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04 maio, 2017

Une Petite Curiosité?



UNE PETITE CURIOSITÉ?

Marine Le Pen. Ou Angela Merkel?


No dia 25 de Abril publiquei um post intitulado “Eleições Francesas: Ganha a Merkel?” (http://tempos-interessantes.blogspot.pt/2017/04/eleicoes-francesas-ganha-merkel.html ) O título, sendo algo provocatório, era baseado na provável vitória de Macron, no seu programa que segue boa parte da agenda alemã e nos recentes precedentes de submissão de Paris a Berlim.

Trago isto à baila, porque no debate televisivo de ontem, o grande sound bite da noite pertenceu a Marine Le Pen: A França vai acabar por ser liderada por uma mulher. Se não for eu, será Merkel”.

Não creio que a Senhora Le Pen tenha visitado o Tempos Interessantes, mas que eu o disse antes, disse. A grande questão, porém, é a de saber como os Franceses vão digerir o momento da noite: como um golpe bem desferido, mas sem consequências; ou, se vão interiorizar a realidade da crescente hegemonia germânica e de menorização da França e se tal desperta um pouco do orgulho gaulês, o suficiente para remar e votar contra a maré dominante.

Se assim for, terá sido um dos maiores game changers da História recente. Caso contrário, terá sido une petite curiosité.




12 julho, 2016

Bombas de Bruxelas



BOMBAS DE BRUXELAS

 
Destruição no aeroporto de Bruxelas após o atentado do Estado Islâmico
de Março de 2016.

Temos vivido o período das bombas de Bruxelas. As que aí explodiram em Março, as que explodiram em Paris em Novembro, as que lá terão sido feitas, as que não explodiram e as que ainda poderão vir a explodir.

Nestas alturas em que há atentados, seguidos por grandes eventos que movimentam massas e media, como o Campeonato da Europa, o Tour de France, ou os Jogos Olímpicos, as pessoas interrogam-se: Porquê? Quantos? Onde e como será a seguir? E ainda se procuram e apontam responsáveis e culpados, sendo que a Bélgica emerge como alvo preferido.

Deixemos por agora este último aspecto, até porque se havia uns Belgas, outros havia que não o eram mas viviam lá, mas também havia Franceses e já os houve Britânicos, Espanhóis e outros, sendo que quase todos (ou mesmo todos), têm origem no Magrebe, no Médio Oriente, ou no Sul da Ásia.

Vamos, então, ao porquê.

Ao contrário da Al Qaeda, o Estado Islâmico (IS) quando iniciou a sua última ascensão no final de 2013 e ao longo de 2014 quando proclamou o Califado, esteve sempre focado na sua implantação e expansão territorial no Médio Oriente. Nos teatros da Síria e do Iraque desencadeava o fulcro das suas operações, fossem elas de índole terrorista, insurgência, ou até de guerra convencional. Ocasionalmente levava a cabo ataques terroristas em países próximos como o Iémen (onde se viria a implantar), na Arábia Saudita e no Kuwait. É verdade que a retórica do IS incluía ataques ao Ocidente, mas não ia além disso.

Embora não seja um facto agradável de se notar, mas os ataques do IS no Ocidente começaram uns meses após a intervenção dos Estados Unidos, da França, do Reino Unido e de outros contra o IS, primeiro no Iraque e depois também na Síria. Similarmente, o atentado que fez explodir o avião russo sobre o Sinai, ocorreu um mês após o início da intervenção da Rússia na Síria.

Coincidência? Talvez não. Eu não sou muito dado a este tipo de coincidências e, na verdade não acho que se trate de coincidência.

Acossado nas suas áreas de eleição, o Estado Islâmico despoletou e depois intensificou o0s ataques terroristas na Europa, nos EUA e na Turquia. Ao contrário das couves e dos chocolates, as Bombas de Bruxelas poderão ter origens e motivações mais longínquas Os factos parecem apontam para que as Bombas de Bruxelas venham na esteira das Bombas de Fallujah, Raqqa, Mosul e Palmira.



21 novembro, 2015

Questões Sobre Paris, o Sinai e Dabiq




QUESTÕES SOBRE PARIS, O SINAI E DABIQ

 

Destroços do Airbus A321 da companhia russa Metrojet, alvo de atentado quando sobrevoava a Península do Sinai.

Quando ocorre um ataque terrorista bem sucedido e de grande impacto, acometem-nos muitas questões e inquietações. Porquê? Quem? Como? O que correu mal?

Não há respostas únicas, infalíveis, ou que abranjam todas as situações, mas vamos tentar responder focando-nos nos atentados de 13 de Novembro em Paris e, também, no atentado contra o avião russo sobre o Sinai.

PORQUÊ?
Desconhecemos as motivações específicas e o processo decisório da liderança do Estado Islâmico (IS), mas há 3 justificações prováveis, que podem ser cumulativas.

1- Retaliar contra os ataques realizados pela Rússia e pela França contra os muçulmanos em geral e contra o Estado Islâmico em particular.
2- Demonstrar a capacidade de atacar interesses relevantes dos Cruzados (um avião de passageiros), bem como, no caso da França, atingi-la letalmente na sua capital.
3- Provocar os Estados atacados para que estes destaquem tropas para combater na Síria/Iraque e assim materializar as profecias apocalípticas de um confronto final entre o Islão e os Cruzados em Dabiq, no Norte da Síria.

QUEM?
A propaganda, a doutrinação, o exemplo e o sucesso são as armas do IS para cativar e mobilizar meios humanos. O recrutamento é feito no terreno (Iraque e Síria primordialmente) e no estrangeiro onde coexistam comunidades islâmicas, ressentimento e frustração, principalmente na Europa, Norte de África e na antiga URSS. Para este efeito, o uso inteligente da Internet, particularmente das redes sociais, tem-se revelado frutífero para o IS e mortífero para os sues inimigos. Uma vez mobilizados, os efectivos são treinados em missões de combate e (alguns) na montagem de engenhos explosivos eficazes e fiáveis (todos os que foram activados em Paris detonaram) e está montada a estrutura humana e técnica no terreno.

COMO?
Além do treino, da mentalização e dos meios, é preciso traçar objectivos e delinear um plano para os atingir. Tal requer tempo, organização e disciplina para seleccionar e estudar os alvos, analisar os riscos e as metodologias e garantir a coordenação quando, como foi o caso em Paris, se trate de múltiplos ataques desencadeados simultaneamente. Concomitantemente, tem de haver instalações para alojar os terroristas e preparar as operações, veículos para o transporte, aquisição de documentos, armas e explosivos. É, pois, uma operação morosa e elaborada e durante a qual existem diversos momentos vulneráveis à detecção.
 
Ataques em simultâneo e/ou em rápida sucessão exigem planeamento e coordenação apurados.
in STRATFOR at www.startfor.com

ALGUÉM FALHOU?
Tendo em conta que houve participantes nos ataques que já estavam referenciados pelos serviços de segurança da França, Bélgica e Turquia, alguns dos quais vieram da Síria, acostaram na Grécia e atravessaram mais de meia Europa para chegar a França e outros transitavam entre a França e a Bélgica e ainda o tempo, pessoas e meios mobilizados para os ataques, tudo indica que algo falhou na prevenção dos atentados. Mais a mais quando a França foi alvo de ataques mortíferos há 10 meses, quando foi prometido um reforço da segurança. Tal como agora….

No que respeita à destruição do A-321 russo sobre o Sinai, parece claro que a segurança do aeroporto de Sharm El-Sheikh falhou na detecção dos terroristas, dos explosivos, e da sua colocação a bordo do avião; os serviços de segurança egípcios devem ter muito que explicar. Embora os ataques de Paris tenham desviado a atenção do atentado do Sinai, a verdade é que este foi mais mortífero (224 mortos, cerca de 90 a mais do que em França) e com consequências graves para o Egipto dado o impacto negativo no crucial sector do turismo.

Contudo, é bom ter presente que os recursos dos serviços de segurança são limitados e é impossível proteger tudo e todos e vigiar todos os perigos potenciais em permanência. Por isso, continuará a haver ataques terroristas.

PODE ACONTECER AQUI E A MIM?
Sim e sim. Pode acontecer a qualquer pessoa em qualquer lugar. É óbvio que um habitante de Celorico de Basto, de Trancoso, ou de Serpa corre um risco quase nulo. Aliás, Portugal é um país de baixo risco. Porém, a improbabilidade de tal acontecer ode maximizar o efeito surpresa e a destruição num eventual ataque.

PARA QUÊ?
O IS alcançou diversos objectivos com estes ataques. Conseguiu um golpe publicitário que focou em si a atenção de todo o mundo. Aumentou o seu prestígio, reputação e a aura que exerce um fascínio entre aqueles que a ele aderiram ou que por ele sentem alguma simpatia. Atingiu fortemente o inimigo e logo potências como a Rússia e a França. Lançou o medo e até a paranóia em milhões de pessoas, o que é um dos objectivos essenciais do terrorismo – provocar o terror. Do ponto de vista do IS, os atentados do Sinai e de Paris constituíram um sucesso em toda a linha.

OS ATAQUES DO IS SERÃO A SUA PERDA?
É possível. Os ataques a diferentes alvos e a multiplicidade de inimigos que vai criando e atingindo, aumentam a reacção contra o e a vulnerabilidade do Estado Islâmico.

E TAL NÃO REPRESENTA INCOMPETÊNCIA OU ESTUPIDEZ?
Não necessariamente. Estou convencido que a liderança do Estado Islâmico não é uma coisa nem outra. A liderança do IS encontra-se imbuída de uma crença messiânica de que tem de restaurar o Califado Abássida e levar até às últimas consequências as profecias do triunfo global do Islão sobre o Infiel.

Como tal, não procuram alianças, entendimentos, ou cooperação. O objectivo é destruir quem se oponha aos seus desideratos, mesmo que tal acarrete uma proliferação de inimigos e que conduza à sua destruição e ao martírio dos seus membros. Tratados de paz, cedências, acordos não são opção. É uma luta sem quartel, de vida ou de morte.

Será fanático e imprudente, mas tal é o Estado Islâmico e é com isso que temos de contar Luta sem tréguas até ao fim. Em Dabiq ou noutro sítio qualquer…