, neste caso, dos EUA. A não ser que Washington queira enveredar por uma política de confronto com Moscovo (e obviamente não quer), provocar um downgrade das relações bilaterais seria contrário aos interesses norte-americanos.

Em quarto lugar, não é de todo expectável que este tipo de coacção provoque alterações na política interna russa no sentido desejado pelo Senado dos EUA. Pelo contrário, tal será aproveitado por Vladimir Putin para acentuar a vertente nacionalista russa e para demonizar os EUA perante os Russos.

Seria bom que os Estados devotassem mais esforço na resolução dos seus problemas internos e na prossecução do seu interesse nacional, em vez de estarem sempre preocupados com o que se passa na casa do vizinho. Até porque, quando chega o dia do vice-versa, a ingerência deixa de ser interessante....


* O Presidente dos Estados Unidos tem a faculdade de aprovar uma isenção anual à aplicação da Jackson-Vanik, o que foi feito repetidas vezes com a China e depois com a Rússia e o Vietname.

P.S. A publicação deste post no dia 4 de Julho, dia nacional dos Estados Unidos (Independence Day) é mera coincidência.

P.P.S. Curiosidade estatística: este é o post nº 300 do Tempos Interessantes.

14 maio, 2012

O Czar Vladimir

O CZAR VLADIMIR


Vladimir Putin no Kremlin para tomar posse como Presidente da Federação Russa pela 3ª vez.
in “The Economist”

Vladimir Putin é a figura dominante da Rússia do século XXI. Foi Primeiro Ministro da Federação Russa entre 1999 e 2000, foi Presidente durante 8 anos (2000-2008), escolheu o seu sucessor (Dmitri Medvedev), foi Primeiro-Ministro nos 4 anos subsequentes (2008-2012) e foi eleito para o que serão, provavelmente, mais 12 anos de Presidência (2012-2024).
Neste período, a Rússia renasceu das cinzas e do caos pós-imperial, para se tornar novamente numa potência influente, tendencialmente hegemónica no seu espaço vital, economicamente dinâmica (muito à custa dos seus vastos recursos energéticos) e ressurgente militarmente.
Na realidade, Putin prosseguiu uma via que lhe permitiu alcançar os seus objectivos para a Rússia: torná-la forte, credível e influente. Tal não foi fácil num país que sofreu o impacto da perda da componente soviética do seu Império em 1989, que logo depois, em 1991, com a implosão da URSS, perdeu o Império construído pela Rússia czarista entre os séculos XVII e XIX, viveu uma traumática década de 1990, durante a qual esteve a saque internamente, foi tratada como um actor menor externamente e foi minada pelas revoltas no Cáucaso.
Vladimir Putin atingiu os seus objectivos investindo em múltiplas frentes:

·         Evidenciando uma atitude de firmeza e fiabilidade na defesa dos interesses dos Russos.
·         Centralizando e reforçando o poder do Estado para obter segurança e estabilidade.
·         Projectando força e poder: Segunda Guerra na Chechénia, Guerra Russo-Georgiana de 2008, e forte investimento nas Forças Armadas (equipamento e pessoal).
·         Colocando a Rússia no caminho do crescimento económico, sem o qual as outras dimensões seriam inatingíveis.
·         Afirmando uma política externa autónoma, frequentemente definida por oposição aos EUA e na prossecução de interesses próprios.
·         Projectando poder e influência no near abroad (denominação que Moscovo aplica aos países da antiga União Soviética), usando um mix de hard power (força militar, coacção energética) e soft power (integração económica, apoio militar, subsidização de gás e petróleo).
A reafirmação da Rússia, o seu recurso à Real Politik, o uso pontual de Hard Power, o contra-vapor efectuado em relação a algumas importantes iniciativas de política externa e de defesa do Ocidente e a centralização de poder em prejuízo da democracia, desgraçaram a imagem de Vladimir Putin na Europa e nos Estados Unidos.
Tipicamente, a reacção foi a demonização de Putin e a promoção dos movimentos oposicionistas na Rússia. No entanto, os relatos que nos chegam de grandes manifestações contra Putin, normalmente ficam pelos 5.000 a 20.000 participantes, numa capital com 10.000.000 de habitantes, num país com 150.000.000 de cidadãos. Também são algo pífias as alegações de vagas irregularidades numas eleições que Putin venceu com 64% dos votos.
No entanto, o novo ciclo do Czar Vladimir não será fácil. São vários e significativos os desafios que a Rússia tem pela frente.
No plano interno precisa de diversificar a sua economia evoluindo em sectores hi-tech e explorando novas jazidas de hidrocarbonetos para compensar as que já estão em fase adiantada de maturação, para manter a economia e o emprego em crescimento. Estas duas frentes implicam know-how e investimentos brutais que terão de vir, pelo menos em parte, do exterior.
Externamente, a prioridade será integrar progressivamente os Estados da antiga URSS na esfera de influência de Moscovo, usando para tal as estruturas que a Rússia já criou, como a União Aduaneira (Rússia, Bielorrússia e Kazaquistão), a União Euroasiática (moldada na União Europeia e que supostamente entrará em vigor em 2015, integrando pelo menos a Rússia, Bielorrússia, Kazaquistão, Kirguizistão e Tajiquistão) e a Organização do Tratado de Segurança Colectiva (CSTO) no âmbito da defesa e segurança e que já inclui a Rússia, Bielorrússia, Kazaquistão, Uzbequistão, Kirguizistão, Tajiquistão e Arménia. A inclusão da Ucrânia nesta arquitectura regional será o objectivo primeiro do Kremlin, pois garantiria segurança, homogeneidade e poder ao projecto, consolidando a hegemonia russa a níveis nunca vistos desde 1991.
Goste-se ou não, Putin veio para ficar e as suas prioridades serão a manutenção do edifício de poder que construiu e a afirmação da Rússia. Se Putin vingar no plano económico, fará o que for necessário para assegurar os interesses da Rússia nos planos político e militar, o que inclui a sua oposição à instalação do sistema de Defesa Anti-Míssil Balístico na Europa. Com razões substantivas, ou como pretexto, este é o campo de batalha em que a Rússia de Putin enfrentará a NATO e os EUA a curto prazo.