22 novembro, 2012

A Queda das Folhas


A QUEDA DAS FOLHAS


Eu gosto muito do Outono. É a minha estação (nasci em Outubro), marca o fim do calor, tem dias amenos e, principalmente, a sua paisagem oferece-nos uma explosão de cores em mutação: amarelos, vermelhos, laranjas, castanhos e verdes também.

Daniel Charles Grose (1838-1900): Fall Scene
(Paisagem de Outono)


Contudo, o Outono é também o tempo da queda da folha, o fim de um ciclo, o prenúncio da inclemência do Inverno. A natureza parece entrar em decadência, muitas plantas despem-se, muitos animais perecem e ao entrarmos em Dezembro, a explosão cromática de Outubro dá lugar a uma paisagem desprovida de cor e roupagem. As folhas caem e não voltam. Outras virão, mas já não são as mesmas. Há árvores que sucumbem à invernia. E há Invernos mais longos e rigorosos do que outros.

E as folhas continuam a cair....
  

Jan Van Goyen (1596-1656): Landschap met Twee Eiken - 1641
(Landscape with Two Oaks)
(Paisagem com Dois Carvalhos)

  

* Não obstante a fonte ser a “American Gallery”, Daniel Grose é Canadiano. Acrescento que Van Goyen é Holandês.

15 novembro, 2012

Violência e Violência

VIOLÊNCIA E VIOLÊNCIA
 


Fogo e violência nas manifestações contra a austeridade em Lisboa.

 
No “Tempos Interessantes” já tomámos posições fortemente críticas de actos de violência gratuita, banditagem, vandalismo e saque em manifestações, protagonizados por profissionais deste tipo de crime, que actuam habitualmente a coberto de protestos anti-NATO, anti-EUA, anti-globalização e no âmbito de cimeiras internacionais. Inclusive já defendemos a dura repressão desses bandidos.*


Ontem ocorreram em Lisboa cenas de violência na sequela da greve geral e das manifestações a ela associadas. Embora não se revestissem das características destruidoras e de saque supra descritas, não é líquido que não tenham sido protagonizadas por profissionais da violência.


Hoje ouvimos na SIC o Presidente da República repudiar estes acontecimentos “que querem destruir a sociedade [….] e visam destruir a riqueza do nosso país [….] e a força humana que existe no nosso país”.


Curiosamente, o mesmo Presidente da República, não teve mais que suaves e subliminares admoestações ou avisos para com o último e o actual governos que mais não fizeram/fazem que destruir a sociedade, a riqueza nacional e a força humana.


Efectivamente, nos últimos anos os Portugueses têm sofrido sucessivos assaltos fiscais e sociais que lhes provocaram reduções brutais nos seus rendimentos, já para não falar dos que caíram no desemprego. Tais reduções lançaram muitos milhares de famílias que viviam sem grande margem entre os rendimentos e as despesas, na miséria, na indigência, incapazes de pagar a casa e os estudos dos filhos. Isto é uma violência brutal exercida sobre milhões de pessoas de forma unilateral e sem qualquer consideração pelas consequências que esses cidadãos vão sofrer.


Contra esta violência generalizada e cobarde os cidadãos não têm grande defesa. Os manifestos e programas eleitorais são uma fraude, os governos mandam em desmando, o Parlamento divide-se entre uma caixa de ressonância do governo e a vacuidade da oposição, o Presidente é cúmplice dos governos, o Tribunal Constitucional é uma farsa. Finalmente, os protestos e manifestações fazem abanar a governação, podem levar a um recuo táctico como aconteceu com a TSU, mas passado o abalo, os governos retomam o saque dos cidadãos, especialmente os da ex-classe média.


Perante esta impotência, até que ponto é que será legítimo o recurso à força para resistir ao abuso do aparelho de estado, para resistir ao assalto fiscal, para resistir ao empobrecimento compulsivo?


Perante esta realidade, até que ponto é que o recurso à força constitui um exercício de legítima defesa perante o ataque sem quartel à vida e propriedade dos cidadãos, das famílias, das empresas?


Toda a vida acreditei no são funcionamento da democracia. Hoje debato-me com estas graves interrogações. Fui eu que mudei? Não me parece. O Estado de Direito não existe e a Democracia está amarfanhada pela rapacidade de poderes espúrios e há limites para a capacidade das pessoas suportarem o abuso e o sofrimento….

 
*

“Roma e os Bárbaros” em



“Vândalos em Londres” em


 

 

11 novembro, 2012

Sie Sind Nicht Willkommen Kaiserin

SIE SIND NICHT WILLKOMMEN KAISERIN
HIER RAUSZUKOMMEN ANGELA MERKEL!

 NÃO É BENVINDA IMPERADORA
GET OUT ANGELA MERKEL!
 

 Uma fotografia feliz de Angela Merkel, mostrando na expressão o que muitos Portugueses sentem por ela.
 
Depois da inspecção à Grécia, a Kaiserin Germânica Angela Merkel continua a visitar as marcas do Reich.


Tal como nos tempos de Roma, de Carlos Magno, ou dos Habsburgos, as marcas são os limites do Império, paragens remotas, hostis, perigosas, atrasadas, em suma bárbaras. Não obstante, um imperador zeloso e corajoso tem de arrostar com as dificuldades e afirmar o seu poder e suserania.


Então como agora, as marcas tinham o seu governador, ou pretor, servidor e dependente do Imperador, neste caso da Kaiserin, ou Imperatriz.


Por vezes este pretor era autóctone da região conquistada. Desengane-se, porém, quem pense que tal resultava sempre no benefício da população local, pois muitas vezes o dito pretor vivia mais na ânsia de agradar ao império do que em proteger os seus conterrâneos, pelo que era ainda mais cruel e prepotente do que os estrangeiros.


Sim, por incrível que pareça, há muitos séculos que há Coelhos e Gaspares, serventes e bajuladores para com o César, ou o Kaiser e vis sem escrúpulos para com os concidadãos.


Resta saber se, tal como a velha Roma, também a actual Germânia não pagará a traidores.


Posts anteriores relevantes para este tema:


“Dislate ou Provocação” em



 “Herr Kommissar” em

04 novembro, 2012

As Quatro Potências do Médio Oriente - a Arábia Saudita


AS QUATRO POTÊNCIAS

DO MÉDIO ORIENTE

A ARÁBIA SAUDITA



ARÁBIA SAUDITA

A Arábia Saudita coincide e grande medida com a imagem geográfica que muitos têm do Médio Oriente, dado que ocupa a maior parte da Península Arábica. Como é óbvio a Arábia Saudita vale muito mais do que o nosso imaginário. Basta deixar dois apontamentos:


·        É o maior produtor. É o maior exportador mundial de petróleo. Possui as maiores resrevas conhecidas de petróleo.

·        É a guardiã dos dois lugares mais sagrados do Islamismo (Meca e Medina) onde o Profeta Maomé nasceu e viveu e recebeu de Alá os dogmas da fé.


O poder e a influência da Arábia Saudita assenta, portanto, em dois pilares: o económico e o religioso. Por um lado, estamos perante um país que gera receitas fabulosas oriundas do petróleo e que se senta, literalmente sobre um autêntico tesouro das Arábias (cerca de 262 biliões de barris!!!). Por outro lado, tem um papel liderante e influente sobre uma religião com mais de 1 bilião de devotos, em média mais pios e empenhados que os Cristãos do século XXI.


A isto podíamos acrescer a sua posição dominante na Península Arábica, ocupando um vasto território do Mar Vermelho ao Golfo Pérsico e exercendo um certo poder tutelar (mas não uniforme) sobre os seus parceiros no Conselho de Cooperação do Golfo (EAU, Oman, Kuwait, Qatar e Bahrain) e ainda sobre o Iémen.

Não obstante estes trunfos, a posição da Arábia Saudita no contexto do Médio Oriente surge sempre envolta num manto de prudência e vulnerabilidade. Numa era em que o dinheiro comanda a vida e também, em grande medida, as Relações Internacionais, porque é que o Estado mais rico da região apresenta vulnerabilidades marcantes?


1-   A população saudita (27 milhões) é significativamente menor do que as dos rivais que rondam todas os 80 milhões. Em termos de massa crítica, quer no potencial económico quer no militar, é um factor limitativo.

2-   Apesar das centenas de biliões de Dólares investidos em hardware militar, especialmente dos EUA, a capacidade militar saudita ainda se encontra uns patamares aquém da concorrência. Aqui o factor demográfico desempenha um papel, assim como o presumido fighting spirit (ou falta dele) das tropas e da população.

3-   A significativa minoria xiita, concentrada na Província Oriental (ver mapa infra) é uma vulnerabilidade e existem indícios que o Irão tenta fomentar a revolta dos xiitas, do mesmo modo que o faz no Bahrain. Acresce que esta província é muito rica em hidrocarbonetos.

4-   A política externa e de segurança saudita é tradicionalmente muito prudente e frequentemente reactiva. Num ambiente bastante agressivo e competitivo, onde potências rivais como o Irão não hesitam em recorrer à pressão, ao bluff, ao bullying, à ameaça, à desestabilização e à subversão, esta postura pode ser uma desvantagem, colocando Riyadh à mercê das movimentações dos rivais.

5-   Na linha do ponto anterior, a Arábia Saudita está habituada a pagar para resolver os problemas. Na década de 1980, financiou o Iraque para travar o avanço da Revolução Islâmica iraniana; em 1991 financiou o esforço de guerra aliado para expulsar os Iraquianos do Kuwait; na década passada financiava os insurgentes sunitas que, no Iraque, lutavam contra o emergente poder xiita; em 2011 gastaram dezenas de biliões de Dólares em apoios sociais para travar qualquer surto de “Primavera Árabe” no Reino; em 2012, financiam jihadistas para combater o regime alawita na Síria. Se, por um lado, é óptimo ter recursos financeiros to pay your way out of troubles, por outro lado, tal torna-se em algo muito mau quando a fonte do problema ou a solução para o mesmo, não são susceptíveis de serem influenciadas por pagamentos.

É, pois, nossa convicção que a Arábia Saudita será destas 4 potências a que menos probabilidades terá de se alcandorar a uma posição de domínio ou hegemonia no Médio Oriente. O motivo principal para tal será mesmo a falta de perfil do regime saudita para assumir tal papel. Se quisessemos definir o papel de excelência dos sauditas, esse seria o de éminence grise. Um país capaz e hábil a actuar nos bastidores, a aplicar o poder do seu dinheiro onde e quando necessário e possível e cortejando e coagindo a potência dominante (os Estados Unidos) a garantir a sua segurança. A isto acresce a manutenção do statu quo nos seus aliados mais próximos do GCC e a presença à mesa das negociações onde sejam discutidas e decididas as grandes questões regionais.

Em 5 palavras: importante e influente sim, dominante não.


A Província Oriental da Arábia Saudita: rica em petróleo e .... em Xiitas.