07 setembro, 2013

Drums of War? - III

DRUMS OF WAR? - III

 

Continua a novela do ataque à Síria. O Congresso dos Estados Unidos não se pronuncia antes do dia 9 de Setembro, 3 semanas após os ataques com armas químicas em Damasco. Quase tanto tempo como, numa situação infinitamente mais grave, os EUA demoraram a atacar o Afeganistão após o 11 de Setembro de 2001!


Embora ache que o Congresso vá dar luz verde a Obama para este fazer a sua pequena guerra, os desconfortos vão crescendo. Desde logo, o que decorre da opinião dos eleitorados:


Estados Unidos:         59% contra um ataque à Síria (Sondagem Washington Post/ABC)

Reino Unido:             71% contra um ataque à Síria (Sondagem ICM for the BBC)

França:                       55% contra um ataque à Síria (Sondagem CSA)

Itália:                          57% contra um ataque à Síria (Sondagem IPR Institute)

Alemanha:                 58% contra um ataque à Síria (Sondagem ZDF)


É óbvio que sendo os parlamentares a votar a favor ou contra a guerra, estas sondagens fá-los-ão pensar duas vezes.


Entretanto, soube-se que os militares norte-americanos estão com pouca vontade de soar os War Drums. Já era público e notório que o Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas dos EUA, General Martin Dempsey, se tinha oposto a este empreendimento.


Agora ficou a saber-se que o mal-estar é generalizado nas Forças Armadas e que a condução do dossier sírio pela Administração Obama é visto com desprezo pelos militares. Nesse sentido, sugiro a leitura de um artigo publicado no Washington Post pelo General (na reserva) Robert Scales, antigo comandante do US Army War College: A War the Pentagon Doesn’t Want, disponível em
http://www.washingtonpost.com/opinions/us-military-planners-dont-support-war-with-syria/2013/09/05/10a07114-15bb-11e3-be6e-dc6ae8a5b3a8_print.html .


Nele, o General Scales revela o embaraço e a revolta sentida pelos militares norte-americanos perante o amadorismo, falta de senso e ausência de sentido estratégico revelado pela Administração neste processo.


Não há um objectivo, não existe uma estratégia, falta convicção e sobra a ignorância do que é a guerra e de como ela se prepara. Para um Presidente que se definia como sendo anti-guerra, Obama trata esta guerra com uma ligeireza confrangedora. Dois exemplos:


* Em entrevista televisiva, Obama afirmou que o objectivo é to fire a shot across the bow! Isso é um tiro de aviso. Um tiro disparado sobre (e não no) alvo para avisar que na próxima é para acertar. Tanto espalhafato, parlamentos, reuniões do Conselho de Segurança, arrufos diplomáticos, ameaças, alianças, meios militares em movimento, tudo para disparar um tiro de aviso???

* Um membro da Administração afirmou que a Casa Branca optaria por um ataque just muscular enough not to get mocked! Really? Um ataque suficientemente forte para não ser alvo de chacota?


Não surpreende o mal-estar dos militares. Esta administração tem uma abordagem à guerra similar a uma opera buffa!


Um militar citado pelo General Robert Scales, resume tudo na perfeição: They [the military] are tired of wannabe soldiers who remain enamored of the lure of bloodless machine warfare. “Look,” one told me, “if you want to end this decisively, send in the troops and let them defeat the Syrian army. If the nation doesn’t think Syria is worth serious commitment, then leave them alone.”


And so the story goes….

02 setembro, 2013

Drums of War? - II

DRUMS OF WAR? II

 
Manifestantes contrários ao ataque à Síria protestam junto ao Parlamento Britânico.

Algumas horas após ter escrito o post anterior (Drums of War? I em), Barack Obama confirmou que irá efectivamente atacar a Síria. Disse que as forças para tal estavam posicionadas e prontas, que o ataque seria limitado (“limited, narrow military response” – in BBC News at http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-23911833 ) e não envolveria tropas no terreno (“boots on the ground”), que seria desencadeado quando ele entendesse e que iria solicitar luz verde do Congresso.


Que vá ao Congresso é bom. Que diga que vai atacar antes de o Congresso se pronunciar é pouco respeitador para com o órgão legislativo (o que é habitual em Obama).


O certo é que os EUA já sofreram alguns reveses nesta fase pré-ataque:


* O Parlamento Britânico, numa notável demonstração de independência, votou contra a participação do Reino Unido num ataque à Síria, decisão humilde e democraticamente aceite pelo Primeiro-Ministro David Cameron. Não deixando de ser um revés para o Governo, quem saiu mais chamuscado foi o Ministro dos Negócios Estrangeiros John Hague, um fundamentalista dos ataques à Líbia e à Síria.


* A NATO decidiu apoiar, mas não participar de um ataque, não servindo de umbrella para a intervenção, como acontecera na Líbia.


* Uma potência mediterrânica como a Itália, declarou que só ponderaria participar no ataque com (um improvável) mandato da ONU.


* A Alemanha declarou que não participaria.


* A possibilidade de os EUA conseguirem um mandato do Conselho de Segurança da ONU para este ataque apresenta-se remota.


* A Jordânia tem muitas vulnerabilidades internas e externas (é um alvo fácil para uma retaliação síria e não deve participar.


* A Arábia Saudita e o Qatar apoiam mas não participam.


* O Egipto não apoia, nem participa.


* Israel tem os meios, mas não pode participar por motivos políticos óbvios: provocaria um levantamento geral no Médio oriente e seria um bónus para Al Assad.


* A Turquia tem meios, mas também é um alvo de retaliações. É um caso pendente.


* A Rússia, não só veta propostas de resolução apresentadas no UNSC, como através do Presidente Putin, ridicularizou as provas referidas pelos Estados Unidos: "If there is evidence it should be shown. If it is not shown, then there isn't any.", disse Vladimir Putin em Vladivostok


Resta a França. O Presidente François Hollande já afirmou que que mantém a decisão de participar, mas o parlamento francês pronuncia-se sobre o assunto no dia 4 de Setembro. As possibilidades são muito menores, mas veremos se não irá acontecer o mesmo que em Westminster, dado que as últimas sondagens mostram 64% dos Franceses contrários à intervenção.


Se as tendências se confirmarem, teremos uma Coalition of the Willing que mostrará muita unwillingness (falta de vontade).

31 agosto, 2013

Drums of War? - I

DRUMS OF WAR? I

You can hear the drums of war over Syria loud and clear. Interestingly, I had never heard such hesitant and reluctant war drummers. Will they shut the drums? Or will they fire the guns?

Poucas vezes fui tão instado a escrever sobre um assunto como agora, sobre o prospectivo ataque à Síria. No fundo, tal curiosidade reflecte a ansiedade que a guerra provoca. Desejada ou repudiada, mesmo geograficamente distante, sem qualquer envolvimento de Portugal, é difícil ignorar o receio, o impacto, as consequências previstas ou insuspeitas, a excitação, a emoção, a gravidade, as baixas, o sangue derramado, que a guerra sempre provoca. E, é claro, a suprema expectativa quanto ao desfecho.


A minha posição sobre um ataque ocidental à Síria já foi sobejamente exposto em Tempos Interessantes.1 Sou contra. Resumidamente, sou contra por dois motivos fundamentais:


1- Entendo que não existe um significativo interesse nacional, seja dos Estados Unidos, do Reino Unido, da França, ou de qualquer outro país ocidental, em jogo na Guerra Civil da Síria.

2- Acho que as forças que se arregimentam contra o regime não são, genericamente recomendáveis, as mais organizadas e eficazes são islamitas radicais, algumas pertencentes à Al Qaeda; e ter a pretensão de que do seu triunfo resulte um país democrata e liberal só pode ser fruto de ignorância, delírio, ou de interesses obscuros.


Estão em causa duas realidades neste clamor guerreiro:


A primeira é a pressão constante que a maioria da intelligentsia norte-americana e alguns destacados congressistas de ambos os partidos têm exercido sobre Barack Obama para que este intervenha militarmente na Síria. Curiosamente este grupo que domina a opinião publicada/transmitida nos media, junta a ala intervencionista do Partido Republicano, com a esquerda internacionalista do Partido Democrata. Em comum, têm a crença obstinada que a política externa e militar dos EUA deve ser guiada por princípios morais (os deles, bem entendido) e que isso inclui, primordialmente, atacar, derrubar e substituir os regimes de que não gostam. Além de errado, é perigoso e impraticável, mas o certo é que este grupo de iluminados tem palco e não fala de outra coisa senão de atacar a Síria há mais de 2 anos.


A segunda foi o estabelecimento de uma red line pelo Presidente Obama no ano passado, que determinava o uso de armas químicas como despoletador de uma acção armada pelos EUA: A red line for us is we start seeing a whole bunch of chemical weapons moving around or being utilized.”2 Obama claramente pensava que dessa forma passava uma imagem de força para consumo interno e externo, sem correr riscos, dado que não seria verosímil que Assad infringisse a única red line de Washington.


Somando as duas realidades, o resultado é uma pressão avassaladora para intervir, acrescida de pressões externas advindas principalmente do Reino Unido, da França, da Arábia Saudita, do Qatar e da Turquia.


Tal como aconteceu na Guerra da Líbia, Obama vai cedendo à pressão. E tal como na Líbia, ao mesmo tempo que faz soar os tambores da guerra, vai recorrendo a manobras pouco claras: primeiro exige uma inspecção da ONU; quando ela é aceite pela Síria, diz que já é tarde e que os seus resultados não serão válidos. Em vez de denunciar porque é que os resultados não serão válidos, anuncia as suas próprias provas “irrefutáveis”, com números exactos das vítimas; com um pouco de sorte, a NSA terá os nomes, nº de telefone e endereços postal e electrónico das vítimas. Não aguarda pelo regresso da equipa da ONU que, curiosamente, segundo a Reuters e a Agence France Press terá abandonado mais cedo a Síria com receio de um ataque norte-americano.


O cerco aero-naval à Síria aperta-se.

Enfim, os EUA já têm o pretexto, a narrativa e o cardápio de opções militares. Aparentemente, Obama já só se debate com dois problemas:


            * Dar um aspecto de legitimidade interna e externa à intervenção.


* Escolher a modalidade de ataque que pareça punitivo, mas que exponha o menos possível os EUA.


Em relação à primeira, tal como na Guerra da Líbia, Obama recusa-se a ir ao Congresso obter o apoio parlamentar para a guerra, algo que, ironicamente, o seu vilipendiado antecessor, George W. Bush, fez e conseguiu, quer para a Guerra do Afeganistão, quer para a Guerra do Iraque. Na frente externa, o Conselho de Segurança parece estar bloqueado. Comme d’habitude, nestes assuntos.


Em relação à segunda, Obama contorce-se entre a vontade de se envolver o menos possível (hit and run) e a necessidade de fazer algo de credível, sob pena de se ridicularizar.


De mãos atadas por terceiros e num beco sem saída por sua própria iniciativa, a Obama falta-lhe a coligação, o mandato, o plano, a racional estratégica para o ataque e a vontade. Tem o pretexto e os tambores quand même.




2- “Uma linha vermelha, para nós, é quando começarmos a ver um monte de armas químicas a ser movimentadas ou utilizadas”. A forma aligeirada, para não dizer bacoca, como Obama aborda esta questão, diz bastante sobre a forma pouco consciente e responsável como ele estabeleceu a red line que hoje o persegue. Então a expressão “a whole bunch” (um monte de), é uma preciosidade de precisão métrica e de elevação retórica!

28 agosto, 2013

Setil - Retrato de um Portugal Deserto

SETIL
UM RETRATO DE UM PORTUGAL DESERTO

 
No passado dia 26 de Agosto, o comboio em que seguia de Lisboa para o Porto parou na estação de Setil. Ou melhor, na abandonada estação de caminhos-de-ferro de Setil. Tinham caído canas sobre uma catenária que precisava de reparação. Ali ficámos durante 65 minutos.


O Inter-Cidades parado na abandonada estação dos caminhos-de-ferro de Setil (Cartaxo).


Setil é uma estação no meio do nada. Vêem-se meia dúzia de edificações abandonadas ou mesmo arruinadas, mais 3 ou 4 que poderão ser habitadas. Contudo, uma breve pesquisa posterior, mostrou que Setil é uma estação antiga, datada de 1903 e que desempenhava um papel importante como entroncamento entre a Linha de Vendas Novas e a Linha do Leste, inaugurada em 1858!


O infeliz destino de Setil, que a inopinada avaria me fez conhecer, levou-me a pensar mais uma vez na desertificação de vastas regiões de Portugal, de que Setil, inserida no concelho do Cartaxo nem será o exemplo mais flagrante e dramático.


O pretexto para a retirada de serviços públicos é frequentemente a sua menor utilização em virtude do esvaziamento demográfico. No entanto, a inversa também é verdadeira: uma vila, ou uma região destituída de serviços públicos perde atracção e convida ao êxodo dos que lá ainda vivem.


Não sou defensor de despesas estatais supérfluas. Todavia, o Estado tem de assegurar a sua presença por toda a mancha territorial e não pode retirar-se de inúmeras regiões do país sob pretexto orçamental. O êxodo dos serviços estatais ou para-estatais é assustador: hospitais, escolas, centros de saúde, postos da GNR, estações dos CTT, estações dos caminhos-de-ferro, linhas ferroviárias, quartéis do Exército, repartições públicas.


Tem de haver um equilíbrio entre uma despesa pública sustentável e a desertificação de grande parte do país. Este é um dever de que o Estado não se pode abstrair.


Voltando a Setil, passeando pela estação encerrada no início de 2011, eu e um funcionário da CP fizemos uma descoberta: uma ventilação a funcionar; depois outra: luzes acesas; e ainda mais outra: aparelhos de ar condicionado a funcionar.


Estado miserável. Nem apagar a luz e fechar a porta é capaz de fazer com competência.


As pessoas partiram há dois anos e meio, mas as luzes permanecem acesas.

 

Os aparelhos de ar condicionado e a ventoinha em pleno funcionamento numa estação semi-arruinada.

27 agosto, 2013

Wishful Thinking

WISHFUL THINKING

 
Yuri Andropov sucedeu a Leonid Brejnev como Secretário-Geral do PCUS (Partido Comunista da União Soviética) em 1982. Após longos e estiolantes 18 anos de governo de Brejnev, durante os quais a URSS atingiu o apogeu do seu poder militar e político no plano externo e, também, estagnou e ossificou o seu sistema económico e político interno, a ânsia no Ocidente era ver suceder-lhe um líder reformista, mais aberto que começasse a rachar o monólito soviético.


Yuri Andropov (1914-1984), líder da URSS durante 15 meses (Novembro 1982-Fevereiro 1984) e Director da KGB entre 1967 e 1982, saudando da tribuna do Mausoléu de Lenine na Praça Vermelha, em Moscovo.

Da realidade ao desejo foi um pequeno passo para os media ocidentais que rapidamente descobriram que Andropov bebia Scotch whisky, ouvia Glenn Miller e devorava literatura norte-americana; desses supostos gostos ocidentais, deduzia-se uma generalizada adesão às convicções ocidentais, mormente no plano político. Ou seja, estávamos perante um reformador. Talvez cientes de que a extrapolação desafiava as regras do bom senso, media houve que foram mais longe, descobrindo (???) que quando regressava a casa à noite, Andropov entretinha tertúlias de debate político com oposicionistas do regime comunista, ao som de Glenn Miller e lubrificadas com Scotch.


Atenção, não estamos a falar de pasquins sensacionalistas e demagogos. Refiro-me a jornais como o Wall Street Journal, o New York Times, o Washington Post e o Christian Science Monitor.


Tudo isto é muito bonito, excepto que esbarrava num pequeno obstáculo: a REALIDADE. E essa realidade era pouco rósea: Andropov era embaixador soviético em 1956 quando os tanques soviéticos invadiram o país e suprimiram a Revolução Húngara com grande violência. Andropov foi um dos instigadores e mentores da invasão. Andropov era membro do Comité Central do PCUS há 21 anos e do Politburo há uma década, ou seja, pertencia ao grupo restrito de altos dirigentes soviéticos.

Mas falta a cereja no topo do bolo da realidade: Yuri Andropov era há 15 anos, desde 1967, o chefe da KGB. Sim, essa mesmo, a polícia secreta soviética, orgulhosa sucessora do NKVD de Staline.


Portanto, de acordo com esses media, Andropov tinha uma vida dupla: de dia mandava prender, torturar, deportar para a Sibéria, executar dissidentes políticos. À noite, convidava-os para ir a sua casa beber uns whiskies, ouvir música e desancar no regime do qual ele era dirigente e responsável pela segurança. Fantástico!!!!


Relembro estes desvarios jornalísticos dos tempos da minha adolescência, porque este é um trend que se mantém até aos dias de hoje. Qualquer novo líder de um país totalitário, autoritário ou simplesmente desagradável aos olhos do Ocidente, é recebido com expectativas inauditas de que se trata de um novo Vaclav Havel ou Lech Walesa, mesmo que ele faça parte integrante do sistema e nele tenha prosperado e dele dependa. Assim foi com Kim Jong Il na Coreia do Norte, com Medvedev na Rússia, ou com qualquer novo Presidente do Irão.


O mesmo esquema mental é aplicado a revoluções em países ditatoriais: em meados da década passada na Ucrânia e no Quirguizistão e, desde 2011 na Líbia, no Egipto, no Iémen e na Síria. Todos eles se iam tornar a breve trecho exemplos de democracias liberais. Oito anos depois, a Ucrânia e o Quirguizistão ainda estão longe de o ser. Dois anos depois, a Líbia e o Iémen são failed states waiting to happen, a Síria está em estado de guerra civil e o Egipto está perto de onde estava em Dezembro de 2010, antes de começar a dita Primavera Árabe.


Conselho de amigo: muito cuidado com aquilo que os media relatam nestas situações. Hoje em dia, a maioria dos media vive em função do que gostavam que fosse, o que muitas vezes está a milhas de distância do que é. Opinam sobre a espuma que vêem e ignoram a realidade histórica, política e cultural, bem como os interesses e os poderes fácticos que na maioria das vezes, passado o delírio das manifestações e dos entusiasmos, são os que prevalecem. No meu tempo de estudante, ensinaram-me que o jornalismo relatava factos e não estados de alma.


Em Inglês existe uma expressão fabulosa que retractar esta atitude na perfeição: WISHFUL THINKING, que significa algo como, pensar aquilo que se deseja, em detrimento da realidade.

24 agosto, 2013

The Rock

THE ROCK


Spain: between a Rock and a hard place.
in “Expresso” em http://expresso.sapo.pt/   



The Rock, como Gibraltar é conhecido, é território britânico desde 1704 quando foi conquistado por tropas Anglo-Holandesas num dos episódios da Guerra da Sucessão Espanhola. A posse ficou consagrada um a década mais tarde no Tratado de Utrecht (1714).



Desde então, de vez em quando a Espanha puxa pelos seus galões nacionalistas e reclama a posse de Gibraltar. Tal foi notório durante o regime franquista, que selou o acesso terrestre ao Rochedo. Mesmo em democracia, Madrid de tempos a tempos, especialmente quando esses tempos estão difíceis em Castela, lá vem esgrimir o fantasma do neo-colonialismo britânico.


Este Verão esses tempos voltaram. Desta vez o pretexto são as medidas tomadas pelo Governo de Gibraltar para travar a pesca predatória dos pesqueiros espanhóis em águas circundantes do Rochedo (e os Portugueses sabem como eles podem ser predadores). Os motivos reais são outros: desemprego record de 26%; economia mergulhada em recessão; o desaparecimento de 25% das empresas espanholas nos últimos 5 anos; e, last but not least, um Primeiro-Ministro sobre o qual impendem sérias e graves suspeitas de corrupção.


Como o ridículo já não mata, a Espanha parece querer criar uma aliança com a Argentina contra o Reino Unido por causa das Falkland (o tal arquipélago que já era britânico ainda a Argentina nem existia) e de Gibraltar. Curiosamente, a Argentina invadiu as Falkland (e foi derrotada) precisamente porque a Junta Militar argentina queria criar um fait-divers com um inimigo externo para desviar a atenção dos Argentinos dos graves problemas que o país atravessava. Temos, pois, o lamentável Mariano Rajoy e a inenarrável Cristina Kirchner a seguir a cartilha do General Galtieri e sus muchachos!


Como se não bastasse, a Espanha ainda se coloca pela enésima vez na ridícula situação de reclamar a posse de Gibraltar quando ocupa os enclaves de Ceuta e de Melilla em Marrocos, no Norte de África.


É claro que a Espanha e a Argentina se confrontam com o aborrecido detalhe democrático de as populações de Gibraltar e das Falkland se expressarem de forma repetida inequívoca e esmagadora a favor de permanecerem dependências do Reino Unido. A democracia tem destes contratempos.


A Espanha está, literalmente entre a espada e a parede, ou na versão inglesa, between a rock and a hard place: the Rock of Gibraltar and the hard determination of the UK in not letting the Gibraltarians and the Falklanders down.

 
P.S. No cartoon, Gibraltar aparece representado por um macaco porque o Rochedo tem uma numerosa colónia de macacos.