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04 maio, 2017

Une Petite Curiosité?



UNE PETITE CURIOSITÉ?

Marine Le Pen. Ou Angela Merkel?


No dia 25 de Abril publiquei um post intitulado “Eleições Francesas: Ganha a Merkel?” (http://tempos-interessantes.blogspot.pt/2017/04/eleicoes-francesas-ganha-merkel.html ) O título, sendo algo provocatório, era baseado na provável vitória de Macron, no seu programa que segue boa parte da agenda alemã e nos recentes precedentes de submissão de Paris a Berlim.

Trago isto à baila, porque no debate televisivo de ontem, o grande sound bite da noite pertenceu a Marine Le Pen: A França vai acabar por ser liderada por uma mulher. Se não for eu, será Merkel”.

Não creio que a Senhora Le Pen tenha visitado o Tempos Interessantes, mas que eu o disse antes, disse. A grande questão, porém, é a de saber como os Franceses vão digerir o momento da noite: como um golpe bem desferido, mas sem consequências; ou, se vão interiorizar a realidade da crescente hegemonia germânica e de menorização da França e se tal desperta um pouco do orgulho gaulês, o suficiente para remar e votar contra a maré dominante.

Se assim for, terá sido um dos maiores game changers da História recente. Caso contrário, terá sido une petite curiosité.




23 julho, 2015

Pax Germanica

PAX GERMANICA


The flag of the IV Reich?
Flag adaptation by Afonso Duarte  


This blog has long considered that Germany has increasingly been asserting her authority over much of Europe, especially over the countries that fatefully adopted the euro.

The saga of the Greek crisis has demonstrated that the Pax Germanica has descended upon the continent and it is firmly established from Lisbon to Riga and from Brussels to Athens.

Germany has been the greatest beneficiary of the euro and is determined to defend her interests with an iron hand if need be. There is nothing inherently wrong with that: every government is supposed to defend and pursue its country's interests.

What is out of sync is Germany's imperial posture, in a remarkable contradiction with both the refrained attitude that is supposed to be that of post-War Germany and the egalitarian and cooperative characteristics that Brussels' propaganda strives to make us believe to be the EU's hallmark.

The submissions of Portugal, Spain and Ireland, followed by the total capitulation of Cyprus and Greece, show that Berlin is hell-bent on ruling the eurozone, if not the EU altogether, on its own terms.

Even more depressing than the renaissance of German imperialism, is the submission and surrender of most of the other 18 members, not only those who are virtually governed from Berlin, but also those who sheepishly follow the commands of Mrs. Merkel and Mr. Schauble, such as Italy and France.

Not wanting to establish a direct connection, but it may be useful to remember that the German III Reich scored her first victories and conquests having to wage little or no fight: Austria, Czechoslovakia, Denmark, the Netherlands, Belgium and even France and Norway.

There is yet another similarity: in the 1930's and 1940's there was no shortage of "Quislings", traitors who collaborated with the Nazis for their personal benefit, the misery of their home countries and the death of many of their countrymen. Likewise, early 21 Century Europe displays its own army of Quislings, the likes of Monti, Samaras, Coelho, Rajoy, Papademos and Tsipras, the latest turncoat.

Supported by their stooges, the Germans go around bullying, imposing, threatening, showing their hubris and the contempt they feel for other countries' sovereignty and democratic process. I would just recall the declarations of Mr. Martin Schulz, the German Social-Democrat (???) who is the President of the European Parliament (???) who urged the Greeks to vote "Yes" in their referendum  and the replacement of the democratically elected government by a technocratic one with whom they (the Germans) could do business with, i.e., a subservient and non-accountable government like Monti's in Italy and Papademos' in Greece.

Not wanting to overuse II World War analogies, it looks like only in the English Channel and/or in the Russian Winter, can Germany now be stopped.

For the foreseeable future, we seem to be condemned to live under a Pax Germanica which, like its Roman predecessor, is very much German(ic) and not so pacific.




01 setembro, 2014

Vista de Moscovo


VISTA DE MOSCOVO


Vamos contar a mesma história com uma narrativa diferente. Como se vê a Crise da Ucrânia a partir de Moscovo?


O centro do poder na Rússia: o Kremlin, em Moscovo e na margem do Moskva.

in STRATFOR em http://www.stratfor.com/

Todos os países têm interesses. As grandes potências têm, por definição, interesses mais amplos. A Rússia não foge à regra.


A Ucrânia representa um interesse vital para a Rússia. Os motivos são de ordem geopolítica, histórica, cultural, linguística, étnica e religiosa. A Ucrânia e a Bielorrússia, pela posição que ocupam são de enorme importância para a Rússia. Sem qualquer deles, a vulnerabilidade da Rússia aumenta exponencialmente. Nenhuma outra potência tem um interesse tão forte na Ucrânia.


A instrumentalização dos protestos contra o Presidente Yanukovych, a sua intensificação e o coup d’état que culminou o processo foi, na interpretação mais benigna, um ataque aos core interests da Rússia. Se eu consigo ver isso, imaginem como serão as coisas vistas de Moscovo. Vista de Moscovo, foi mesmo isso, ou talvez até um pouco mais.


Não vale a pena carpir sobre as maldades de Putin, ou repudiar a existência de interesses específicos sobre países terceiros, ou vilificar o conceito de esferas de influência. Tudo isto existe e não é, obviamente, exclusivo da Rússia. Basta pensar como reagiriam os Estados Unidos se uma grande potência adquirisse um poder tutelar, ou até simplesmente uma forte influência sobre o México.


Isto para dizer que as proclamações de virgens ofendidas provenientes de Washington, Berlim, ou Varsóvia, valem zero, a não ser como campanha de PR para justificar as acções contra a Rússia. É óbvio que estes e outros países sabiam que estavam a atravessar uma red line de Moscovo e que a apropriação da Ucrânia seria encarada como um cerco à Rússia. Um ataque, portanto.


Movimentos militares na Ucrânia Oriental em Agosto de 2014.
in STRATFOR em http://www.stratfor.com/


Caracteristicamente, os EUA, habituados a ter o exclusivo do benigno e justificado uso da força, ficaram chocados e reagiram com despeito. As sanções à Rússia foram uma solução low-cost para castigar o infractor do monopólio americano.


Menos compreensível é a reacção das potências europeias, aparentemente arrastadas pela histeria anti-russa dos EUA, Polónia e Lituânia. Ao contrário dos EUA, as sanções são high-cost para países como a Alemanha, Itália, Hungria, Eslováquia, Bulgária, entre outros e poderão sê-lo também para o Reino Unido e para a França. E não parece fácil que os potenciais ganhos excedam os custos.


Os ganhos são o alastrar da esfera de influência (sim, leu bem, esfera de influência) da Alemanha, com a Polónia no papel de adjunto e o enfraquecimento da Rússia.


Os custos, para além das sanções, são o irritar a Rússia, tornando-a mais agressiva e menos previsível e acarretar com o encargo da viabilização de um país falido e divido. Em último caso, os custos podem subir à escala de uma guerra de grandes proporções.


Vale a pena? Não me parece.


Exactamente há 75 anos, a 1 de Setembro de 1939, a Alemanha lançou um ataque fulminante (Blitzkrieg) sobre a Polónia, despoletando a II Guerra Mundial. Dezasseis dias depois, a União Soviética invadiu a Polónia consumando mais uma repartição do país. Volvidos menos de dois anos, o acordo entre Hitler e Staline desfez-se quando a Alemanha invadiu a URSS (Ucrânia incluída) na sua procura de Lebensraum (espaço vital) e hegemonia.


75 anos volvidos, será isso que a Alemanha procura? Sem os Panzer, mas com o Deutsche Euro?


Os Panzer alemães irrompem pela Polónia em 1939.
in “The Chronicle” em http://chronicle.com/blognetwork/edgeofthewest/2009/09/01/fall-weis/


Vista de Moscovo, a mudança de regime e o realinhamento de Kiev com o Ocidente, só pode significar mais um e decisivo passo no cerco à Rússia. Durante a década de 90, a Rússia passou de um império que lutava pela hegemonia global para um fantasma dos seus tempos de poder, fraco, acossado e tornado joguete pelo Ocidente. Esse Ocidente não parece ter percebido que a Rússia de hoje, embora muito distante da URSS, também é muito diferente da de Yeltsin.


Vista de Moscovo, as acções americanas e alemãs na Ucrânia são reminiscentes do alargamento da NATO até ao Báltico, das revoluções coloridas na Ucrânia e na Geórgia em 2004/05 e do ataque à Sérvia e ao seu desmembramento parcial em 1999.


Consequentemente, vista de Moscovo, a Batalha da Ucrânia não pode ser perdida pois aproxima-se de uma batalha pela sobrevivência, pelo menos da Rússia enquanto grande potência. Por isso a Rússia está a dar luta. Faz como os outros, bate-se pelos seus interesses com os meios ao seu alcance. Chama-se Power Politics.


Vladimir Putin empenhou-se em devolver à Rússia poder, estatuto e alguma grandeza.


Vista de Moscovo, o que está em jogo é esse estatuto da Rússia.


Vista de Moscovo, o ataque ocidental à Ucrânia é a pedra de toque para reduzir a Rússia à insignificância de há 20 anos.


Vista de Moscovo, essa é uma perspectiva inaceitável.

29 abril, 2014

Double Standards


DOUBLE STANDARDS



International Relations are mostly about Power and National Interest. Nowadays, however, they are also about taking the moral high ground. Accordingly, OUR intentions are the best and invariably ethically commendable. On the other hand, THEIR intentions are self-interest motivated, illegal and morally evil.


Ukraine, like other hotspots, offers ample evidence of Double Standards.




EXHIBIT A: Government legitimacy


Russia upholds the legitimacy of ousted President Yanukovych and does not recognize the legitimacy of Ukraine’s current government and President.


The USA, Germany, Poland and others, heretofore referred to as the West, promptly recognized the new government.


1- Viktor Yanikovych was democratically elected in 2010 and his mandate would only end in 2015.


2- Aleksandr Turchynov assumed the post of President without a popular mandate and the same can be said about the government led by Arseniy Yatsenyuk.


3- On the 21 February, Yanukovych and the opposition signed an agreement brokered and sponsored by Berlin, Paris and Warsaw, according to which, some presidential powers would be devolved to parliament and Yanukovych would stay in power at least until early elections took place in the Spring.


4- This notwithstanding, the President had to flee the Ukraine the following day.


5- Subsequently, Parliament illegally impeached the President, breaching the Constitution and snubbing the Constitutional Court.


6- Furthermore, this non-elected government has signed agreements with the IMF and the EU that entail serious long-term commitments on Kiev’s part and a great deal of enduring and very painful sacrifices for the Ukrainian people.


Of course what mattered here was that the new powers that be, favoured the interests and the agenda of the West. Real legitimacy was just collateral damage. Obviously the same could be said about Russia.



EXHIBIT B: Protest movements


Russia labeled the protesters (a.k.a. rebels) in Kiev and Western Ukraine as terrorists, fascists, thugs, illegal, anti-semitic and purveyors of their alleged Western sponsors’ interests.


The West dubbed the protesters (a.k.a. rebels) in Eastern Ukraine (and Crimea) as Russian-manipulated, violent, illegal, para-military and wholly unacceptable. The new government in Kiev likes to call them terrorists.


In fact, these protesters (a.k.a. rebels) are very much alike, which is of course anathema for Moscow, Washington and Berlin, adamant as they are about their own morality, their own legitimacy and their unique concern for the Ukrainians’ well-being.


These claims notwithstanding, all these groups engage in illegal and violent activities, serving their own interests and those of their sponsors, whether domestic or foreign.



IMAGINE:


Imagine that a significant number of Portuguese people would rebel against the Memorandum of Understanding signed by the three major parties with the IMF, the EC and the ECB and that has caused excruciating and unwarranted hardship on the Portuguese people.


Imagine that this angry mob, part of which was trained and funded by a foreign power, occupy and ransack numerous government buildings, sequestered government officials and killed a few others, resisted and attacked the police and seized weapons depots.


Imagine that eventually the government resigned and the President and the Prime-Minister would flee the country. Then the organized groups within the rebellious crowd would constitute a new government.


Imagine what Washington, Berlin or Brussels would think and do? Would they actually recognize and acclaim the new order? Of course not. It would not be in their interest. Period.


Double standards are common practice in politics and International Relations and they derive from the pursuit of national interest which is frequently somebody else’s loss. But the international actors could spare us the moral posturing. That level of hypocrisy just adds insult to injury to everyone who sees beyond the lame protests of innocence and good faith.




06 fevereiro, 2014

Battleground of Eastern Europe

BATTLEGROUND OF 
EASTERN EUROPE

Está na moda, neste século, proclamar-se que velhos conceitos da Geopolítica como Balance of Power (equilíbrio de poder) e áreas de influência estão obsoletos e que já não são aplicáveis nas Relações Internacionais do III Milénio. Uma pequena confidência: não é verdade. A Ucrânia é um exemplo vivo disso mesmo.

A Europa Oriental, entre a Alemanha e a Rússia.
in STRATFOR em http://www.stratfor.com/

A Ucrânia ocupa uma posição estratégica relevante na Europa Oriental. Ocupa a maioria da costa setentrional do Mar Negro, constitui a maior massa territorial a separar a Rússia da Europa Central, detém a população mais numerosa entre a Alemanha e a Rússia e detém significativos recursos naturais. Contudo, não é um país particularmente poderoso nem auto-suficiente. É política e militarmente vulnerável e economicamente frágil. Conjugando estes factores, a Ucrânia torna-se um fruto apetecido para países mais poderosos e ambiciosos. Numa palavra, a Ucrânia é o Battleground da Europa Oriental.

Olhando para o vasto espaço que medeia entre o Báltico e o Mar Negro, não é difícil descortinar as potências com os meios e a tradição de hegemonia na região: a Rússia e a Alemanha são os países que melhor podem disputar a influência sobre a Ucrânia.

A Ucrânia está dividida internamente em partidos diversos, alguns irreconciliáveis, mas está principalmente dividida entre uma parte ocidental historicamente e culturalmente próxima da Polónia e da Europa Central e uma parte oriental étnica, linguisticamente e historicamente próxima da Rússia.

Contudo, o conflito actual é potenciado e manipulado por Berlim e Moscovo que querem atrair e fixar Kiev nas respectivas áreas de influência.

Ambas, Alemanha e Rússia, usam um mix de persuasão e pressão para atrair a Ucrânia. A Alemanha manipula parte da oposição, a Rússia trabalha o governo. Aquela quer a Ucrânia atada à EU liderada por Berlim, enquanto esta quer ver a Ucrânia na União Aduaneira liderada por Moscovo.

Outros países têm interesses na evolução e posicionamento da Ucrânia, como a Polónia e a Lituânia, mas o seu poder e capacidade de influenciar e pressionar são limitados.

Assim sendo, o jogo do atrito, de avanços e recuos, vai-se fazendo entre Berlim e Moscovo. Embora no Ocidente se diabolize o papel da Rússia, a verdade é que a ingerência na Ucrânia é multilateral. A título de exemplo, a principal figura da oposição ucraniana, Vitali Klitschko, é uma espécie de avençado da Alemanha, onde viveu, e por quem é apoiado, doutrinado e financiado.

A principal diferença entre A Rússia e a Alemanha é a importância que a Ucrânia tem para cada uma. A Ucrânia é vital para a segurança e para o equilíbrio geoestratégico da Rússia. Sem a Ucrânia, a Rússia fica vulnerável a uma agressão externa e a sua área de influência perde substância. Também não podemos ignorar que Kiev é o berço da civilização russa e que muitos são os russófonos e os russófilos que aí vivem. Do ponto de vista estratégico, a Ucrânia é, porventura, o país mais importante para a Rússia e por isso não surpreende que Moscovo se esforce por manter Kiev na sua esfera de influência.

Para a Alemanha a Ucrânia também é importante (foi um dos seus principais alvos em 1941), mas não é vital. Na última década do século XX e na primeira do século XXI, a Alemanha já estendeu muito a sua influência para Leste, especialmente no Báltico e na Europa Central. Fê-lo, fundamentalmente, numa fase em que a Rússia atravessava uma crise profunda. Agora, quando a Alemanha (e em menor grau, a Polónia, a Suécia e a Lituânia) tenta penetrar de forma assertiva na Europa Oriental (Bielorússia, Ucrânia, Moldova) e no Cáucaso, depara-se com uma Rússia renascida, mais forte e com uma liderança determinada, o que acaba por degenerar nos actuais confrontos.

Neste Great Game da Europa Oriental, a Ucrânia é o Battleground privilegiado e Russos e Alemães vão movendo os seus peões, bispos e torres e jogando os seus trunfos. O que se decidia com tanques em 1941/44, decide-se hoje de forma mais subtil, mas encarniçada. Ao contrário do que sucedeu há 70 anos atrás, hoje o jogo pode não ter um desenlace claro, talvez aquele que mais favoreça o tabuleiro do jogo, a própria Ucrânia, que não pode cortar os fortes laços que a ligam à Rússia, mas que também não pode prescindir das ligações à Alemanha e à Europa Ocidental.

A última ironia desta crise é que aqueles que, dos dois lados da barricada, afirmam lutar pela liberdade e autonomia da Ucrânia, estão na verdade a pugnar por uma escolha entre duas áreas de influência tuteladas pela Rússia e pela Alemanha.