13 outubro, 2008

The Surge


THE SURGE

General David Petraeus: o rosto do Surge.
Há dois anos atrás medravam os catastrofistas que anunciavam a derrota dos EUA no Iraque, a implosão deste país, o carácter irreversível da espiral de violência.

No final de 2006, num acto de coragem política e de (tardia) visão, o Presidente George W. Bush optou pela via impopular mas racional: mudou a liderança militar americana no Iraque, aumentou em 5 brigadas (cerca de 30.000 homens) o contingente militar aí colocado (The Surge) e deu luz verde para que uma nova estratégia fosse implementada.

O General David Petraeus, recentemente promovido a Comandante do US Central Command (que superintende os teatros do Afeganistão e do Iraque), foi o cérebro e o rosto da nova abordagem, que passou pela colocação de soldados norte-americanos em pequenos aquartelamentos numa espécie de tropa de vizinhança, pelo incremento de operações conjuntas EUA/Iraque e pela cooptação de insurgentes sunitas insatisfeitos com a vertigem sanguinária da Al-Qaeda. Petraeus é o rosto e o símbolo de uma viragem notável nos destinos da Guerra do Iraque e, se conseguir dar o mesmo ímpeto positivo ao esforço de guerra no Afeganistão, poderá ser o mais notável militar americano do início do século XXI.

Volvidos cerca de 20 meses, o Surge constitui um sucesso notável. O número de vítimas da violência, ainda elevado, caiu drasticamente, sejam elas militares dos EUA, da Coligação, ou do Iraque, sejam elas civis. As forças de segurança iraquianas já receberam o controle de mais de metade das províncias do Iraque. Condições foram criadas para que o normal processo político possa desenvolver-se, como atestam a aprovação de leis infra-estruturantes como a dos hidrocarbonetos e das eleições regionais e o regresso ao governo de partidos sunitas.

Lentamente, o desenvolvimento económico e social vão ganhando importância para os Iraquianos, sinal de que a segurança e a sobrevivência deixaram de ser a preocupação nº 1 da grande maioria.

George W. Bush também merece crédito por ter resistido a uma redução abrupta, ou mesmo a uma retirada acelerada do contingente militar. Os ganhos são muito grandes, mas custaram a conseguir e seria estúpido deitar tudo a perder com uma jogada política popular.

Nem tudo está ganho ou garantido no Iraque, mas o que se passou nos últimos dois anos deixa um sinal de esperança, afinal aquilo que se havia perdido nos tempos difíceis de 2005/06. Como sempre defendi, o veredicto final sobre se valeu a pena a invasão de 2003 ainda não saiu. Eu continuo a acreditar que valeu a pena, apesar do tempo perdido.


P.S. A Guerra do Iraque quase desapareceu do radar das Eleições Presidenciais dos EUA. Isso é um bom e um mau sinal. Bom sinal, porque significa que as coisas no terreno vão correndo bem. Mau sinal, porque foi a hecatombe financeira e bolsista que varreram da atenção dos eleitores outros assuntos.

Também é pena porque se esquece que o Senador John McCain foi um dos principais defensores do surge e é, indirectamente um dos principais responsáveis pela reviravolta positiva no Iraque. É pena, finalmente, porque faz esquecer que o Senador Obama, sobre o Iraque, se limitou a defender as posições que, no momento, eram as mais populares; por ele, a guerra já teria sido perdida há muito.

5 comentários:

Anónimo disse...

Professor, mas não se pode esquecer que Barack Obama sempre se opôs à intervenção no Iraque, mesmo na época em que era impopular fazê-lo (2002/2003). Já o senador Mccain afirmava confiantemente que a a campanha iraquiana iria ser um "walk in the park" e que os americanos seriam recebidos como libertadores. O tema Iraque foi completamente suplantado pela Economia, mas não acho que isso favoreça Obama, porque em ambos os temas a maioria dos americanos prefere a visão do senador do Illinois.

A "surge" tem sido realmente bem sucedida, mas a verdade é que o "causus belli" para a entrada em guerra revelou-se ser infundado: nunca se encontraram as armas de destruição massiva e as provas da sua existência, que George Tenet disse serem um "slam dunk", eram circunstanciais e pouco credíveis. Além disso, a "surge" não teria sido necessária se não se tivessem cometido erros crassos como a dissolução de todo o exército iraquiano e o despedimento de todos os funcionários públicos sobre o pretexto de serem membros partido Baas (não sabiam que para se ser funcionário do governo era preciso filiar-se no partido?), o que levou a que centenas de milhares de iraquianos descontentes fossem "atirados" para as ruas do país.

O tempo julgará, então, a intervenção americana no Iraque e a presidência Bush. Lembre-se que nenhum presidente americano tinha índices de aprovação tão baixos desde Harry Truman. E Truman é agora visto como um grande estadista e um dos melhores presidentes americanos de sempre.

freitas pereira disse...

Li com um certo atraso este post .

Não posso deixar passar sem um comentário esta frase :" Como sempre defendi, o veredicto final sobre se valeu a pena a invasão de 2003 ainda não saiu. Eu continuo a acreditar que valeu a pena, apesar do tempo perdido."

Custa-me a crer que tenha esquecido a ilegalidade da invasão, e sobretudo o preço pago para o sucesso provisório do "surge" : 600.000 mortos e 4300 GI's, e um pais destruído. E digo provisório porque apesar do “contrato” imposto pelo ocupante ao governo iraquiano para manter as tropas americanas durante ..;;;X anos , sabe-se bem que o povo iraquiano um dia expulsará os Americanos como ele expulsou os Ingleses há algumas dezenas de anos.

Se pensa que o petróleo do Iraque valia este massacre, isso é absolutamente contrario aos nossos valores civilisacionais.

Além do custo humano, a guerra do Iraque está na origem da falência da economia americana e da nossa. Mesmo se a vigarice financeira mais vasta da historia da humanidade veio coroar os dois défices colossais bem conhecidos, o declínio da potência americana será imputada a Bush no dia em que as contas serão acertadas pelos historiadores.

Rui Miguel Ribeiro disse...

João Luís:
É verdade que não existiam WMD, mas a maioria dos observadores, incluindo os serviços de informações da Europa Ocidental, achavam que havia.
A gestão do pós-guerra conheceu erros crassos e a própria guerra, mesmo bem sucedida, foi feita com tropas insuficientes.
Também é verdade que, se dependesse de Obama já não haveria tropas dos EUA no Iraque e que o país estaria provavelmente ensopado em sangue.
A campanha foi, efectivamente, "a walk in the park". O day after é que correu mal e McCain há muito que é crítico dessa situação. Ele é um mentor político do surge e este resultou. That's for his credit.

Rui Miguel Ribeiro disse...

Caro amigo Freitas Pereira:
A "ilegalidade" da invasão é, pelo menos duvidosa, mas não creio que a invasão se devesse apenas ao petróleo que é a explicação anti-guerra mais redutora e simplista.
Por outro lado, quando falamos de mortos, não nos podemos esquevcer das centenas de milhares de mortos do regime de Saddam Hussein e da repressão inclemente sob a qual viviam os Iraquianos.
Quanto ao declínio dos EUA, teremos de ver: há mais de 30 anos que é anunciado e ainda não aconteceu...

Ricardo Lima disse...

Caro Freitas Pereira, se o Iraque já não tinha WMD foi porque gastou os stocks todos com os curdos e com os iranianos. Quanto a Thruman, a maneira como conseguiu a intervenção "mundial" na Coreia foi excelente, pena a corrida que os americanos levaram de lá.