CAVACO SILVA OUT
OF THE BOX
Cavaco Silva conseguiu surpreender toda a gente na sua
comunicação ao país sobre a crise política em Portugal. Eu, como a maioria das
pessoas, pensava que ele iria, mais uma vez, dar luz verde e carta-branca ao Governo,
abençoando a segunda proposta apresentada por Passos Coelho, que previa a
manutenção de Portas no governo e uma reestruturação da orgânica, dos poderes e
dos nomes do governo.
Em vez disso, Cavaco Silva encontrou uma fórmula que não
agradou a Gregos nem a Troianos. Aliás não agradou a PSD e CDS porque chumbou a
proposta conjunta; não agradou a PS, PCP e BE porque vetou eleições imediatas.
Quais são os prós e contras da iniciativa do Presidente?
PRÓS
1- Cavaco Silva pensou out of the box, qualidade que se pensava já não ter. Não se resignou ao óbvio,
não se submeteu à coligação e apresentou um caminho alternativo.
2- Cavaco Silva conseguiu
de uma assentada entalar os 3
partidos que, de formas, em graus e em tempos diferentes são os
responsáveis pelo estado catastrófico a que Portugal chegou.
3- Cavaco Silva mostrou um cartão vermelho a prazo ao Governo. Sim, ao colocar um prazo de validade de um ano e apenas por
causa da duração do resgaste até essa data, Cavaco colocou um rótulo de
desconfiança sobre o Governo. É mais do que merecido. A incompetência irrevogável de Passos Coelho e os malabarismos de
Portas não lhe deixaram alternativa. Acredito que o tenha feito contrafeito
tendo em conta o apoio incondicional que foi dando ao Governo. Mas até Cavaco
se encheu. É obra!
CONTRAS
1- Cavaco Silva menorizou
e criticou as eleições como forma de resolução do problema. Não o deve fazer porque, para o melhor e para o pior, é o exercício
mais nobre em Democracia.
2- Cavaco Silva sobrevalorizou as reacções dos mercados e ainda por
cima o seu discurso provocou um impacto semelhante nos juros da dívida soberana
ao da demissão de Paulo Portas. Aqui não
há volta a dar. Cavaco Silva enferma do mesmo mal que Sócrates, Coelho e
Portas: tem terror da Troika, é incapaz de assumir uma atitude de firmeza
perante ela e tem uma visão ajoelhada
do interesse nacional.
3- O horror ao confronto
político. Cavaco, talvez ainda estacionado nas suas mega-maiorias de 1987 e 1991, não aceita que o
confronto, a divergência e a diferença são ingredientes incontornáveis da
Democracia. A sua insistência num
consenso à volta de políticas que provocam revolta na maioria da população é
uma aberração. Mesmo apreciada por muitos comentadores do establishment,
não deixa de ser isso mesmo: uma aberração.
4- A proposta/exigência de
um entendimento macro-político entre PSD, PS e CDS para o período 2013-2017 é
um atentado à Democracia. A Democracia requer
alternativas (que é diferente de alternância). Se a intenção de Cavaco vingar, teremos
em Julho de 2014 os 3 maiores partidos a concorrerem com uma plataforma comum,
reduzindo os eleitores descontentes com ela a optarem entre o PCP, o BE, o
MRPP, o PPM, alguns grupúsculos, ou o voto branco ou nulo. Muito mau.
5- Se a proposta de Cavaco
vingar, teremos estrada livre para a ascensão de projectos de índole
totalitária em 2014 e mais além. O descontentamento
generalizado não vai desaparecer por obra e graça do Mega Bloco Central e o PS
deixará de canalizar parte desse descontentamento. Restam o alheamento
(abstenção), o protesto (brancos e nulos) e a extrema-esquerda (PCP e BE), que
será a grande vencedora.
Resumindo, a proposta de Cavaco não foi tão má quanto
pensei, mas mesmo assim é má. Os contras superam largamente os benefícios e não
me refiro à quantidade (5-3), mas sim à bondade destes versus a gravidade
daqueles. Resta ainda saber a resposta à
million Dollar question: qual é o Plano B de Cavaco Silva?
Talvez nunca venhamos saber. Certo, certo é que estamos nas mãos
de Cavaco Silva, Passos Coelho, Paulo Portas e António José Seguro. Isso é, só
por si, muito deprimente.





