02 dezembro, 2012

Pensamento Único

PENSAMENTO ÚNICO

 
Detesto o pensamento único. É claro que, teoricamente, pode haver um pensamento colectivo idêntico sobre uma matéria, resultado da reflexão e vontade individuais de cada membro desse colectivo. Contudo, normalmente, o pensamento único é imposto.

Destaco duas formas:


Uma, é a imposição pela força, pela repressão, pela brutalidade de um aparelho securitário ao serviço de um poder totalitário que, por definição, não é compaginável com diferenças de opinião. A perseguição e pressão física e psicológica, a retaliação sobre familiares, a prisão e a eliminação física são usados com parcimónia nestas situações.


A outra, é a eleição de um pensamento único pelas chamadas elites políticas, sociais e empresariais. As opiniões dessas elites são potenciadas pela opinião publicada e por mass media cúmplices ou submissos.


Esta aliança de interesses e opiniões trata de transmitir para o público a ideia de que este é o único pensamento, a única solução, o único caminho. Ou seja, que não há alternativa. Se porventura alguma surge, é rapidamente rotulada de radical, perigosa e inexequível para preservar a auréola de unanimismo e o carácter inequívoco da opção preferida.


A governação da maioria dos países europeus e a chamada construção europeia vivem debaixo desse pensamento único, oferecido às massas por essa elite esclarecida


Como o unanimismo assim criado, abrange em regra os 2 ou 3 partidos dominantes de cada sistema político, tal resulta num grave amarfanhamento democrático conseguido através da eliminação de reais alternativas.


Esta realidade está bem patente na actual conjuntura político-económica de vários países da Europa, como são os casos de Portugal e de Espanha, cujos governos esgrimem como argumento fundamental para defender o (quase) indefensável (as respectivas políticas financeiras e económicas), o slogan: é a única via possível. E desta forma tentam aniquilar o debate democrático de apresentação de políticas e troca de argumentos.


Desta postura de unanimismo e inevitabilidade, decorre um 3º elemento, que é a intolerância. O mais recente exemplo foi o discurso do Sr. Gaspar no encerramento do debate parlamentar sobre o Orçamento de Estado para 2013. Nele, acusou o Partido Socialista de ter uma franja radical e que por causa dela o PS punha em cheque o consenso europeu sobre matérias orçamentais. Ultraje! Pecado mortal! Pena capital! Aaah, então não é que há um bando de facínoras que põe em causa o consenso europeu? Inadmissível! Intolerável!


Sim, porque o dito consenso assenta também na demonização dos que recusam a cartilha de Bruxelas e o império do eixo Berlim-Paris. Esses são anti-europeus, radicais, fascistas, comunistas, ou pior ainda, podem ser Anglo-Saxónicos! Que horror!


Concomitantemente, o Sr. Gaspar, guarda-livros da República, chocou-se porque ele próprio medrou nesse consenso pouco democrático, gravitando entre Bruxelas e Frankfurt. Crescendo, vivendo e dependendo dele, não surpreende que lhe cause repulsa uma percebida afronta ao pensamento único do dito consenso europeu e das suas políticas desalmadas.


Ironicamente, a ameaça que agitou este burocrata não passa de um moinho de vento, porque o PS não é radical, nem constitui uma ameaça para ninguém. Não para o Governo do Sr. Gaspar e muito menos para um suposto pensamento único europeu.


Vítor Gaspar: um guarda-livros aterrado.

 

4 comentários:

freitas pereira disse...

Fui ver. a neve caía
Do azul cinzento do céu,
Branca e leve, branca e fria...
. há quanto tempo a não via!
E que saudades, deus meu!

Um pouco da Balada da Neve, para explicar porque fugindo ao mau tempo, venho comentar, como de costume, um "post' interessante, do Dr. Miguel Ribeiro. Lá fora, ela cai, realmente ...

Ah, a Europa! Esta Europa sem regras imposta pelos comissários europeus invisíveis. Esta Europa onde o social é uma palavra que mete medo. Esta Europa onde os políticos lacaios teimam em nivelar tudo a partir de baixo.

Tem razão quando evoca o terrorismo intelectual da ditadura do pensamento único. Que os adeptos do pensamento único continuem a insultar aqueles que não pensam como eles e arriscam-se a provocar uma cólera que eles não conseguirão dominar. Porque muitos são já aqueles que constataram que o cidadão não tem direito à palavra senão o de seguir as instruções das elites que não propõem nenhum debate politico real. O objectivo desta ditadura sendo o de reduzir cada individuo ao papel de simples consumidor num mundo ultraliberal , no qual os novos detentores do poder são as elites "bien pensantes" ao serviço das mega-emprezas capitalistas.

Claro que com a globalização das economias aparece hoje, como consequência, a globalização das culturas e das sociedades. Assim nasceu o pensamento único. Imposto pelos "bien pensants" , ele procura contornar os debates para impor um modelo único a todos. E como muito bem diz, toda e qualquer contestação aparece logo suspeita e o debate é desviado. Assim vemos aparecer um modelo de sociedade única perigoso para as democracias.

Mas desde a partida, que a ideia fundadora era de evitar a participação popular à construção europeia. O espírito europeu acabou por ser o "europeísmo" que na verdade é uma ideologia contra as nações.
Para o "europeísta", o verdadeiro coração cívico não é a nação, é a Europa. Querem fazer uma "Super-naçao", não concedendo aos velhos estados que as migalhas do "principio de subsidiariedade"! Eles desconfiam dos povos.

O parlamento europeu de Estrasburgo, mesmo sendo eleito pelo sufrágio universal, toda a gente sabe que é um parlamento de opereta, que fica caro aos contribuintes, uma sinecura para os derrotados do verdadeiro sufrágio universal, o nacional.

A dinâmica europeia é finalmente perversa quando não tendo sido capaz de unir as nações num sistema de deliberação e de acção, prefere rebaixa-las e mesmo dissolve-las. Pois, dissolver as nações para construir a Europa, eis o sonho e o plano europeísta.

Este plano recebeu o apoio dos lacaios, que baixam a cabeça, cada vez que os mandões de Bruxelas, Berlim ou Estrasburgo levantam a voz, esquecendo os direitos , e fechando os olhos e os ouvidos aos gritos de sofrimento dos povos. Os planos de carreira ulterior exige-o. E eles serão agradecidos ao mais alto nível.

Alguém disse, não me recordo quem, que, no fundo, o pensamento único é ao pensamento, o que a clonagem é à genética : uma forma de epidemia. Corremos o risco de viver um dia numa sociedade de clones!

PS) Desculpe, uma vez mais, o texto um pouco longo.

Freitas Pereira

CláudiaR disse...

Gosto da expressão 'guarda livros'!
Fez-me lembrar uma outra do Prof. Adriano Moreira, há anos, na AR,salvo erro, tratando o Sr. Delors de 'amanuense'.
O mundo de 'mangas de alpaca' é de facto cinzento...
Concordo que discordar é preciso... mas sem esquizofrenias, senão....
:)
Cláudia

Rui Miguel Ribeiro disse...

Caro Sr. Freitas Pereira,

Muito obrigado. Mais uma vez escreveu um post. Magnífico. Pensamento único, imposição do "europeísmo", aniquilação dos estados-nação, submissão a Patis-Bruxelas-Berlim e fantasia de democracia em Strasbourg.
Belo retrato de uma terrível realidade.

Rui Miguel Ribeiro disse...

Cláudia,

O "guarda-livros" foi um momento de inspiração ;-) . Tks.

Esquizofrenias não, mas o totalitarismo crescente leva à revolta (espero eu).