A ESTRADA DE DAMASCO
pintor Holandês (Dordrecht) do século
XVII (1620-1691).
Hoje, a Estrada de Damasco está recheada de mil perigos, mas não oferece a
redenção a ninguém.
O regime dos Assad (Hafez, o pai, de
1970 a 2000 e Bashar, o filho, desde então) há muito que não tem remissão por ser uma das mais brutais e
impiedosas ditaduras do Médio Oriente. Além de que eles não seguem essa estrada, uma vez qu estão instalados em Damasco há
42 anos.
A oposição, em boa verdade não se sabe. Não
se sabe quantos são, a maioria nem se sabe quem são, mas sabe-se que são
díspares e que nela estão acantonados muitos elementos indesejáveis. Também se
sabe que são incapazes de derrubar o regime sírio e por isso estão a receber
apoio militar da Turquia, Arábia Saudita e Qatar (directamente) e dos EUA
(indirectamente). Para eles, a Estrada
de Damasco tem sido um mortífero beco sem saída.
O Trio Sunita (Turquia, Arábia Saudita e Qatar). Estes países são os maiores opositores dos Assad, mas além da questão
religiosa que os une (são todos maioritariamente Sunitas) seguem roteiros
diferentes. Para os Sauditas e os Qataris trata-se, acima de tudo, de
contrariar a crescente hegemonia iraniana no Médio Oriente retirando-lhe o
principal aliado árabe da sua esfera de influência. Para os Turcos, a questão é
de garantir a estabilidade e segurança nas suas fronteiras e afirmar a sua
ambição de potência regional em ascensão. No entanto, este Trio não incluiu
equipamento militar no seu kit de viagem. O
resultado é que estão atascados na Estrada de Damasco sem perspectivas de lá
chegarem rapidamente.
O Irão não mora em Damasco, mas
já lá está. Afinal tem lá os seus maiores amigos no mundo árabe. E
passa por lá frequentemente a caminho do Líbano, onde está outro dos seus
amigos: o Hezbollah. Para Teerão, o problema é que a Estrada de Damasco que tem
sido uma open road na últimas duas décadas, se transforme, digamos, numa via com
pesadas portagens. Esse é um preço geopolítico que os ayatollahs não querem
pagar e por isso vão canalizando apoio
económico, logístico e militar pela Estrada de Damasco, para o regime de Assad.
Os Estados Unidos não têm a Estrada de Damasco no GPS. Ou melhor, Washington quer o colapso do regime de Damasco, mas não quer
intervir militarmente, porque há eleições dentro de 4 meses e porque é muito
perigoso, pois a Síria tem um sistema de defesa aérea moderno e capaz. Como não
encontram a Estrada que os leve a Damasco sem dar o corpo ao manifesto, aquilo
que se ouve dos EUA é a Sra. Hillary Clinton a gritar que o regime sírio não
tem legitimidade, que os Assad são bandidos sem escrúpulos e que os serviços de
segurança sírios têm sangue nas mãos. Não
se prevê que seja assim que os EUA cheguem a Damasco e, muito menos, que
vejam a luz como Paulo há 2000 anos.
Para a Rússia, a Estrada de Damasco passa por Tartus. Tartus é o único porto de apoio de que a Frota Russa do Mar Negro dispõe
no Mediterrâneo e tem, por isso, relevância estratégica para Moscovo. Depois, a
Síria é o último aliado histórico que a Rússia tem no Médio Oriente. Na Guerra
Fria, a União Soviética contava por aliados ou próximos uma lista de estados
que incluía a Síria, o Iraque, a Líbia, o Egipto, a Argélia e o Iémen do Sul.
Finalmente, Moscovo tenta negar ao Ocidente mais um êxito na região ou, no
mínimo, arranjar mais um pantanal para os EUA se atolarem. Resumindo, o objectivo da Rússia é tornar a Estrada de
Damasco intratável para os opositores externos do Governo da Síria.
2000 anos depois de Paulo, a Estrada de Damasco é palco de rivalidades,
interesses geopolíticos, jogos de influência e poder, conflitos sectários e
políticos e, claro, muita violência, sangue e morte.
2000 anos depois de Paulo ter visto a luz, não há luz, nem redenção, nem
profetas ou apóstolos e muito menos conversão. Apenas Real Politik. Fascinante,
impiedosa e brutal.
