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27 maio, 2014

Grande Manguito


GRANDE MANGUITO



A insatisfação com o Governo levou os Portugueses a castigar PSD e CDS com o pior resultado conjunto de sempre.


A desconfiança do PS, levou os Portugueses a conceder-lhe uma pequena vitória com contornos de Pirro.


O desprezo pela classe política e pelas eleições europeias e a desesperança, levou a um record de 66% dos eleitores a não votar.


Os insatisfeitos mais activos foram votar, mas canalizaram o seu protesto para partidos sem responsabilidades governativas presentes ou recentes (PCP), para um conhecido desconhecido (Marinho e Pinto), ou para o voto branco ou nulo.


Com uma votação colectiva na ordem dos 58%, um mínimo histórico, pode dizer-se que PSD, PS e CDS levaram um manguito do povo português. Merecido, acrescentamos nós.


O perene Zé Povinho de Rafael Bordalo Pinheiro fazendo o manguito aos partidos do poder em Portugal.

  
VENCIDOS:


* PSD+CDS: Levaram um banho histórico. Pela primeira vez desde que há eleições democráticas (39 anos), os dois partidos não somaram sequer 30%. Ficaram pelos 27%. A distância para o PS não foi grande, mas foi disfarçada pelo 2 em 1 que representou a coligação. Coelho e Portas tentaram chamar a atenção para a vitória escassa do PS, mas a derrota clamorosa da coligação não é disfarçável e os motivos são bem conhecidos: governação desastrosa, punição impiedosa dos Portugueses, mentiras sucessivas, servilismo ao exterior. Há mais, mas estes bastam. Aliás, os dois líderes mostraram que esperavam perder por 8 ou 10, mas perder por 4 foi fraco consolo.


* PS: Foi o vencedor nominal, mas protagonizou a vitória mais pírrica de que há memória. Vencer com 4% de vantagem sobre os partidos de um governo execrável é como ficar excitado por Portugal vencer San Marino por 1-0. Medíocre, à imagem do líder.


* BE: Em queda livre, resume a situação actual do Bloco de Esquerda, que em 5 anos passou de estrela ascendente do panorama político português a um moribundo candidato a protagonizar a sequela PRD Parte II. Passou o efeito novidade, passou a ilusão de diferença, passou Louçã. Ficou um partido normal, ficou um partido sem rumo e ficaram Catarina & Semedo. Há 9 meses escrevemos que o “O BE virou Bloquinho”. Agora só podemos acrescentar que o Bloco ficou sem folhas.



VENCEDORES:


* PCP: E o PCP ganhou outra vez. Mais um deputado e 2º melhor resultado de sempre em eleições europeias (13%). Parece que a coerência e credibilidade dão resultado, bem como ser trabalhador, organizado, com militância, eleitorado fiel (e fiel ao eleitorado) e presença na rua e no trabalho. Quando os outros são muito maus, a competência ainda mais se salienta.

Abstenção: Por protesto, desprezo, ou preguiça, a mole imensa de 66% dos Portugueses eleitores mandou a política, os políticos e o Parlamento Europeu às urtigas e não compareceu. Não votou. Tiveram a atenção compungida dos políticos na noite eleitoral em mais um exercício recorrente de hipocrisia de quem pouco ou nada se importa com o estado do país e da democracia. Duvido que algum se tenha arrependido de ser abstido.

* Marinho e Pinto: Confesso que fiquei atónito com os resultados do MPT aka Marinho e Pinto. Um sucesso estrondoso na estreia eleitoral. Este sucesso, além de resultar do sedimentado conhecimento púbico do ex-bastonário da Ordem dos Advogados e do seu jeito peculiar mas eficaz de comunicar, é também fruto da falência dos políticos do sistema. Marinho foi um dos veículos que os Portugueses escolheram para gritar o seu protesto.

Aliança Brancos e Nulos: Foram quase ¼ de milhão. É a aliança daqueles que não abdicam do direito de votar e não se revêem na oferta partidária que temos. Eu votei branco pela 3ª vez consecutiva e assim continuarei enquanto não houver uma alternativa séria, honesta, não totalitária e de direita.



NOTAS SOLTAS:


* Eurocepticismo. À falta de melhor para dizer, Coelho resolveu manifestar a enorme preocupação com o eurocepticismo que põe em causa o ideal (?) europeu. Porquê? Não se pode ser contra? É crime não gostar? Já pensou que são incompetentes e desonestos como ele próprio que são a maior ameaça ao tal projecto europeu?


* Ridículo. Estivemos à espera de resultados até às 22.00 porque….os Italianos ainda estavam a votar. Sim, porque se em Itália soubessem os nossos resultados, tal informação teria um efeito telúrico nos resultados eleitorais italianos. Se o ridículo matasse….


* Novo. Marinho Pinto é o novo hype da política portuguesa. Já se fala de legislativas, de presidenciais e o que mais haja, É preciso prudência para verificar se não se trata de fogo fátuo. De qualquer modo, as legislativas seriam uma má aposta: implicam uma estrutura com Abrangência nacional, centenas de candidatos, listas, ou seja, é demasiado complicado para marinho. As Presidenciais sim, adequam-se ao seu estilo one man band e com uma ou duas aparições por dia, com o interesse dos media que desta vez não teve e possivelmente enfrentando candidatos desgastados perante o eleitorado, pode fazer estragos.


* Semi-Novo. Rui Tavares é recente mas já não é novo na política. Aliás ainda é deputado no PE, apesar de ter abandonado o partido (BE) pelo qual foi eleito. Já se sabia que Tavares e o Livre iam atrair a atenção de alguns media e intelectuais saturados do BE e ansiosos por uma novidade; também era previsível que fora das zonas mais urbanas do Sul a sua votação fosse inexpressiva. Em 2015 ele voltará à carga como cabeça de lista do livre por Lisboa; se for eleito o Livre continuará mais uns anos, se falhar, definhará irreversivelmente. A melhor aposta para um indivíduo como Tavares é apanhar uma boleia do PS à procura de novos mercados e com vocação para albergue espanhol.

31 março, 2014

Definhamento Democrático

DEFINHAMENTO DEMOCRÁTICO


O chefe da burocracia da União Europeia, o inefável Durão Barroso, declarou na semana passada que seria bom que PSD, PS e CDS apoiassem o mesmo candidato à Presidência da República em 2016. Durão foi mais longe incluindo na sua lista de desejos (exigências?) um consenso entre os 3 partidos para as eleições legislativas de 2015.


Se se tratasse de um mero delírio de um homem em fim de ciclo, seria algo descartável que provavelmente nem mereceria referência em Tempos Interessantes.


Porém, não é assim.


Assistimos há anos na Europa a uma crescente vertigem pelo chamado consenso. Mais exactamente, pelo consenso alargado.


Em Portugal temos sido martelados pelo famigerado consenso ao longo do último ano por Cavaco, Coelho, Portas, pelos burocratas de Bruxelas e por personagens ligados à finança e a grandes empresas.


Mas há mais exemplos:


A Áustria foi governada por uma Grande Coligação dos seus dois maiores partidos (SPO – Partido Social-Democrata e OVP – Partido Popular) durante 34 anos entre 1945 e 2000. Após um interregno de 7 anos, a Grande Coligação governa a Áustria desde 2007, perfazendo 41 anos de poder desde a II Guerra Mundial.


A Alemanha também é governada por uma Grande Coligação entre os seus dois maiores partidos (CDU/CSU – União Social Cristã e SPD – Partido Social-Democrata). Nos primeiros 56 anos de existência da Alemanha Federal, houve apenas um governo da Grande Coligação (1966-1969). Projectando o actual governo até ao final do mandato (2017), teremos 8 anos de Grande Coligação num período de apenas 12 anos (2005/2017).


A Grécia é governada (?) por uma Grande Coligação entre a Nova Democracia (Centro Direita) e o PASOK (Socialista), apesar de ambos os partidos terem sofrido enormes perdas nas duas últimas eleições.


A Itália é (des)governada por uma Grande Coligação que une a Esquerda aglomerada numa coligação liderada pelo Partido Democrático, a Direita compactada noutra coligação liderada pelo Partido da Liberdade de Silvio Berlusconi e ainda uma coligação centrista mais pequena liderada pela Escolha Cívica.


Qual é a relevância de tudo isto?


É o esvaziamento das alternativas. A Democracia implica escolha e uma escolha com sentido requere a existência de reais alternativas. Os maiores partidos, normalmente dois, são os principais (ou únicos) candidatos a liderar governos. Se ambos, ou todos, defendem a mesma plataforma eleitoral, se combinam as políticas e as medidas, qual é a serventia das eleições?


O resultado é um pensamento único, uma só estratégia, um conjunto de políticas uniformes, em suma, um jogo viciado em que o eleitor é colocado perante uma escolha entre uma coisa e outra igual.




Os Porcos de “Animal Farm” (“Triunfo dos Porcos”). Também eles representavam o governo das elites, pelas elites, para as elites.



Esse é um dos factores desmobilizadores do eleitorado. Quanto maior é a abstenção e quanto mais aumentam os votos brancos e nulos, menor é a legitimidade democrática dos parlamentos e governos que emanam dessas eleições. Infelizmente, a experiência mostra-nos que os partidos só (fingem que) se preocupam com estes fenómenos na noite eleitoral. Depois disso, garantida a presença nos e o domínio dos órgãos legislativo e executivo, it is business as usual.


Outra componente desta estratégia é a eleição da política seguida como a única válida e a demonização das alternativas: ser contra as directrizes emanadas de Berlim, Bruxelas ou Frankfurt é anátema. Ser nacionalista, ser socialmente conservador, ser pio (se for cristão), ter reservas sobre a imigração, ter uma visão mais estatizante da economia, ser favorável a um Estado Social forte ou de cortes nos privilégios da banca constituem um elenco de alguns delitos de opinião que nos podem levar à fogueira da inquisição da elite europeia. A indignação (miserável, diga-se) com que foi acolhido o “Manifesto dos 74”, é um exemplo desta intolerância e de uma pulsão fortemente anti-democrática.


É óbvio que esta consensualização coerciva não é inocente, nem acidental. Ela visa a perpetuação dos mesmos protagonistas no poder (partidos e políticos) e também perpetuar as linhas estratégicas e as políticas que vêm sendo genericamente seguidas nas duas últimas décadas.


Desta forma, o sistema político vai deslizando da democracia para uma oligarquia em que os grupos dominantes (partidos, grandes interesses financeiros e económicos e a burocracia) efectivamente drenam a vitalidade democrática, retirando valor às eleições, fazendo letra morta dos programas eleitorais e restringindo ou eliminando os referendos.


É esta auto-nomeada vanguarda esclarecida quem hoje, cada vez mais, põe e dispõe dos destinos de muitos países da Europa, à revelia dos cidadãos e frequentemente contra eles.



P.S. Outra das consequências da standardização dos partidos é a procura de alternativas nas franjas do sistema político. Foi assim que foi interrompido o duopólio austríaco em 1999: o FPO (Partido Liberal Popular), conotado com a extrema-direita, obteve 27% dos votos e integrou o governo de Viena com o OVP. As elites dominantes na Europa ficaram chocadas, como ficaram ontem com os sucessos da Front Nationale em França, como se espantaram com o ressurgimento do PCP e como vão ficar revoltados com o previsível sucesso de vários destes partidos marginais ao sistema (non-mainstream) nas próximas eleições europeias.


Talvez quando alguns destes partidos ganharem mesmo, aprendam a lição. Contudo, então talvez seja demasiado tarde.






POSTS RELACIONADOS:


“PENSAMENTO ÚNICO”, 02/12/2012 em



“THE GREAT LEAP FORWARD” (PEQUIM 1958 – BRUXELAS 2012) em
http://tempos-interessantes.blogspot.pt/2012/06/great-leap-forward.html

02 outubro, 2013

Vencedores, Vencidos e Outras Cenas

VENCEDORES, VENCIDOS E OUTRAS CENAS

 
Algumas notas sobre as eleições autárquicas: vencedores, vencidos e outras cenas.

VENCEDORES:


* PS. Foi o vencedor. Teve mais votos, venceu em mais concelhos, obteve o maior número de presidências de câmara da sua história (150), conquistou câmaras importantes, como Coimbra, Sintra, Gaia e Funchal e ficou com  44 câmaras municipais de vantagem sobre o PSD. Negativo foi a perda de autarquias relevantes para o PCP (Évora, Beja, Loures) e PSD (Braga e Guarda) e para um ex-PS (Matosinhos). Os media insistem que a vitória retumbante de António Costa em Lisboa lhe dá carta de alforria para desafiar Seguro, mas creio que é pouco provável, a não ser que as europeias corram mal, dado que Seguro liderou uma vitória inequívoca no país quase todo.


* PCP. Ganhou muito. Já dediquei um post ao PCP (“Assim Se Vê a Força do PC” em http://tempos-interessantes.blogspot.pt/2013/10/assim-se-ve-forca-do-pc.html ), pois o PCP venceu em toda a linha: aumentou as câmaras (de 28 para 34), as câmaras emblemáticas, os votos, a percentagem de votação, obteve a hegemonia no Alentejo e Península de Setúbal e o melhor resultado desde 1997 (41 câmaras). Pedia-se um Jerónimo de Sousa com um ar mais jovial e distendido na conferência de imprensa da noite eleitoral. Estamos em crise, mas uma vitória não é para encarar de forma carrancuda.


* CDS. Desde 2001 que o CDS estava reduzido a uma Câmara Municipal: Ponte de Lima. Este Domingo subiu o total para 5 (três conquistadas ao PSD e uma ao PS), com participação numa 6ª, dado que foi o único partido a apoiar a e a participar na candidatura vencedora no Porto. Cinco câmaras não é excepcional, mas representa uma viragem. Tal como o PCP, o CDS obteve o melhor resultado desde 1997 (8 câmaras). Para Paulo Portas foi um balão de oxigénio no momento oportuno, depois da trapalhada da irreversibilidade há 4 meses atrás. Aliás, ao contrário de Jerónimo de Sousa, Portas estava eufórico, com um sorriso rasgado e quase aos pulos quando anunciava os cinco triunfos. Pudera, ganhou novo fôlego no Partido e ainda conseguiu demarcar-se da hecatombe eleitoral da coligação que governa o país.


* Voto de protesto (Brancos & Nulos). Os votos brancos e nulos, forma de protesto mais eficaz e inequívoca do que a abstenção, mais do que duplicou para 340.000, atingindo um score equiparável aos independentes. Este voto crescente demonstra que o descontentamento de muitas pessoas não se cinge ao partido A, B, ou C, mas é transversal a todos eles. Houve 324.000 eleitores (7% do total) que se deram ao trabalho de se deslocar à assembleia de voto para dizer que não se revêem nas candidaturas apresentadas. Esta é a principal mensagem que o sistema partidário devia ouvir. Infelizmente, nem esta nem outras serão captadas e digeridas pelos partidos.


* Independentes. Também ganharam. Nada menos do que 13 câmaras. Contudo, não partilho o entusiasmo desenfreado que grassa na opinião publicada sobre os independentes. Não acredito que sejam uma solução salvífica para os problemas do sistema político. Tal como acontece com os candidatos partidários, haverá os bons, os medianos e os maus. A minha experiência passada e a minha observação presente, também me leva a concluir que a maioria dos independentes, não o é verdadeiramente. A maioria foi preterida pelo seu partido e, não acatando essa decisão, concorre à revelia do partido, mas levando com ele a maioria da estrutura e candidatos, do partido, que com ele já haviam concorrido. Tal foi o caso de Guilherme Pinto em Matosinhos e de Adelaide Teixeira em Portalegre, como já havia sido o caso de Valentim Loureiro, Isaltino Morais e Fátima Felgueiras. Mesmo Rui Moreira, que não tinha lastro partidário, contou com o apoio do CDS e de parte substancial do PSD-Porto; para todos os efeitos, teve a máquina eleitoral do CDS de forma aberta e de algum PSD de forma encapotada. Não obstante, o certo é que obtiveram resultados muito positivos e a vitória no Porto não deixa de ser um feito assinalável. É óbvio que Rui Moreira criou expectativas dentro e fora do Porto e se o seu mandato for um sucesso poderá constituir um incentivo para o independentismo. Se for uma mera extensão de Rio, o balão esvaziará.

 
 
VENCIDOS:

* PSD. Foi o perdedor. Perdeu câmaras, votos, percentagem e ânimo. Teve, aliás, o pior resultado de sempre: 106 câmaras (em 1989 teve 113). Na coluna das perdas amontoam-se o Porto, Coimbra, Sintra, Vila Real, Gaia, Funchal, enquanto os únicos ganhos relevantes foram Braga e Guarda. Passos Coelho surgiu na noite eleitoral para fazer a “leitura nacional dos resultados” e reconheceu a estrondosa derrota. Dito isto, deixou de saber ler e declarou que não retirava qualquer consequência da pesada derrota. Não esperava outra coisa. Fica a imagem de um líder tristonho e sozinho que continua a ter uns assomos de sobranceria. Contudo, quando em Maio de 2014 somar uma provável nova derrota, o isolamento será maior, como maior será o número de cortesãos a afiar as adagas nos bastidores. Um exercício interessante será o de tentar perceber quem será o “Bruto” que avança e crava primeiro.


* Bloco de Esquerda. O BE virou Bloquinho. Não o digo com carinho, que não tenho, mas porque foi aquilo a que o BE ficou reduzido. Perdeu a câmara que herdara e ficou à porta das vereações de Lisboa e Porto. Foi deprimente ver João Semedo vestido do mesmo azul que o background do palco (parecia que estava atrás de um daqueles bonecos de feira onde se coloca a cabeça para tirar uma foto), vergado ao peso da derrota, a vociferar contra a Direita e Alberto João Jardim apontando a sua (deles) colossal derrota tentando omitir a sua (dele próprio) derrota colossal. Será que o BE bicéfalo está a ficar acéfalo?


OUTRAS CENAS:

* Oeiras foi o palco do surrealismo. O candidato vencedor, Paulo Vistas, clamava louvores a um presidiário chamado Isaltino Morais, com o mesmo fervor fanático dos pregadores de certas seitas. Os apaniguados do vencedor foram comemorar para o exterior da prisão para partilhar o triunfo com o referido presidiário. Este foi um dos tais independentes que ganhou, apesar de ser doentiamente dependente. Do presidiário, claro está. A este ritmo, poderemos vir a ter os irmãos Dalton a liderar o concelho.


* O Porto foi o palco da falta de fair-play. Manuel Pizarro protagonizou a mais miserável intervenção da noite. Ele perdeu as eleições, mas bajulou o vencedor (ai a vereação, que vontade!) e regozijou-se de forma larvar e raivosa com a derrota de Luís Filipe Menezes, atirando aleivosias como quem atira perdigotos. Lamentável. O vencedor Rui Moreira, cumprimentou o rival do PS e ignora o concorrente do PSD, que algum tempo antes o havia felicitado e feito um apelo à colaboração com o vencedor. Muita prosápia acerca de ser diferente, mas a mesma falta de chá de muitos outros. Menezes pode ter muitos defeitos, mas foi dos três o que teve uma postura mais digna na noite eleitoral.


* Acerto de Contas. Rui Rio e Luís Filipe Menezes há muitos anos que nutrem um ódio de estimação mútuo. Quis o destino que gerissem duas câmaras em simultâneo nas duas margens do trecho final do Douro. Mais do que o poderoso rio (o Douro), separava-os o estilo, o feitio e o modelo de governação; nem o partido comum (PSD) os unia. Só o ódio. O destino maroto obrigou-os a deixar os respectivos cargos na mesma altura. Menezes arriscou atravessar o Douro. Rio (o Rui) optou por ficar em casa e, de pés enxutos, minou e armadilhou o trilho de Menezes da Ribeira à Avenida dos Aliados. Menezes soçobrou e Rio ganhou sem ir a jogo. Não creio que tenha sido o combate final.


* Blá, Blá, Blá. Porque será que nas noites eleitorais, os porta-vozes dos perdedores, derrotados e esmagados gastam a sua intervenção inicial com platitudes? Dizem, por exemplo: “Quero felicitar os Portugueses, blá, blá, blá, pelo enorme civismo e maturidade democrática, blá, blá, pela forma ordeira e sem incidentes como decorreu o acto eleitoral, blá, blá, blá…”, enquanto pensam: “Que grande banhada que levámos! Quem me dera estar longe daqui… Será que o gajo (o líder) se demite ainda hoje? A quem me devo colar? Tenho de me pôr a mexer!” Este papel no Domingo coube a Marco António (o do PSD).

01 outubro, 2013

Assim Se Vê a Força do PC

 
ASSIM SE VÊ A FORÇA DO PC

 
Assim se vê a força do PC era um slogan gritado nas manifestações e comícios do PCP no tempo em que o Partido tinha um poder brutal na rua e nas empresas, tinha votações acima dos 15% e detinha mais de 50 câmaras municipais. Esses tempos não voltaram, mas lembrei-me deste slogan quando seguindo a noite eleitoral de Domingo ia ouvindo: PCP reconquista Alcácer do Sal, retoma Évora, volta a ganhar Beja e Vila Viçosa e Grândola e Loures. Veio-me à memória a ameaça/promessa de Odete Santos: “O Alentejo ainda será nosso outra vez!” Tinha razão. Já é.


A icónica bandeira vermelha com a foice e o martelo flutua em 34 câmaras municipais de Portugal.

O PCP é o grande vencedor das Autárquicas de 2013. Passou de 28 para 34 câmaras, incluindo concelhos importantes, como alguns do que referi. Além disso, foi o único partido que aumentou o nº de votos numa conjuntura de aumento da abstenção e do voto de protesto (brancos e nulos).


Quando conto a amigos estrangeiros a força eleitoral dos Comunistas em Portugal, somada à natureza ortodoxa do Partido, eles ficam, invariavelmente perplexos. Incrédulos mesmo. Mesmo naqueles países onde os respectivos PC’s tiveram peso e influência, como Itália, França, Espanha, Finlândia, após a Queda do Murro de Berlim e o colapso da União Soviética, estes partidos reformaram-se, mudaram (até de nome), esvaziaram-se e praticamente desapareceram.


Precisamente em 1992, na sequência da desintegração da URSS, um jornal de Guimarães, “O Povo de Guimarães”, com uma matriz acentuadamente de esquerda, fez um inquérito sobre o assunto, incluindo questões sobre o PCP, nomeadamente o que pensava sobre a opção de Álvaro Cunhal, contra a corrente da época, de manter inalterado o nome, programa, identidade e política do PCP. Sendo eu conotado com a “Direita”, ficaram surpreendidos por ter respondido que admirava a coerência e coragem dessa opção e que essa honestidade intelectual talvez desse frutos.


Et voilá. Volvidos 22 anos, o PCP é o único Partido Comunista com relevo na Europa Ocidental. As eleições de Domingo demonstraram a resiliência do PCP que, cada vez que parece estar em declínio irreversível, recupera, ganha votos e aumenta mandatos.


Continuo a estar a milhas do ideário do PC, mas reconheço aos seus militantes e apoiantes a capacidade de trabalho, de luta, de disciplina e de trabalho que permite que 11% dos votantes nele se revejam e votem. Para muitos, o PCP é a voz da resistência à opressão, da luta contra as injustiças, do apoio aos trabalhadores, da preocupação com os desfavorecidos. Tem implantação nacional, tem tradição autárquica onde exerce o poder, tem enorme influência no movimento sindical e capacidade de mobilização na rua.


Por tudo isso mais a crise dolorosa e a governação incompetente, o PCP ganhou, sem fantasmas internos, sem dissidentes, sem bicefalias acéfalas, sem tricas com os parceiros de coligação. Simplesmente ganhou mais 6 câmaras, mais 13.000 votos. 92 anos após a fundação, assim se vê a força do PC!