17 maio, 2008

Shalom Israel

SHALOM ISRAEL

60 anos de independência, liberdade e democracia no mais hostil ambiente internacional do mundo, é uma proeza assinalável, demonstrativa da coragem, perseverança e capacidade de sobrevivência dos Israelitas.

Triunfante em várias guerras desde 1948, Israel enfrenta o duplo desafio de ganhar a paz e a segurança sem ser pela força das armas, ao mesmo tempo que enfrenta novas ameaças à sua existência, protagonizadas pelo Irão pré-nuclear e pelas organizações terroristas armadas e financiadas por Teerão e damasco (Hezbollah e Hamas).

A recente reafirmação da aliança e amizade dos EUA feita em Telavive pelo Presidente George W. Bush, poderão dar a Israel mais conforto e segurança para retomar o espinhoso caminho da paz, sem comprometer a segurança.

Shalom Israel.


15 maio, 2008

Arrivederci Maestro

ARRIVEDERCI MAESTRO

O adeus de Rui Costa no Estádio da Luz perante 55.000 adeptos. (Benfica, 3 – Vitória de Setúbal, 0)
in “Mais Futebol”
(http://www.maisfutebol.iol.pt/ )


Terminou a carreira futebolística de Rui Costa. Há dois anos, assinalei com júbilo o seu regresso ao Benfica. Agora registo com alguma tristeza a sua despedida como jogador, após uma época de altíssimo nível, em que mostrou continuar a ser o melhor nº 10 Português e que teria, caso quisesse, lugar na selecção nacional que vai disputar o Euro-2008 na Suíça e na Áustria.

De Rui Costa fica a memória das assistências, dos passes teleguiados, das fintas desconcertantes, dos golos fabulosos, da alegria e paixão a jogar à bola, do fair-play e claro, do imenso amor ao Benfica.



Duas lendas do futebol: Rui Costa e Paolo Maldini.
in “Mais Futebol”

Rui Costa marca pela Selecção Nacional.
in “Mais Futebol”
(
http://www.maisfutebol.iol.pt/ )


Rui Costa no Ac. Milan: sempre o nº 10.
in “Mais Futebol” (
http://www.maisfutebol.iol.pt/ )



O 1º golo de Rui Costa após o regresso (Benfica, 3 – Áustria Viena, 0).
Eu e o Afonso tivemos ocasião de ver este jogo in loco.
in “Mais Futebol” (
http://www.maisfutebol.iol.pt/ )
Pelo que fez e por quem é, bem haja Rui Costa! Arrivederci Maestro!

10 maio, 2008

Carta Aberta a Luís Filipe Menezes

CARTA ABERTA A
LUÍS FILIPE MENEZES

Caro Dr. Luís Filipe Menezes

Admito que esta missiva venha fora de tempo. Confesso que, para além dos afazeres profissionais e familiares, tinha alguma esperança de encontrar uma razão concreta, válida e entendível para a sua retirada. Tentei e não consegui encontrar. É pena.

Dei de barato os primeiros 3 meses da sua liderança, pela necessidade de adaptação ao cargo e pelo estranho costume português de dar tréguas ao Governo durante a Presidência comunitária.

Mais recentemente, parecia que queria finalmente ignorar a crítica interna capciosa, encapotada, mal-intencionada ou interesseira e dar corpo às expectativas que trouxe consigo em Setembro passado.

Em vez disso demitiu-se. Bateu com a porta e foi-se embora. Poucos dias depois, deu uma entrevista à SIC Notícias em que esteve ao nível a que me habituara antes de ser eleito. Pensei “Ele assim não pode renunciar.” Mesmo assim, foi-se embora.

Apoiei a sua candidatura à presidência do Partido Social Democrata e votei em si. Achei (e acho) que era a lufada de ar fresco de que o PSD precisava: novas ideias, novas pessoas, novos comportamentos, novo estilo.

Não fui um apoiante de ocasião: ouvi-o e li-o inúmeras vezes, até tive oportunidade de o convidar para proferir uma palestra na Universidade Fernando Pessoa. Não concordei com tudo, mas subscrevi a maior parte. Convenceu-me.

Francamente, não tinha o direito de ir embora. 21.000 militantes votaram em si. Muitos empenharam-se na sua candidatura. Mais grave, deu esperança a muita gente. A sua demissão traiu essa esperança legítima.

Posso estar a ser injusto, mas a escassez de explicações não deixa margem para outros juízos. Não é ingénuo, nem chegou à política ontem: sabia que ia sofrer ataques dos velhos inimigos e daqueles cujo modo de vida a sua liderança ameaçava; também estava ciente de que a imprensa enfeudada a preconceitos sobre o perfil de liderança para o PSD, não lhe daria tréguas.

O seu projecto prometia um novo rumo para o PSD. A sua demissão ameaça fazer regressar o PSD ao pantanal do Centrão & interesses associados.

Foi uma oportunidade perdida e um tempo perdido. Foi pena. O PSD e os seus militantes mereciam mais.

Com os melhores cumprimentos.

                                     Rui Miguel Ribeiro

05 maio, 2008

A Cavalgada Atómica do Irão

A CAVALGADA ATÓMICA DO IRÃO
(http://nytimes.com/ )

A publicação da parte não confidencial do National Intelligence Estimate (NIE) do conjunto dos serviços secretos e de inteligência dos EUA sobre o programa nuclear do Irão, constituiu uma autêntica bomba (figurativa) em toda a envolvente internacional de contenção nuclear de Teerão.

Desde logo, o esforço de contenção do Irão ficava prejudicado, apesar de no mês passado o Conselho de Segurança da ONU ter aprovado a 3ª Resolução de sanções ao Irão. Depois, o leque de opções disponível ficou automaticamente reduzido. E a coesão e empenho internacionais em travar a cavalgada atómica de Teerão ficou em cheque. Finalmente, os radicais que governam o Irão sentiram-se (ainda) mais encorajados a prosseguir o seu projecto.

Se em Dezembro de 2007 o NIE me pareceu algo de inusitado e contrário a todas os policy statements de Washington (e também de Londres e de Paris), em Abril de 2008 é claro que a sua publicação, nos termos em que foi feita, foi um erro crasso.

Desde logo, porque veiculou uma ideia que não corresponde à realidade: que o Irão se afastou do projecto nuclear militar e que terá desistido dele. Na verdade, NADA no comportamento do Irão nos últimos dois anos indicia uma atitude positiva: o Irão prossegue com o seu programa de desenvolvimento da capacidade de produzir urânio enriquecido; o Irão continua a não desvendar por completo as suas actividades nucleares clandestinas e em violação do NPT; o Irão continua a desenvolver a ritmo acelerado o seu programa de mísseis balísticos de médio e longo alcance com capacidade para transportar ogivas nucleares.

O que o NIE declarou foi que o Irão tinha suspendido ou terminado os trabalhos de design-concepção de uma arma nuclear. O que o público entendeu foi que o Irão tinha cancelado a vertente militar do seu programa nuclear em 2003.

O que realmente se passa é que o Irão prossegue de forma intensiva os trabalhos nas duas componentes mais complicadas no trilho para alcançar uma arma nuclear: o enriquecimento de urânio e o desenvolvimento de um vector capaz de fazer chegar a bomba ao destino (um míssil balístico).

A determinação de Teerão em prosseguir na sua cavalgada atómica, ridiculariza as incipientes sanções que por três vezes o Conselho de Segurança adoptou contra o Irão. Este há muito percebeu a cadência burocrática destas sanções, aprovadas sem convicção e de forma quase timorata e, portanto, sem provocar dor suficiente para terem, sequer, uma remota possibilidade de terem êxito.

A liderança iraniana só teme e compreende a linguagem da força. Não só a força das armas, mas a força das palavras convictas e determinadas e dos actos que provocam danos efectivos. O NIE, por um lado, e o medo e/ou a cumplicidade de algumas potências, por outro, oferecem uma via aberta para o Irão poder tornar-se a 10ª potência nuclear antes de 2015, talvez até em 2010/11. Então será, é claro, tarde de mais…


O Presidente Ahmadinejad visita a central de enriquecimento de Natanz.
in “The New York Times”, 29th April 2008

12 abril, 2008

NATO: Do Adriático ao Mar Negro

NATO: DO ADRIÁTICO 
AO MAR NEGRO


Fechada a cortina sobre mais um Conselho do Atlântico, desta vez realizado em Bucareste e com decisões (e omissões) de grande impacto, impõe-se uma breve análise sobre o alargamento, o não alargamento, o escudo anti-míssil e a ISAF no Afeganistão.

O alargamento à Croácia (esperado e tardio) e à Albânia veio consolidar o flanco sudeste da Aliança e reduzir o campo de instabilidade tradicional daquela região. Do ponto de vista estratégico, alarga a presença da Aliança Atlântica a praticamente toda a costa do Adriático e permite um mais completo controlo das rotas marítimas.

Mais atenção e impacto teve o não alargamento, especialmente à Ucrânia e Geórgia. Considerando que os Estados Bálticos constituem, por razões históricas, geográficas e políticas, uma excepção, este seria o primeiro alargamento ao território da antiga União Soviética.

Tendo em conta que, a Ucrânia era a segunda mais importante República da URSS, tem fortes laços históricos, culturais e até emocionais com a Rússia e que os dois países partilham uma extensa fronteira, abrir o caminho à adesão de Kiev à NATO seria uma humilhação política e um desaire estratégico para Moscovo. Por outro lado, a Geórgia é país da ex-URSS com o pior relacionamento com a Rússia.

O drive dos Estados Unidos para iniciar o caminho da adesão destes dois países foi precipitado e insensato, configurando uma provocação à Rússia e um factor de desnecessária polémica e divisão entre os Aliados.

Na verdade, o que é que a NATO teria a ganhar com a inclusão da Ucrânia e da Geórgia?
a) Irritar e indispor a Rússia (há áreas em que será mais importante fazê-lo);
b) Integrar dois países politicamente instáveis, sendo que na Ucrânia nem sequer há apoio popular maioritário à adesão;
c) Estender a presença da NATO ao Cáucaso, que é uma área de grande instabilidade, quando a capacidade de intervenção útil da NATO já está limitada pelos conflitos no Afeganistão (directamente) e Iraque (indirectamente);
d) Acolher um país (Geórgia) onde há bases e tropas russas e duas regiões que escapam ao controlo político e militar de Tblissi;
e) Portanto, pouco a ganhar e muito a perder.

A adopção do projecto de escudo anti-míssil dos EUA pela NATO foi a melhor e mais importante decisão saída de Bucareste. A NATO reconheceu a evidência de que os mísseis balísticos de médio e longo alcance constituem uma das maiores ameaças presentes e futuras à segurança do Ocidente. Trata-se do Irão, mas não só. A proliferação de mísseis balísticos é um fenómeno menos conhecido, mas muito mais disseminado do que a proliferação nuclear.

Dentro de 10 anos, serão certamente bastantes os países com capacidade para atingir a Europa com este tipo de vectores. Instalar um sistema que, a exemplo do guarda-chuva nuclear americano, proteja todos os membros da NATO será um precioso asset estratégico. Colocar a Rússia perante um facto consumado que já não se restringe aos EUA, Polónia e Rep. Checa, mas a 28 Estados, obrigará Moscovo a participar do sistema ou a ficar a falar sozinha.

Finalmente, o reforço da força da NATO no Afeganistão. Há muito que o comando da ISAF no Afeganistão clama por mais tropas, por menos restrições ao seu uso e por mais equipamento, nomeadamente helicópteros. Desta vez vão ter os reforços. Não os necessários, mas os suficientes para dar um sinal positivo aos Afegãos e aos países que têm dado o corpo ao manifesto. Estados Unidos, Reino Unido, França, Polónia e Roménia são os países que reforçam os respectivos contingentes. Especial destaque merece a inversão da postura francesa relativamente ao decisivo conflito afegão e, também, ao seu provável regresso à estrutura militar da Aliança Atlântica. Nota negativa para a contínua recusa da Alemanha em mudar de forma positiva o seu envolvimento no Afeganistão e, em menor escala, para Portugal, cujo principal contingente vai abandonar o Afeganistão no Verão (apenas parcialmente compensado com o envio de um C-130).

No cômputo geral foi um Conselho Atlântico com um saldo francamente positivo: as propostas mais importantes tiveram acolhimento e a mais negativa ficou para as calendas gregas. A NATO ancorou no Adriático e retraiu-se no Mar Negro; aderiu ao escudo anti-míssil e empunhou a espada com mais força no Afeganistão.

25 março, 2008

Fisco Fascizante

FISCO FASCIZANTE

Já aqui escrevi sobre o furor controlador e anti-liberal do actual governo. Confesso que subestimei a deriva totalitária que se vai insinuando em Portugal.

Ao director distrital das finanças de Viseu, foi cometido o objectivo de angariar 24 milhões de euros em impostos em dívida durante 2008. Talvez com o fito de ganhar o prémio de apparatchik do ano, o Sr. Santos (o dito director) propôs-se atingir os 30 milhões de euros. Para tal, decidiu lançar-se numa intolerável invasão da vida privada dos jovens noivos de Viseu, indagando ao pormenor sobre os detalhes financeiros dos respectivos casamentos e ameaçando os noivos com pesadas multas caso não satisfaçam a sua coscuvilhice fiscal.

1- O Sr. Santos tem o dever de cobrar as dívidas fiscais.
2- O Sr. Santos (nem ninguém) não tem o direito de arregimentar os cidadãos para fazer o trabalho que a ele e aos seus subordinados comete.
3- O Sr. Santos e quem lhe dá cobertura, deviam ser processados por devassa da vida privada dos cidadãos e ameaças injustificadas.

Eu tenho todo o interesse em que o valor dos impostos cobrados se aproxime o mais possível dos 100%, embora não tenha ilusões que disso resulte qualquer alívio na minha carga fiscal.

Todavia, rejeito liminarmente que o fisco tenha uma actuação de tipo fascizante, actuando como um bully perante cidadãos desprotegidos, espiando, bisbilhotando, incitando à denúncia e reduzindo aqueles que era suposto servir (os cidadãos), ao papel de vítimas acossadas e amedrontadas.

É tempo de os Portugueses despertarem para a gradual erosão de liberdades e direitos que vão sofrendo. Como é habitual nestes casos, se esperam que a desgraça bata à porta, poderá ser tarde de mais.

22 março, 2008

O Vespeiro Balcânico


VESPEIRO BALCÂNICO


A manta de retalhos da ex-Jugoslávia.
in “The Economist” em www.economist.com


A declaração unilateral de independência do Kosovo por um dos antigos líderes do grupo terrorista UCK e o subsequente reconhecimento por parte de vários países ocidentais, incluindo as principais potências (Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, França e Itália, constituiu mais um acto da feroz discriminação anti-sérvia que tem dominado a política ocidental nos Balcãs desde a Guerra do Kosovo de 1999.

Confesso que tenho dificuldade em compreender as razões que subjazem a este comportamento. Interesses económicos? Não existem. Razões estratégicas? Não as consigo discernir, especialmente quando a NATO já está implantada na região (Hungria, Roménia, Bulgária, Grécia), não faltando aliados, bases e pontos de apoio no Sudeste da Europa. Afrontamento à Rússia? Parece-me muito trabalho para alcançar tão pouco quando há acções e políticas que conseguem irritar Moscovo muito mais. Cegueira? Talvez. O certo é que a Sérvia expansionista, belicosa e perigosa dos anos 90 já desapareceu há muito. O cerco e castigo, esses continuam.

O que o Ocidente acaba de criar nos Balcãs é mais um estado artificial, inviável, tal como a Bósnia-Herzegovina (BiH), e ainda por cima, ilegal (vide Resolução do Conselho de Segurança da ONU nº 1244/99).

Atropelou-se o princípio de que as fronteiras das Repúblicas da antiga Jugoslávia eram invioláveis e que justificou (?) a manutenção do quadro multi-étnico da BiH (40% Bosníaca-Muçulmana, 31% Sérvia e 17% Croata). O argumento de que não se podia recompensar os actos de limpeza étnica caiu por terra num Kosovo claramente albanizado após 1999.

Sendo que uma reversão da independência se apresenta como uma utopia e não sendo de esperar que Belgrado e Moscovo tomem as posições de força que a situação justificava, qual é o quadro que temos diante de nós e que caminho deve ser seguido, sendo líquido que qualquer opção gerará sempre mais descontentes do que apoiantes?

Em primeiro lugar, temos uma Caixa de Pandora autonómica aberta que dará lugar (assim queiram interessados poderosos) a várias outras independências nos Balcãs, Cáucaso e, eventualmente noutras insuspeitas regiões (África?). À cabeça desta lista encontram-se a República Srspka na BiH, a Ossétia do Sul e a Abkázia na Geórgia e a Transdniestria na Moldova. Eu até diria que é um pouco surpreendente que a primeira não tenha já enveredado pelo mesmo caminho do Kosovo. Seria, do ponto de vista da Sérvia, uma das melhores formas de atrapalhar os planos das principais potências ocidentais na região.

Em segundo lugar, assistimos ao alastramento do anacronismo dos protectorados no Sudeste da Europa, com a agravante de estes (BiH e Kosovo) serem tendencialmente permanentes, dado que não se perspectiva que qualquer destes estados venha a ter viabilidade económica para subsistir, que a sua capacidade para garantir a coesão e segurança interna é muito duvidosa e que o seu histórico nacional é inexistente.

Com os fluxos e refluxos das Relações Internacionais e da política interna dos estados, nada garante que dentro de poucos anos a disponibilidade política, militar e financeira dos protectores desvaneça perante outros desafios, interesses ou ameaças. E então? Quem fica com a batata quente? Os locais que, a julgar pela História recente e mais remota, tenderão a fazer os seus ajustes de contas da forma tradicional. Aí teremos os Balcãs a ferro e fogo, as potências alarmadas, coagidas a acorrer a apagar os fogos e recomeçamos o mesmo ciclo mais uma vez.

O caminho a seguir é estreito, mas o mais lógico e justo seria assumir a incompatibilidade da coexistência de certas etnias/religiões no mesmo estado e enveredar pela divisão da Bósnia-Herzegovina e do Kosovo. Naquele caso, poderia ser através da criação de dois ou três estados (todos eles fracos e dependentes) ou a incorporação da zona sérvia (e eventualmente da zona croata) na Sérvia (e na Croácia). No último caso, a solução óbvia é fazer o detachment do norte do Kosovo, incluindo Mitrovica a norte do Ibar na Sérvia.

Sei que, no caso da Bósnia-Herzegovina, tal se apresentaria como sendo muito difícil tendo em conta os antecedentes da Guerra de 1992/95, mas tem de se reflectir sobre 13 anos de paz em que não foi possível obter uma verdadeira reconciliação e integração das comunidades bosníaca e sérvia. No caso do Kosovo, seria a forma mais fácil de esvaziar a tensão existente, de reduzir a sensação de injustiça e de dualidade de critérios e de trazer paz à região, salvando a face das duas partes envolvidas.

Não tenho ilusões acerca da viabilidade destas propostas. A hipocrisia e cobardia dominantes nas chancelarias europeias não dão lugar à esperança de que haja iniciativas corajosas que rompam o statu quo pantanoso da política ocidental para os Balcãs. Até o vespeiro ganhar vida outra vez.



18 março, 2008

Os TTT da China

OS TTT DA CHINA

Bandeira do Tibete
 
Há bastantes anos atrás (demasiados anos, diria), frequentava eu o curso de Relações Internacionais na Universidade do Minho quando o embaixador da República Popular da China (RPC) foi proferir uma conferência à Universidade.

Chegados ao período de perguntas e respostas, pedi a palavra e coloquei três questões: a 1ª sobre Hong Kong e Macau, a 2ª sobre Taiwan e a 3ª sobre o Tibete. A evolução do embaixador foi do incómodo à irritação até a quase apoplexia.

A conferência terminou pouco depois e o diplomata saiu com cara de poucos amigos, quiçá lamentando não estarmos em Xangai para me ser dado o tratamento devido à minha impertinência.

Na realidade, havia tocado nos pontos fracos da RPC que subjaziam, particularmente os dois últimos, ao expansionismo agressivo de Pequim. Concomitantemente, eram os assuntos cuja abordagem mais irritação causava ao Governo Chinês (pouco tempo depois juntar-se-ia o massacre de Tiananmen à lista), que os considerava uma inaceitável ingerência nos assuntos internos da China.

Perto de vinte anos volvidos, os 3TTT – Tibete, Taiwan e Tiananmen continuam por resolver. Destes, o Tibete será, porventura, o mais dramático: invadido, ocupado e anexado em 1959, oprimido e colonizado desde então, é vítima de uma agressão gratuita e de um etnocídio implacável, resultado da submersão demográfica, cultural, política e económica do Tibete pela etnia Han, maioritária na China.

A revolta dos Tibetanos que se desenrolou nos últimos dias é um acontecimento notável pela dimensão que teve e pela coragem que implicou o desafio à autoridade de um estado totalitário.

O timing até é favorável: a realização dos Jogos Olímpicos em Pequim dentro de 5 meses, tem refreado os ímpetos mais repressivos e brutais das autoridades chinesas. Afinal de contas, é uma maçada vir lembrar ao mundo que, pela 3ª vez desde 1896, os Jogos Olímpicos vão ser organizados por uma ditadura e a companhia não é muito agradável – a Alemanha nazi em 1936 e a URSS em 1980.

Contudo, ultrapassada a crise com mais ou menos força, o estatuto do Tibete permanecerá inalterável. Enquanto o T de Tiananmen não tiver uma solução satisfatória, os restantes TT continuarão na mira de milhares de mísseis, no caso de Taiwan, e a ser lentamente asfixiados, no caso do Tibete.

10 março, 2008

Eram Mais Que Muitos

ERAM MAIS QUE MUITOS

100.000 Professores no Terreiro do Paço, Lisboa
Imagem retirada do site da FENPROF -
http://www.fenprof.pt/
100.000 Professores unidos, provenientes de todo o país, manifestando-se em Lisboa contra políticas de educação, contra a Ministra da Educação e o Governo e a favor da dignidade da classe, foi uma demonstração de força e união verdadeiramente surpreendente. Afinal, trata-se de cerca de 2/3 de todos os professores e cerca de 1% da população portuguesa que se desloca a Lisboa, num dia de folga, para fazer valer os seus direitos.

Os Professores são uma classe que tem um trabalho árduo, pouco reconhecido e de enorme responsabilidade e que é (ou devia ser) central na concepção de uma política de educação. A Ministra assumiu que preferia descartar os Professores e “ganhar para o seu lado” os pais e os alunos. Erro crasso. Eu sou pai e acho tal abordagem desprezível e errada. Os alunos são o objecto da educação e os Professores são o instrumento executor; sem uns e/ou sem os outros, nada de válido e sustentável será expectável num sector estratégico para o futuro de Portugal.

O Governo pode estrebuchar e desvalorizar, mas não há volta a dar: os Professores na Baixa de Lisboa eram mais que muitos, conscientes, determinados e colocaram em cheque a marcha da política de Lurdes Rodrigues. Para além disso, os Portugueses assistiram ao maior desafio público feito a um governo em muitos anos. Se a cegueira não reina em S. Bento, deve haver muitas luzes amarelas a acender no inner circle governativo.

100.000 Professores na Avenida da Liberdade, Lisboa
Imagem retirada do site da FENPROF - http://www.fenprof.pt/


P.S. O Comissário Político Santos Silva teve mais uma prestação miserável perante as câmaras de televisão e os microfones das rádios: o PS tem o exclusivo da luta democrática em Portugal, Chaves é um reduto de comunistas empedernidos, os manifestantes que protestam contra a Ministra da Educação por todo o país são uma grave ameaça à Democracia e às liberdades de expressão e de reunião.

Como não estamos no III Reich nem na URSS, o Comissário Político é mais ridículo do que perigoso, mas a prudência aconselha-nos a não menosprezar os tiranetes intolerantes, mesmo quando eles parecem inofensivos. O lamentável papel que foi dado à PSP é um sinal de tempos pouco interessantes.

01 março, 2008

O Irascível

O IRASCÍVEL

Recentemente, José Sócrates insurgiu-se (mais uma vez) contra um grupo de Portugueses que manifestavam a sua revolta por políticas do Governo.

Eu sei que é déjà vu e que a criatura se revolta contra os criadores, no sentido em que se pode considerar que foram os Portugueses (uma parcela significativa deles) que fizeram de José Sócrates Primeiro-Ministro.

Também é verdade que ninguém, com a possível excepção dos árbitros, gosta de ser apupado, vaiado e criticado, e muito menos sê-lo por centenas ou milhares de pessoas, na via pública e live on TV.

Contudo, José Sócrates foi eleito para servir os Portugueses, o que inclui prestar-lhes contas e ouvir as críticas e protestos quando estes (ou parte deles) não estão satisfeitos. Se o objectivo era só ouvir loas e receber vénias e salamaleques, podia tentar a sorte na Coreia do Norte ou na Birmânia.

Não é admissível que Sócrates se abespinhe todo e perca a compostura quando os protestos se fazem ouvir, que insulte os manifestantes e lhes mova constantemente processos de intenção capciosos. José Sócrates tem de perceber que não é o Querido Líder e que o direito à crítica, ao protesto e à manifestação são direitos inalienáveis num estado democrático.

Se não tem feitio, tolerância ou, simplesmente, pachorra, tem bom caminho: a porta é serventia da casa.