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07 março, 2020

Delírios Erdogânicos


DELÍRIOS ERDOGÂNICOS

A 17 de Abril de 2017, publiquei um post em Tempos Interessantes intitulado “Soltar as Amarras” (http://tempos-interessantes.blogspot.com/2017/04/soltar-as-amarras-da-turquia.html ) abordando a saída da Turquia da NATO. As razões eram óbvias e são-no cada vez mais: Erdogan apropriou-se do país conduzindo-o numa estratégia de confronto com os Estados Unidos e uma grande parte dos países europeus, nomeadamente a Alemanha, a Holanda, a França, a Grécia e a Bulgária, chegando ao cúmulo do insulto e do enxovalho.
Agora, após múltiplas ameaças, Erdogan abriu as comportas dos migrantes e refugiados acantonados na Turquia para inundar a Europa, ameaçando Atenas e Sófia no processo. Isto, após receber 6 biliões de euros dos europeus para a apoio ao acolhimento de 3.6 milhões de pessoas, maioritariamente Sírios.
O Presidente da Turquia declara que não precisa do dinheiro europeu (agora que já o tem) para nada. Está na altura de concordarmos com ele.
Como? A sério?
Sim, muito a sério. Basta os 27 Estados-membros da EU concordarem com a cessação imediata ou a curto prazo da união alfandegária com Ankara e com o acesso facilitado aos mercados europeus.
Então, Recep Erdogan pode retirar a Turquia da NATO, reduzir drasticamente os fluxos comerciais com os países europeus e ser feliz para sempre a perseguir Curdos, a fazer incursões/invasões no Iraque e na Síria e a ameaçar a Grécia, Chipre, Egipto e Israel porque o Mediterrâneo Oriental é turco, perdão, Otomano.
Já a Comissão Europeia, em vez de introduzir uma versão aprofundada da união alfandegária, poderá, com mais facilidade, atirar a actual para o cesto de papéis.
Contudo, o mais provável é que a maioria dos leaders europeus se vá contorcer, retorcer, ceder e dobrar a cerviz para acomodar, ainda e sempre, os delírios e desmandos erdogânicos.

P.S. Note-se que, em 2018, o valor das trocas comerciais entre a Turquia e o agregado de 28 países europeus ascendeu a 153 biliões de euros e estes países são, no seu conjunto, o maior exportador e importador da Turquia.

17 setembro, 2014

Sykes-Picot


SYKES-PICOT


Sir Mark Sykes (1879-1919) era um Coronel do Exército Britânico adstrito ao War Cabinet. François Georges-Picot (1870-1951) era um diplomata francês.

Pelo papel que desempenharam nas negociações entre a Grã-Bretanha e a França durante a I Guerra Mundial, o acordo secreto Assinado por Londres e Paris em 16 de Maio de 1916, entrou na História com os seus nomes: the Sykes-Picot Agreement.

O mapa original, datado de 1916, do Acordo Sykes-Picot.


O Acordo Sykes-Picot desenhou, directa ou indirectamente, o mapa  de boa parte do Médio Oriente após uma eventual derrota do Império Otomano na Grande Guerra, abrangendo os territórios do Iraque, Jordânia, Israel, Palestina, Síria e Líbano (usando as terminologias actuais), que foram repartidos pelos dois impérios europeus.

Em linhas gerais, Israel, Palestina, Jordânia e Iraque ficaram sob a alçada do Reino Unido; Síria, Líbano e Norte do Iraque entregues à França. A divisão administrativa dos territórios ficou a cargo de cada um.


Como sucedeu noutras áreas do globo, as partilhas dos despojos otomanos foi feita à medida dos interesses britânicos e franceses. Assim, por exemplo, a França impôs um país para os Cristãos que viviam no Levante; assim nasceu o Líbano, realidade previamente inexistente, a expensas da Síria.  Do mesmo modo, a Jordânia (inicialmente Trans-Jordânia – território para além do rio Jordão) foi criada do nada para satisfazer as promessas que Londres fez durante a Guerra aos Hashemitas.


As áreas de influência do Acordo Sykes-Picot sobrepostas a um mapa actual. O vermelho corresponde à Grã-Bretanha, o azul à França e o verde à Rússia.

A Guerra Civil da Síria desde 2011 e a fulminante ascensão do ISIL/Estado Islâmico desde o fim de 2013, tiveram estas consequências:


1- Destruiram a Síria enquanto país unitário, sólido e solidário.

2- Abalaram o Iraque até às suas (frágeis) fundações, levantando questões sobre a sua viabilidade.

3- Arrasaram a fronteira entre a Síria e o Iraque, colocando um grande ponto de interrogação sobre a viabilidade contemporânea de Sykes-Picot.


Reino Unido e França determinaram Estados onde nada existia. Ou melhor, existiam clãs e tribos que ainda existem. Como o Iraque, a Síria, o Líbano, a Jordânia e a Palestina não existiam, as pessoas não criaram uma nova identidade da noite para o dia. Tornaram-se Iraquianos, Jordanos, Sírios e Libaneses porque foram realidades que lhes foram apresentadas como factos consumados, mas o seu sentimento de pertença continuou no grupo e não na inexistente nação.


Essa é uma das razões pelas quais as fronteiras do Médio Oriente são volúveis: frequentemente a identidade tribal sobrepõe-se à nacionalidade. E se o grupo se sente maltratado, discriminado, oprimido pelo poder central (como acontece com os Sunitas no Iraque, com os Al-Houthi no Iémen, com os Curdos em todo o lado e com todos no Líbano), ou se pressente uma oportunidade de melhorar o seu status ou aumentar o seu poder, atropelam as fronteiras sem remorso.


Além disso, existe em sectores mais radicais um forte ressentimento contra Sykes-Picot. Um exemplo disso mesmo é Aiman Al-Zawahiri, na altura nº 2 da Al-Qaeda e actual líder:


Not only was Palestine given to the Zionist enemy, but the rest of the Arab world was carved up between the British and French empires under the terms of the Sykes-Picot Agreement, thereby weakening the ummah and facilitating the capture of Jerusalem and Palestine.

Aiman Al-Zawahiri, “Realities of the Conflict between Islam and Unbelief”,

cit. em Bruce Riedel, “The Search for Al Qaeda”


O Estado Islâmico, apesar de já não pertencer à Al-Qaeda, fez precisamente tábua rasa das fronteiras: ocupa território no Iraque e na Síria, usa a Turquia para trânsito de homens e equipamento e já fez incursões no Líbano. O Estado Islâmico não é simplesmente um grupo de sado-fanáticos que degola e massacra. O Estado Islâmico é o pós-Sykes-Picot, ou pelo menos é a isso que se propõe.


Provavelmente não o conseguirá, mas já provou a fragilidade do Acordo Sykes-Picot entre a Grã-Bretanha e a França. Volvido quase um século, talvez seja o tempo de reconhecer o fim da validade de Sykes-Picot, sob pena de estes ou outros Estados Islâmicos, Hezbollahs, ou PKKs continuarem a surgir e a espalhar o caos.


Sir Mark Sykes.
in “Flatrock” em


François Georges-Picot.


Poderá isto ser o pós-Sykes-Picot Médio Oriente?
in “STRATFOR” em www.stratfor.com


NOTA: ESTE É O POST 500 DE TEMPOS INTERESSANTES!!!!




06 agosto, 2014

A Grande Guerra - Os Efeitos


A GRANDE GUERRA
OS EFEITOS



A Grande Guerra marca o princípio do fim da hegemonia europeia, longa de 5 séculos. O fim, esse chegaria ¼ de século mais tarde, após a II Guerra Mundial ter arrasado o continente, exaurido as suas potências e determinado o fim dos seus impérios coloniais. 


ANTES: a Europa em 1913.

O fim começou às 11 horas do dia 11, do mês 11 do ano de 1918. Nesse dia acabou a I Guerra Mundial e começou uma paz incerta, agitada, perigosa e pouco duradoura.


Destituídos da clarividência dos negociadores de Viena em 1815, os estadistas de Paris em 1919 lançaram-se na empreitada de redesenhar o mapa da Europa Central e Oriental baseados em dois princípios: o desmantelamento de 4 Impérios que dominavam a região e a criação de novos estados baseados na auto-determinação e na nacionalidade (estados-nação). Diga-se em abono da verdade que um desses impérios, o Russo, já tinha sido espatifado pela Alemanha e outro, o Otomano, se encontrava numa longa e lenta agonia.


Aquele manteve-se ocupado por uns anos com uma guerra fraticida e reencarnaria numa nova forma (URSS), mais sólida e coesa e notoriamente mais perigosa. Já este, sofreu o seu golpe de misericórdia na Guerra e a teve a certidão de óbito lavrada no Tratado de Sèvres.


Restavam os Impérios Germânicos: a Alemanha e a Áustria.


Multinacional por excelência (Austríacos, Húngaros, Checos, Eslovacos, Polacos, Croatas, Sérvios, Eslovenos, Bósnios, Ucranianos e Romenos compunham o mosaico de nacionalidades), o Império Austro-Húngaro despendeu o último quartel do século XIX e os primeiros anos do século XX contra a sua aparente obsolescência e contra o destino Otomano. Para tal, tentou travar o declínio otomano, tentou travar o avanço russo no Sudeste Europeu, tentou travar a ascensão de novos Estados-Nação como a Sérvia e a Bulgária, tudo para tentar travar a explosão nacionalista no seu seio. Quando despoletou a Guerra, o Império já tem os discos dos travões gastos e, sem ABS, estampou-se literalmente. A sua prestação militar, entre o mediano e o medíocre, foi insuficiente para ajudar a Alemanha a vencer a Grande Guerra, condição sine qua non para a sobrevivência do vetusto Império Habsburgo. A derrota significou o seu fim. Os seus vastos domínios foram distribuídos por 7 países novos, renascidos, ou recauchutados.


O resultado não foi famoso: a instabilidade, os nacionalismos radicais e mesmo os ódios, não desapareceram, bem pelo contrário. A II Guerra Mundial seria palco de muita violência e atrocidades perpetradas por outros além dos Alemães: Croatas, Sérvios, Húngaros, Ucranianos, aproveitaram o gigantesco conflito para promover os seus interesses e acertar as suas contas. Se nos anos 30 e 40 foi a guerra que deu aso a estes conflitos, meio século mais tarde foi o fim de outra (Guerra Fria) que proporcionou a oportunidade para o regresso dos velhos demónios, principalmente mas não apenas, na Jugoslávia.


E o mapa da Europa Central e Oriental mudou novamente. Não é, pois, demasiado surpreendente que esteja a mudar outra vez, no século XXI.


A Alemanha manteve-se após a I Guerra Mundial, mas sofreu um downgrade de Império (II Reich) para República (de Weimar), pagou em territórios, em continuidade geográfica e em dinheiro, sofreu limitações à sua soberania e levou o carimbo de “Guilty” atribuído pelas potências vencedoras.


Por solucionar, mais uma vez, ficou o acomodar do gigante germânico no centro da Europa, proporcionando-lhe conforto sem provocar o desassossego da vizinhança. Descontente, fustigada por reveses diversos (políticos e económicos), eis que a Alemanha estrebucha, esperneia, sofre uma metamorfose, torna-se no III Reich e lança-se num renovado ímpeto conquistador, uma mescla de poder e eficácia militar e de hedionda bestialidade.


DEPOIS: a Europa em 1937.

Após 4 anos de combates inclementes e 20 milhões de mortos (8 milhões militares), a “Guerra para acabar com as guerras” previsivelmente não atinge esse utópico desiderato. Pior do que isso, a paz negociada em Paria, da qual brotaram 5 Tratados de Paz (Versailles com a Alemanha, Saint-Germain com a Áustria, Trianon com a Hungria, Sèvres com o Império Otomano e Neuilly com a Bulgária), não deixou a Europa mais pacífica, nem mais segura, nem sequer logrou resolver os problemas das fronteiras e das nacionalidades.


A Grande Guerra foi há 100 anos, mas muitos dos problemas, patentes ou latentes, permanecem.