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27 maio, 2020

Volkswagen: 11 Milhões de Vigarices


VOLKSWAGEN: 11 MILHÕES DE VIGARICES


 A ganância e a falta de escrúpulos levaram a Volkswagen do prestígio à humilhação.

Em Outubro de 2015, Tempos Interessantes publicou um post sobre uma mega-vigarice que consistiu em manipular tecnologicamente o nível de emissões de gases de 11.000.000 de automóveis diesel da marca. O post tinha por título “Germans Cheat, Too” (http://tempos-interessantes.blogspot.com/2015/10/germans-cheat-too.html ).

Estávamos na fase final do período da malfadada troika, durante a qual os países do sul da Europa foram tratados de PIGS, batoteiros e vigaristas. Confesso que me deu um certo gozo escrever aquele post (especialmente porque nunca comprei um Volkswagen), do qual destaco este excerto:

The Greeks cheat on their public accounts. The Italians may cheat their tax service. The Portuguese government cheats compulsively. The Spanish cheat on terrorism. And the list goes on. The official bottom line is that Southern Europeans cheat

But, not the Germans. The Germans are austere, honest and hardworking. Cheating is beyond their ethics and their mental framework. They do not cheat.

No, wait! Rewind the tape please. Oh! It turns out the Germans cheat, too.

They do it in a sophisticated way, but they cheat.

They use fancy technology, but they cheat nonetheless.

Actually, the Germans cheat on a massive global scale!

Volkswagen alone (God knows what the other carmakers may have done) cheated on 11 million cars; more than the Greek population.

Cinco anos volvidos, chegou a hora do juízo final: a Volkswagen foi condenada no âmbito deste processo pelo Supremo Tribunal Alemão e terá de indemnizar cerca de 300.000 lesados apenas na Alemanha.

Entretanto a Volkswagen foi considerada em primeira instância no Reino Unido (90.000 queixosos) e certamente o mesmo acontece noutros países. Tendo em conta que também foi multada em 30 biliões de euros, a brincadeira da empresa de Wolfsburg ficou muito cara.

Assim, a Alemanha deu-nos uma lição de que não devemos deixar-nos iludir pelas aparências e ainda menos pelas falsas convicções e demonstrou um moralismo de pacotilha, ao estilo de Frei Tomás. Para memória futura.
A memory from East Germany, or the soul of Germany’s auto industry?



P.S. Por fim, deixo-vos o remate do post de 2015:

Green, environment-obsessed, anti-nuclear energy Germany produces millions of heavy-polluting cars disguised as squeaky-clean eco-friendly machines. So, “Das Auto” turns out to be “Das Cheater”.

If you thought that buying “Made in Germany” was a guarantee of superior unpolluted quality, maybe you should review your assumptions. You may get the looks of a Volkswagen and the heart of a Trabant.

16 junho, 2018

O Urso e os que Fazem Figura de Urso


O URSO E OS QUE FAZEM FIGURA DE URSO


Os Estados Unidos e maioria dos países europeus vivem há uma década (com mais intensidade nos últimos 4 anos) a obsessão, o medo e a fobia do Urso, da Rússia.


O Urso Russo e a figura de urso.
in “RiseUp Times” at https://riseuptimes.org/

Este conjunto de países, liderados pelos EUA, Reino Unido, Alemanha e França e que encontram na Polónia e Lituânia os seus seguidores mais militantes e radicais, temem a interferência de Moscovo em eleições, a sua proximidade com partidos nacionalistas, tremem perante o poderio militar russo (convencional, nuclear e químico) e a sua disponibilidade para o usar, repudiam o seu conservadorismo sócio-cultural e o seu nacionalismo e repugna-lhes que a Rússia defenda e promova o seu interesse nacional em casa e no mundo. Resumindo, os mais contidos desconfiam da Rússia e tentam contê-la, os mais radicais dedicam-lhe um ódio ilimitado de que resulta a permanente culpabilização e diabolização da Rússia. A culpa é, sempre, do Urso.

Esta postura é exagerada, largamente injustificada e contra-producente. Desde logo, como qualquer urso que se preze, o Urso russo reage com agressividade quando atiçado, acossado, ameaçado. As sanções, as acusações, as ameaças, o opróbrio, terão respostas minimamente equivalentes, mesmo que diferentes e a Rússia não irá mudar só porque Washington, Londres ou Berlim assim o querem. Pelo contrário, a Rússia entrincheirar-se-á mais e procurará mais afincadamente apoios e alianças alternativos, como já tem feito na Ásia, no Médio Oriente, em África, na Europa. A realidade é que não se consegue isolar a Rússia como o Irão ou a Coreia do Norte.

A Rússia está ali, encostada ao Centro-Leste europeu e não vai sair, nem desaparecer. O Urso e os seus gigantescos 17.000.000km2 vão permanecer e, mesmo que acossado ou até gravemente ferido, vai manter a capacidade de ferir e de matar. Tal realidade aconselha uma de-escalada das tensões como pedem/sugerem países com a Hungria, a Sérvia, a Bulgária e a Itália.

Convenhamos:

* Viver em hostilidade face à Rússia por causa da Crimeia que é russa desde o século XVIII e que foi oferecida à Ucrânia por capricho de um ditador e num contexto soviético (russo), não é razoável.
* Correr o risco de envolvimento num conflito porque a Rússia reagiu a um coup d’état na Ucrânia e sentiu-se ameaçada na sua área de influência, é um disparate.
* Deslocar tropas e equipamento militar pesado para o Báltico só porque a Polónia e a Lituânia são russófobas e fazem chantagem emocional, não faz sentido.

O mais grave desta política é que a Rússia NÃO É a principal ameaça geopolítica e estratégica para o Ocidente no médio e longo prazo. Apesar de ser uma grande potência, a Rússia tem limitações económicas, tecnológicas e demográficas que, mais do que a sua capacidade, coartam a sua vontade e interesse em prosseguir uma postura de ameaça ou agressão ao Ocidente. Este Urso, tal como os outros, reage, é agressivo e ataca alvos poderosos se estiver ou se sentir em perigo ou ameaçado. E esse é o estado do Urso russo quando vê a NATO e a EU  a caminharem, literalmente, na direcção de Moscovo, quando constata que a sua diminuída esfera de influência está sob ataque e a diminuir, quando percebe que o Ocidente tem em marcha uma política anti-russa de acossar, coagir e neutralizar o Urso.

Enquanto a Rússia não é essa principal ameaça, aquela que realmente o é goza de bom relacionamento e usufrui, não só da amizade e a cumplicidade do Ocidente, mas também é tratada com um temor servil. Falamos da República Popular da China, a aspirante a superpotência e real ameaça aos interesses ocidentais a médio prazo.

A política seguida até aqui ataca o adversário errado pelas razões erradas, dá lastro e tempo ao verdadeiro inimigo e ainda contribui para a crescente aproximação entre o Urso e o Dragão. Errar 3 vezes desta maneira é, não sendo Urso, fazer figura de urso.

22 novembro, 2017

O Princípio do Fim





O PRINCÍPIO DO FIM
 

O Bundestag eleito em 2017 tem o maior número de deputados de sempre (709) e, também, o maior número de grupos parlamentares – 6.


Nos últimos anos temos assistido ao endeusamento da Chanceler alemã Angela Merkel. As razões são várias: é a líder de uma grande potência ocidental há mais tempo em funções, lidera um país que prospera cada vez mais e que é uma implacável máquina exportadora, tem uma postura normalmente calma, ponderada e equilibrada; também tomou algumas opções políticas populares para um nicho político, social e mediático com grande exposição pública, tais como, a abrupta antecipação do fim da indústria nuclear na Alemanha (2011) e a abertura das fronteiras germânicas a uma avalanche de refugiados e imigrantes (2015; finalmente, como se sabe, o establishment político-mediático entrou em órbita com o Brexit, com a eleição de Donald Trump e com a contínua ascensão de partidos nacionalista e, no desespero, convenceu-se que Angela Merkel seria um farol da liberdade e putativa líder do Ocidente, i.e., baluarte do statu quo.

No entanto, a realidade era e é diferente. Se é verdade que Merkel lidera um país que é um sucesso económico, já a sua ponderação e equilíbrio são mais questionáveis. Um exemplo disso foi a repentina e injustificável antecipação do fim do nuclear da Alemanha, reacção intempestiva e sem fundamento ao desastre de Fukushima no Japão, desde logo porque a Alemanha não se encontra numa zona de actividade sísmica e não é, obviamente, ameaçada por tsunamis, já para não referir os enormes cistos económicos da decisão. Outro exemplo foi a epifania de Merkel em 2015: a abertura total das portas da Alemanha a refugiados e imigrantes deu-lhe uma enorme popularidade instantânea, mas como era previsível, valeu-lhe uma crescente oposição, mesmo dentro do seu partido, quando a poeira assentou e a realidade de uma decisão emotiva e precipitada se tornou mais clara: o excesso de refugiados/imigrantes, os atentados terroristas, a tentativa de impingir os custos da generosidade alemã a outros países europeus, desgastaram-lhe a imagem e o apoio, que foi sendo transferido para outros partidos. E não podemos olvidar os enormes custos económicos, sociais e pessoais que a brutal política scroogiana, exigida por Berlim, impôs à Europa meridional.

Mesmo assim, Merkel chegou a 2017 e às suas 4ª eleições na condição de líder da CDU com a confiança das vitórias anteriores e da auréola de invencibilidade. A previsível (e consumada) débacle do SPD que tem servido de parceiro menor à CDU/CSU, acentuava a confiança numa grande vitória.

Porém, o desgaste inexorável do tempo e a cobrança eleitoral das más decisões, a saturação com o establishment central cada vez mais uniforme, desabaram sobre o SPD, a CDU e a CSU. Se, no caso do primeiro, os resultados foram devastadores (os piores do pós-II Guerra Mundial), a CDU e a CSU caíram o suficiente para ficarem muito longe da maioria absoluta.

 
Este gráfico mostra claramente a dimensão das perdas da CDU/CSU e do SDP, que equivalem aos enormes ganhos do AFD e do FDP, cerca de 14%.


Dois meses volvidos , ainda não há governo. O FDP (Liberal) abandonou as negociações com a CDU, CSU e os Verdes, o que parece indiciar que Merkel se terá aproximado mais dos Verdes do que dos Liberais o que, a ser verdade, é espantoso e incompreensível. O azedume da CDU após a ruptura mostra também a frustração e o desespero de Merkel. Igualmente significativo é o facto de os focos principais de divergência entre os 4 partidos terem sido precisamente aqueles onde Merkel falhou: imigração/refugiados, ambiente e fiscalidade.

Neste momento, após o SPD ter reiterado que não vai voltar a ser o trampolim de Merkel, restam 3 opções: recomeço das negociações entre CDU, CSU, FDP e Grunen; governo minoritário; dissolução do Bundestag e novas eleições. A Chanceler parece querer a última, o Presidente Frank Walter Steinmeier prefere uma solução governativa no actual quadro parlamentar. Eos “vencedores” das últimas eleições, a AFD (direita) e o Die Linke (esquerda), vão assistindo de palanque à desorientação vigente.

A CDU de Angela Merkel até pode vencer de forma mais expressiva umas eventuais novas eleições, ou conseguir liderar um governo sem elas, mas o que é claro é que Merkel entrou no princípio do fim do seu percurso na liderança da Alemanha e da EU.