10 setembro, 2013

Cheque Russo


CHEQUE RUSSO

 Vinte dias após o ataque químico em Damasco, a Rússia, fiel à sua tradição de insignes xadrezistas, fez cheque aos Estados Unidos.

A Administração Obama, fiel à sua inépcia, adiou o seu golpe, movimentou peões, torres e bispos de forma desordenada, expôs o rei e ficou encurralada.

Ainda não é game-over, mas Al Assad que é rei no xadrez sírio, mas um peão à escala global, nem deve acreditar na sorte que teve: quando parecia à mercê do adversário, ganhou uma vida nova.




Os movimentos errados dos EUA são incontáveis:

1- O timing. Tendo em conta a gravidade que Obama assacou aos acontecimentos de 21 de Agosto e ao carácter incontornável de uma resposta bélica, é incompreensível que, volvidos 20 dias, ainda não se vislumbre qualquer ataque a breve trecho; nem tampouco uma estratégia e objectivos claros. Tal foi penalizador, porque não só não ganhou momentum para a intervenção, mas pelo contrário, foi-o perdendo. Pensou (como de costume) que a sua verve lhe iria angariar todos os apoios e apenas viu a resistência aos ataques aumentar; no estrangeiro e nos próprios EUA.

2- O isolamento. O opting-out do Reino Unido foi um duro golpe. O rei perdeu a dama e ficou desguarnecido. Cedo a Alemanha e a Itália se puseram de fora. A maioria dos países que apoiaram eram meros adeptos de bancada e cheer-leaders não são os elementos mais úteis numa operação militar.



3- O bispo desajeitado. O Secretário de Estado John Kerry tem-se em grande conta, mas é um flop. Tal como o Vice-Presidente Joe Biden, é um perigo quando fala. E é suposto o chefe da diplomacia americana falar bastante. As declarações de Kerry em Londres fizeram mais para minar a causa da guerra do que qualquer pronunciamento dos opositores políticos no Congresso. A forma como definiu o ataque à Síria é hilariante e é de uma estupidez inacreditável:

“We will be able to hold [Syrian President] Bashar al-Assad accountable without engaging in troops on the ground or any other prolonged kind of effort in a very limited, very targeted, very short-term effort that degrades his capacity to deliver chemical weapons without assuming responsibility for Syria’s civil war,” Kerry said during an appearance with British Foreign Secretary William Hague, “That is exactly what we are talking about doing — unbelievably small, limited kind of effort.” (alocução disponível no “The Guardian” em
http://www.theguardian.com/world/2013/sep/09/us-syria-chemical-weapons-attack-john-kerry

Unbelievable é mesmo a palavra certa. A reacção foi a esperada: se é assim, para quê atacar? Para quê arriscar ir para a guerra? Não será melhor enviar uma severa reprimenda ao Sr. Assad? Eu diria que Kerry lançou o primeiro míssil do ataque e acertou no próprio pé.

4- O joker. Eu sei que o joker não existe no xadrez, mas o jornalista que perguntou a Kerry o que é que Assad podia fazer para evitar o ataque, abriu uma autêntica Caixa de Pandora. Atrapalhado, Kerry balbuciou “Sure he could turn over every bit of his weapons to the international community within the next week, […], all of it, without delay, but he isn’t about to. It can’t be done”. Umas horas depois, o Senado adiava a votação sobre o ataque à Síria e Obama acolhia a proposta com reservas.

5- Wrong move. A Rússia viu a oportunidade e avançou a torre (Ministro dos Negócios Estrangeiros Sergei Lavrov) que põe em cima da mesa a proposta de colocação da totalidade das armas químicas sírias sob controlo da ONU. O peão sírio apoia a torre. Cheque ao rei.


Na realidade, a proposta russa é de difícil exequibilidade a curto prazo. As estimativas apontam para cerca de 1000 toneladas de agentes químicos em 50 locais de produção e armazenamento diferentes, alguns deles em zonas de guerra. Contudo, a Rússia encontrou uma possível solução diplomática para evitar um novo confronto militar e para a maioria que não sabe nem quer saber os detalhes, isso é que é relevante.

Um projecto de guerra que foi mal conduzido desde o início, que angariou muito poucos apoios substantivos e gerou muita oposição, ficou ontem muito menos exequível. Ainda pode ser feito, mas os custos para os EUA serão maiores e os benefícios menores.


You’re in check Mr. Obama. Your move.

08 setembro, 2013

Drums of War? - IV

DRUMS OF WAR? - IV

 
O temível sistema de defesa aérea da Síria, nada pode contra os mísseis cruzeiro (Cruise) Tomahawk lançados a centenas de km de distância.



Este último post da série Drums of War? Foca dois aspectos: o primeiro é o pretexto; o segundo é a consequência.


O PRETEXTO é, como se sabe, um ataque com armas químicas efectuado no dia 21 de Agosto nos arredores de Damasco. Parece líquido que o ataque aconteceu.


Confesso que, quando surgiram as notícias do ataque, a primeira coisa que pensei foi: “Quem tem interesse em desencadear um ataque destes?” E a resposta foi: “Os rebeldes”. Senão vejamos:


Um ataque químico de alguma dimensão tinha uma grande probabilidade de desencadear uma resposta militar do Ocidente. Esse ataque teria sempre como alvo o Governo Sírio e as suas tropas e equipamento militar. Desde há uns meses a esta parte, como já foi relatado em Tempos Interessantes (ver Síria: A Guerra Está para Durar em http://tempos-interessantes.blogspot.pt/2013/07/siria-guerra-esta-para-durar.html ) o regime sírio tem registado alguns sucessos militares significativos. Por outro lado, os rebeldes experimentam problemas internos, a que se soma o crescendo governamental.


A conclusão seria: foram os rebeldes, porque seriam os únicos a quem o crime aproveitaria.


As provas, que não vimos, supostamente apontam para o regime sírio. Então, das três, uma: são falsas e foram mesmo os rebeldes; são verdadeiras e Bashar Al Assad e a liderança militar revelaram uma inacreditável estupidez; ou foram comandos intermédios no terreno que tomaram a iniciativa, o que também deixaria ficar mal a estrutura de comando do exército sírio e a segurança das armas químicas.


Como também já aqui referimos em Drums of War? I, os números apresentados pelos EUA são estranhamente precisos: 1429 mortos, dos quais 426 crianças. A sério? Bem contadinhos? Como em quase tudodo, há duas formas de olhar para estes números (não me refiro à componente humana e moral): a intelligence é first class e sabem-se todos os detalhes, ou criaram-se os detalhes para supostamente conferir maior credibilidade.


O que é estranho e inequívoco, é que os serviços de informações dos EUA, do Reino Unido e da França parecem ter investigado massacres diferentes, tal o diferencial no número de mortes, especialmente entre os divulgados pelos Europeus e os propalados pelos Norte-Americanos (ver gráfico no Washington Post, disponível em: http://www.washingtonpost.com/blogs/the-fix/wp/2013/09/06/what-the-intelligence-on-syria-shows-in-one-graphic/?print=1


REINO UNIDO -          350 mortes

ESTADOS UNIDOS -   1429 mortes

FRANÇA -                   281 mortes

 

A CONSEQUÊNCIA é, como também já se sabe, um ataque militar à Síria a decorrer algures no mês de Setembro.


Os meios militares mais relevantes dos EUA, Reino Unido e França que se sabe estarem posicionados entre o Mediterrâneo Oriental e o Mar Arábico.
O mapa publicado em Drums of War? - I  inclui meios navais da Rússia, aos quais se pode acrescentar um cruzador e um navio anfíbio.



Como também já referi, Obama garante que o ataque será curto e limitado e que não haverá tropas no terreno. A ser verdade, tal deixa-nos duas opções:


* Um ataque à la Clinton em 1998 quando lançou alguns mísseis cruzeiro (Tomahawk) sobre campos da Al Qaeda no Afeganistão. Estes dirigir-se-ão a postos de comando e controlo do exército sírio, baterias de mísseis e bases relevantes. A defesa aérea síria é irrelevante contra ataques com mísseis de longo alcance. Refira-se que, o Reino Unido é o único país, além dos EUA, capaz de desencadear um ataque deste jaez.

* Um ataque mais abrangente, incluindo o uso de bombardeiros, que permita atacar e destruir um leque mais amplo de alvos, incluindo bunkers e redutos subterrâneos. Neste caso, os Tomahawk teriam como alvo prioritário o sistema de defesa aérea sírio e a própria força aérea da Síria, para limpar o caminho para a aviação.


A realidade é que a fase dos pretextos está fundamentalmente ultrapassada. Resta-nos aguardar pelas consequências.

07 setembro, 2013

Drums of War? - III

DRUMS OF WAR? - III

 

Continua a novela do ataque à Síria. O Congresso dos Estados Unidos não se pronuncia antes do dia 9 de Setembro, 3 semanas após os ataques com armas químicas em Damasco. Quase tanto tempo como, numa situação infinitamente mais grave, os EUA demoraram a atacar o Afeganistão após o 11 de Setembro de 2001!


Embora ache que o Congresso vá dar luz verde a Obama para este fazer a sua pequena guerra, os desconfortos vão crescendo. Desde logo, o que decorre da opinião dos eleitorados:


Estados Unidos:         59% contra um ataque à Síria (Sondagem Washington Post/ABC)

Reino Unido:             71% contra um ataque à Síria (Sondagem ICM for the BBC)

França:                       55% contra um ataque à Síria (Sondagem CSA)

Itália:                          57% contra um ataque à Síria (Sondagem IPR Institute)

Alemanha:                 58% contra um ataque à Síria (Sondagem ZDF)


É óbvio que sendo os parlamentares a votar a favor ou contra a guerra, estas sondagens fá-los-ão pensar duas vezes.


Entretanto, soube-se que os militares norte-americanos estão com pouca vontade de soar os War Drums. Já era público e notório que o Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas dos EUA, General Martin Dempsey, se tinha oposto a este empreendimento.


Agora ficou a saber-se que o mal-estar é generalizado nas Forças Armadas e que a condução do dossier sírio pela Administração Obama é visto com desprezo pelos militares. Nesse sentido, sugiro a leitura de um artigo publicado no Washington Post pelo General (na reserva) Robert Scales, antigo comandante do US Army War College: A War the Pentagon Doesn’t Want, disponível em
http://www.washingtonpost.com/opinions/us-military-planners-dont-support-war-with-syria/2013/09/05/10a07114-15bb-11e3-be6e-dc6ae8a5b3a8_print.html .


Nele, o General Scales revela o embaraço e a revolta sentida pelos militares norte-americanos perante o amadorismo, falta de senso e ausência de sentido estratégico revelado pela Administração neste processo.


Não há um objectivo, não existe uma estratégia, falta convicção e sobra a ignorância do que é a guerra e de como ela se prepara. Para um Presidente que se definia como sendo anti-guerra, Obama trata esta guerra com uma ligeireza confrangedora. Dois exemplos:


* Em entrevista televisiva, Obama afirmou que o objectivo é to fire a shot across the bow! Isso é um tiro de aviso. Um tiro disparado sobre (e não no) alvo para avisar que na próxima é para acertar. Tanto espalhafato, parlamentos, reuniões do Conselho de Segurança, arrufos diplomáticos, ameaças, alianças, meios militares em movimento, tudo para disparar um tiro de aviso???

* Um membro da Administração afirmou que a Casa Branca optaria por um ataque just muscular enough not to get mocked! Really? Um ataque suficientemente forte para não ser alvo de chacota?


Não surpreende o mal-estar dos militares. Esta administração tem uma abordagem à guerra similar a uma opera buffa!


Um militar citado pelo General Robert Scales, resume tudo na perfeição: They [the military] are tired of wannabe soldiers who remain enamored of the lure of bloodless machine warfare. “Look,” one told me, “if you want to end this decisively, send in the troops and let them defeat the Syrian army. If the nation doesn’t think Syria is worth serious commitment, then leave them alone.”


And so the story goes….

02 setembro, 2013

Drums of War? - II

DRUMS OF WAR? II

 
Manifestantes contrários ao ataque à Síria protestam junto ao Parlamento Britânico.

Algumas horas após ter escrito o post anterior (Drums of War? I em), Barack Obama confirmou que irá efectivamente atacar a Síria. Disse que as forças para tal estavam posicionadas e prontas, que o ataque seria limitado (“limited, narrow military response” – in BBC News at http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-23911833 ) e não envolveria tropas no terreno (“boots on the ground”), que seria desencadeado quando ele entendesse e que iria solicitar luz verde do Congresso.


Que vá ao Congresso é bom. Que diga que vai atacar antes de o Congresso se pronunciar é pouco respeitador para com o órgão legislativo (o que é habitual em Obama).


O certo é que os EUA já sofreram alguns reveses nesta fase pré-ataque:


* O Parlamento Britânico, numa notável demonstração de independência, votou contra a participação do Reino Unido num ataque à Síria, decisão humilde e democraticamente aceite pelo Primeiro-Ministro David Cameron. Não deixando de ser um revés para o Governo, quem saiu mais chamuscado foi o Ministro dos Negócios Estrangeiros John Hague, um fundamentalista dos ataques à Líbia e à Síria.


* A NATO decidiu apoiar, mas não participar de um ataque, não servindo de umbrella para a intervenção, como acontecera na Líbia.


* Uma potência mediterrânica como a Itália, declarou que só ponderaria participar no ataque com (um improvável) mandato da ONU.


* A Alemanha declarou que não participaria.


* A possibilidade de os EUA conseguirem um mandato do Conselho de Segurança da ONU para este ataque apresenta-se remota.


* A Jordânia tem muitas vulnerabilidades internas e externas (é um alvo fácil para uma retaliação síria e não deve participar.


* A Arábia Saudita e o Qatar apoiam mas não participam.


* O Egipto não apoia, nem participa.


* Israel tem os meios, mas não pode participar por motivos políticos óbvios: provocaria um levantamento geral no Médio oriente e seria um bónus para Al Assad.


* A Turquia tem meios, mas também é um alvo de retaliações. É um caso pendente.


* A Rússia, não só veta propostas de resolução apresentadas no UNSC, como através do Presidente Putin, ridicularizou as provas referidas pelos Estados Unidos: "If there is evidence it should be shown. If it is not shown, then there isn't any.", disse Vladimir Putin em Vladivostok


Resta a França. O Presidente François Hollande já afirmou que que mantém a decisão de participar, mas o parlamento francês pronuncia-se sobre o assunto no dia 4 de Setembro. As possibilidades são muito menores, mas veremos se não irá acontecer o mesmo que em Westminster, dado que as últimas sondagens mostram 64% dos Franceses contrários à intervenção.


Se as tendências se confirmarem, teremos uma Coalition of the Willing que mostrará muita unwillingness (falta de vontade).

31 agosto, 2013

Drums of War? - I

DRUMS OF WAR? I

You can hear the drums of war over Syria loud and clear. Interestingly, I had never heard such hesitant and reluctant war drummers. Will they shut the drums? Or will they fire the guns?

Poucas vezes fui tão instado a escrever sobre um assunto como agora, sobre o prospectivo ataque à Síria. No fundo, tal curiosidade reflecte a ansiedade que a guerra provoca. Desejada ou repudiada, mesmo geograficamente distante, sem qualquer envolvimento de Portugal, é difícil ignorar o receio, o impacto, as consequências previstas ou insuspeitas, a excitação, a emoção, a gravidade, as baixas, o sangue derramado, que a guerra sempre provoca. E, é claro, a suprema expectativa quanto ao desfecho.


A minha posição sobre um ataque ocidental à Síria já foi sobejamente exposto em Tempos Interessantes.1 Sou contra. Resumidamente, sou contra por dois motivos fundamentais:


1- Entendo que não existe um significativo interesse nacional, seja dos Estados Unidos, do Reino Unido, da França, ou de qualquer outro país ocidental, em jogo na Guerra Civil da Síria.

2- Acho que as forças que se arregimentam contra o regime não são, genericamente recomendáveis, as mais organizadas e eficazes são islamitas radicais, algumas pertencentes à Al Qaeda; e ter a pretensão de que do seu triunfo resulte um país democrata e liberal só pode ser fruto de ignorância, delírio, ou de interesses obscuros.


Estão em causa duas realidades neste clamor guerreiro:


A primeira é a pressão constante que a maioria da intelligentsia norte-americana e alguns destacados congressistas de ambos os partidos têm exercido sobre Barack Obama para que este intervenha militarmente na Síria. Curiosamente este grupo que domina a opinião publicada/transmitida nos media, junta a ala intervencionista do Partido Republicano, com a esquerda internacionalista do Partido Democrata. Em comum, têm a crença obstinada que a política externa e militar dos EUA deve ser guiada por princípios morais (os deles, bem entendido) e que isso inclui, primordialmente, atacar, derrubar e substituir os regimes de que não gostam. Além de errado, é perigoso e impraticável, mas o certo é que este grupo de iluminados tem palco e não fala de outra coisa senão de atacar a Síria há mais de 2 anos.


A segunda foi o estabelecimento de uma red line pelo Presidente Obama no ano passado, que determinava o uso de armas químicas como despoletador de uma acção armada pelos EUA: A red line for us is we start seeing a whole bunch of chemical weapons moving around or being utilized.”2 Obama claramente pensava que dessa forma passava uma imagem de força para consumo interno e externo, sem correr riscos, dado que não seria verosímil que Assad infringisse a única red line de Washington.


Somando as duas realidades, o resultado é uma pressão avassaladora para intervir, acrescida de pressões externas advindas principalmente do Reino Unido, da França, da Arábia Saudita, do Qatar e da Turquia.


Tal como aconteceu na Guerra da Líbia, Obama vai cedendo à pressão. E tal como na Líbia, ao mesmo tempo que faz soar os tambores da guerra, vai recorrendo a manobras pouco claras: primeiro exige uma inspecção da ONU; quando ela é aceite pela Síria, diz que já é tarde e que os seus resultados não serão válidos. Em vez de denunciar porque é que os resultados não serão válidos, anuncia as suas próprias provas “irrefutáveis”, com números exactos das vítimas; com um pouco de sorte, a NSA terá os nomes, nº de telefone e endereços postal e electrónico das vítimas. Não aguarda pelo regresso da equipa da ONU que, curiosamente, segundo a Reuters e a Agence France Press terá abandonado mais cedo a Síria com receio de um ataque norte-americano.


O cerco aero-naval à Síria aperta-se.

Enfim, os EUA já têm o pretexto, a narrativa e o cardápio de opções militares. Aparentemente, Obama já só se debate com dois problemas:


            * Dar um aspecto de legitimidade interna e externa à intervenção.


* Escolher a modalidade de ataque que pareça punitivo, mas que exponha o menos possível os EUA.


Em relação à primeira, tal como na Guerra da Líbia, Obama recusa-se a ir ao Congresso obter o apoio parlamentar para a guerra, algo que, ironicamente, o seu vilipendiado antecessor, George W. Bush, fez e conseguiu, quer para a Guerra do Afeganistão, quer para a Guerra do Iraque. Na frente externa, o Conselho de Segurança parece estar bloqueado. Comme d’habitude, nestes assuntos.


Em relação à segunda, Obama contorce-se entre a vontade de se envolver o menos possível (hit and run) e a necessidade de fazer algo de credível, sob pena de se ridicularizar.


De mãos atadas por terceiros e num beco sem saída por sua própria iniciativa, a Obama falta-lhe a coligação, o mandato, o plano, a racional estratégica para o ataque e a vontade. Tem o pretexto e os tambores quand même.




2- “Uma linha vermelha, para nós, é quando começarmos a ver um monte de armas químicas a ser movimentadas ou utilizadas”. A forma aligeirada, para não dizer bacoca, como Obama aborda esta questão, diz bastante sobre a forma pouco consciente e responsável como ele estabeleceu a red line que hoje o persegue. Então a expressão “a whole bunch” (um monte de), é uma preciosidade de precisão métrica e de elevação retórica!