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29 março, 2019

Tentáculos de Teerão II


TENTÁCULOS DE TEERÃO II
 
Os Tentáculos de Teerão condicionam e constrangem seriamente o Iraque.


Tendo-nos focado na estrutura logística e militar dos Tentáculos de Teerão, o propósito deste segundo post é a análise das ulteriores motivações do Irão, ou seja, os objectivos últimos que a teocracia iraniana deseja atingir com esta política de contratar, financiar, treinar, equipar e utilizar um grande número de peões, fundamentalmente milícias xiitas, um pouco por todo o Médio Oriente.

Há muitos anos que a República Islâmica do Irão persegue o estatuto de potência regional hegemónica no Médio Oriente. Herdeira directa da Pérsia e da sua civilização, com o maior território (1.650.000 km2), abundante demografia (83.000.000), enorme riqueza ao nível dos hidrocarbonetos, detentora de um aparelho estatal mais estruturado, de uma indústria mais diversificada e de níveis de educação superiores à maioria dos seus vizinhos, tudo somado a uma temível máquina bélica (até 1979), a Pérsia/Irão encara essa desejada hegemonia como algo de natural, que lhe pertence por direito próprio.

A evolução Islâmica, a instituição de um novo regime liderado pelo Ayatollah Ruhollah Khomeini e a terrível Guerra Irão-Iraque (1980-1988) enfraqueceram seriamente a capacidade militar de Teerão e a sua influência no Médio Oriente. No entardecer do século XX e no dealbar do século XXI, o regime estabilizou, o país adaptou-se à nova normalidade e o Irão buscou o seu lugar na ordem regional vigente.

Há um conjunto de situações, umas despoletadas pelo Irão e outras desencadeadas por outros actores, que se revelaram game changers. Em 2002 descobre-se que o Irão desenvolvia um programa nuclear clandestino com fins militares. Em 2003, desenrola-se a II Guerra do Golfo com a invasão e tomada do Iraque pelas potências Anglo-Saxónicas (Estados Unidos, Reino Unido e Austrália). Em 2011, as tropas americanas retiram do Iraque. Ainda em 2011, dá-se a chamada Primavera Árabe com a consequente destabilização de vários países árabes (Tunísia, Egipto, Iémen, Líbia, Bahrain e Síria). Finalmente, também em 2011, começa a Guerra da Síria. Antes, mas mais ainda durante e após este período atribulado, o Irão criou, desenvolveu, expandiu e densificou a criação e/ou apoio de milícias, maioritariamente Xiitas, para alavancar as suas ambições geopolíticas.

O Irão tem como prioridade garantir um grau de controlo sob três países em particular: Iraque, Síria e Líbano.

E os seus grandes objectivos geopolíticos, para além da óbvia defesa do seu povo e território, são:
* Garantir uma forte influência e um grau de controle sobre o Iraque, a Síria e o Líbano, de modo a garantir um acesso sem obstáculos ao Mediterrâneo e aos seus principais aliados/peões.

* Na quase impossibilidade de o aniquilar, pelo menos ameaçar, acossar e conter Israel.

* Enfraquecer e desestabilizar a Arábia Saudita de modo a garantir a primazia no Golfo Pérsico e na Península Arábica; diminuir o mais possível a presença norte-americana no Médio Oriente.

* Garantir um papel e estatuto hegemónico, ou pelo menos de hegemonia partilhada.

IRAQUE
A presença iraniana no Iraque é fundamental. Desde logo porque se trata da maior fronteira (1600 km) que o Irão tem e, portanto, a situação no Iraque tem um impacto imediato na segurança do Irão. Depois, o facto de o Iraque ser o único grande estado árabe de maioria Xiita proporciona uma proximidade que é difícil de obter com outros países. Finalmente, o Iraque é fundamental para o Irão ter acesso às outras duas peças do arco de influência iraniano: a Síria e o Líbano.

O colapso do regime de Saddam Hussein em 2003 deu lugar à remoção da minoria Sunita do poder e à sua substituição pela maioria Xiita que facilitou e induziu a penetração dos agentes iranianos e de políticos iraquianos alinhados com Teerão nas estruturas de poder político e securitário de Bagdad.

A retirada das tropas americanas em 2011 conferiu mais espaço aos Iranianos, cuja influência foi ainda mais potenciada pela deriva sectária do Primeiro Ministro Nouri al Maliki. A vaga conquistadora do Estado Islâmico (IS) em 2014 e o descalabro do Exército do Iraque (ver “Buraco Negro da 2ª Divisão” em http://tempos-interessantes.blogspot.com/2014/06/buraco-negro-da-2-divisao.html ) deram um pretexto credível para um envolvimento acrescido dos Guardas da Revolução (IRGC) com as milícias xiitas às quais aderiram milhares de Iraquianos. Apesar dos protestos em contrário, estas milícias, agrupadas sob a designação Hashd ash-Shaabi (Popular Mobilisation Units), são o verdadeiro braço armado do Irão no Iraque, quase um estado dentro do Estado, emulando um pouco o Hezbollah no Líbano, várias delas respondendo mais perante Qom do que a Bagdad.
Não obstante o papel crucial desempenhado pelos EUA no combate ao IS e dos esforços dos Estados do Golfo em estabelecer pontes com o Iraque, não é crível que o Irão ceda o poder e a influência que detém em Bagdad. O Iraque é tão importante para o Irão e este detém sobre aquele um poder tão consolidado, que uma mudança do statu quo é irrealista a curo/médio prazo, salvo um acontecimento revolucionário.

SÍRIA
A Síria vale para o Irão pela sua importância geopolítica, pois constitui para o Irão uma plataforma de ligação entre o Golfo Pérsico e o Mediterrâneo, ou entre a Mesopotâmia e o Levante. Através da Síria, o Irão chega ao Líbano, i.e., ao Hezbollah e, indirectamente, a Israel e ainda aos peões da Faixa de Gaza, o Hamas e a Palestinian Islamic Jihad. Pela Síria passam as principais rotas de abastecimento do Hezbollah, o movimento de tropas do IRGC, o apoio e aos e controle dos peões iranianos.

Por outro lado, a Síria é o mais antigo aliado estadual de Teerão no Médio Oriente, desde o tempo da Guerra Irão-Iraque. Além da questão do apoio logístico, o Irão tem todo o interesse em manter a aliança com Damasco: ter aliados estaduais tem mais valor, nem que seja simbólico, do que as milícias; e existe uma certa comunhão sectária, dado que a comunidade Alawita, à qual pertence o clã Assad, professa um credo próximo do Xiismo e domina politicamente a Síria desde 1970.

O valor dado por Teerão à manutenção do regime sírio está plasmado no custo pago pelo Irão em sangue, chumbo e ouro (ver “Tentáculos de Teerão I” em http://tempos-interessantes.blogspot.com/2019/03/tentaculos-de-teerao-i.html )

 
O arco de influência do Irão no Médio Oriente, os países onde os Tentáculos de Teerão são mais evidentes.

in “STRATFOR” em www.stratfor.com


LÍBANO
O Líbano é a estação terminal do arco de influência iraniana e a sede do principal aliado sub-estadual do Irão: o Hezbollah. Por isso e pelo Mediterrâneo, o acesso ao Líbano é importante para Teerão. O Líbano é um verdadeiro mosaico sectário e o Irão valoriza as comunidades xiitas e assume como sua missão apoiar e defender os Xiitas da região.

O carácter multi-sectário também faz do Líbano um tabuleiro de xadrez onde se expressam as rivalidades das potências regionais e onde os respectivos interesses colidem. Nestes jogos de poder, o que menos releva são os interesses do próprio Líbano, pois as potências externas promovem e defendem os seus interesses e os dos seus peões. Também por isso, o Irão quer estar presente.

Finalmente, o acesso ao Mediterrâneo, a proximidade a Israel e à Faixa de Gaza são bónus extra que o Irão retira da sua influência, directa e indirecta no Líbano.

Assim se explica, de forma sucinta, os pilares de apoio estadual de que goza o Irão e, principalmente, o grau de influência exercida nesses três estados e as motivações geopolíticas que sustentam as acções de Teerão.



NOTA: Num próximo post darei conta dos objectivos estratégicos e geopolíticos que o Irão visa alcançar no Médio Oriente. Para ser mais preciso, trata-se de identificar os alvos na mira de Teerão.

17 novembro, 2017

Pecado da Gula



PECADO DA GULA
(OU A VITÓRIA DA REALIDADE SOBRE O SONHO)

Os Curdos  são conhecidos por serem a maior nação sem estado do mundo. Habitando um território que pertence a 4 países (Turquia, Iraque, Síria e Irão) mais poderosos e hostis à ideia de autodeterminação curda, o mais certo é continuarem detentores daquele desagradável estatuto por muito tempo.

 
Este mapa do Médio Oriente mostra as áreas povoadas pelos Curdos.
in “STRATFOR” at www.stratfor.com

Apesar de os Curdos da Turquia constituírem o contingente mais numeroso (estimativas variam entre os 15 e os 20 milhões), foi no Iraque (4 a 5 milhões) que conseguiram alcançar um grau de verdadeira autonomia. Porém, tal resultou sempre em maior medida de contingências e decisões exógenas do que da simples vontade e iniciativa dos Curdos do Iraque.

As raízes da autonomia dos Curdos iraquianos remonta às brutais campanhas de repressão levadas a cabo por Saddam Hussein, das quais se destaca o ataque químico a Halabja em 1988. Quando Washington e os seus aliados derrotaram o Iraque na Guerra do Golfo (1990/91), os Estados Unidos, o Reino Unido e a França impuseram uma no-fly zone no norte do Iraque, efectivamente barrando o acesso da Força Aérea Iraquiana ao Curdistão Iraquiano, colocando os seus habitantes razoavelmente a salvo da repressão. Na década seguinte, na Guerra do Iraque, os EUA, o Reino Unido e a Austrália derrotaram e derrubaram o regime Baath de Saddam Hussein. Este novo desenvolvimento deu aos Curdos margem de manobra para assumir de forma assertiva a sua autonomia que, com apoio Anglo-Saxónico, viria a ficar plasmado na Constituição do Iraque de 2005, ganhando forma no Governo Regional Curdo (KRG na sigla inglesa).

As relações entre Irbil (capital do KRG) e Bagdad flutuam entre a cooperação com reservas, a frieza e a hostilidade. Até que, em 2014, apareceu outro game-changer: o Estado Islâmico (IS) varreu o Norte e o oeste do Iraque, pondo o exército iraquiano em debandada e os Peshmerga curdos (milícia curda) em dificuldades. Estes, contudo, recompuseram-se e recuperaram alguns territórios, nomeadamente a cidade e a província de Kirkuk. Ora, parte desses territórios, como Kirkuk, não pertencia ao KRG nos termos da constituição de 2005, mas foram por eles dominados e explorados (i.e., petróleo) durante os últimos 3 anos. Neste período, o KRG desligou-se o quanto pôde de Bagdad e recorreu à Turquia para apoio, mormente para escoar o seu petróleo para o exterior à revelia do governo central. O KRG também beneficiou do facto de Iraque, Irão, Turquia e EUA precisarem do seu apoio no combate ao IS.

 
Neste mapa de Setembro deste ano, pode ver-se a laranja o território do KRG e a amarelo o território tomado pelo KRG desde 2014.
in “STRATFOR” at www.stratfor.com


Conclui-se, pois, que os Curdos do Iraque foram aproveitando janelas de oportunidade abertas por 3 guerras (1991, 2003 e 2014) e pelos interesses conjunturais das potências endógenas e exógenas no Médio Oriente. Chegados ao final de 2017, essas guerras terminaram, ou estão, aparentemente, nos seus estertores finais e, passadas as guerras, restam os interesses.

O interesse dos Curdos era avançar da autonomia para a independência e o mais cedo possível enquanto as hostilidades ainda não cessaram e os EUA ainda estão presentes e envolvidos no terreno. Daí o referendo sobre a independência convocado por Massoud Barzani (Presidente do KRG) para o passado dia 25 de Setembro, no qual o "Sim" à independência obteve 92% dos votos.

Porém, Barzani rapidamente descobriria que a janela já não estava aberta, se é que alguma vez esteve. Era uma janela falsa que ocultava uma sólida parede. Tal já era óbvio antes do próprio referendo com a oposição à realização do mesmo a afluir de todo o lado: Bagdad, Teerão, Ancara, Damasco, Londres, Washington, Riyadh etc. Esta oposição tinha um cariz hostil e ameaçador por parte dos países directamente envolvidos. Assim, após o referendo, a Turquia e o Irão fecharam as fronteiras com o Curdistão, cortaram os laços comerciais e proferiram ameaças explícitas de intervenção militar; os países do Golfo Pérsico cancelaram as ligações aéreas com o KRG.

O coup de grâce foi desferido pelo próprio Iraque cujo exército, com o apoio das Hashd al-Shaabi (designação oficial de várias milícias xiitas), recuperaram pela força e pela pressão todos os territórios ocupados pelos Peshmerga em 2014/15. Subitamente, o Curdistão Iraquiano descobre que viveu numa ilusão e que, na hora da verdade não tem aliados permanentes; apenas inimigos e alguns amigos, daqueles que só dão conselhos.

Isto não é novidade, é assim desde a I Guerra Mundial quando a perspectiva de autonomia seguida de independência para os Curdos em 1920 (Tratado de Sèvres), desaguou na partilha do território entre a Turquia, Pérsia e os Mandatos Britânico (Iraque) e Francês (Síria) em 1923 (Tratado de Lausanne). Ontem como hoje, a miragem da independência esfumou-se na realidade da geopolítica, do poder e dos interesses nacionais.

O que é surpreendente é como um político experiente como Massoud Barzani pôde acreditar que a Turquia, o inimigo nº 1 dos Curdos podia evoluir de um regime de cooperação com o KRG que a beneficiava e enfraquecia o Iraque, para um apoio à independência que sempre foi anátema para os Turcos.
Eu arriscaria dizer que incorreu no pecado da gula: pensou que tinha créditos que lhe davam uma hipótese de alcançar a independência e entrar na História como o líder que levou os Curdos à liberdade e à independência. A verdade é que não os tinha, os credores são os outros que detêm o poder real e Barzani demitiu-se, a caminho de uma nota de rodapé.