31 outubro, 2011

Projecto Europeu (?)

PROJECTO EUROPEU (?)




 O naufrágio do euro?
in “The Economist”, 29 de Outubro 2011

Andámos anos a ouvir louvar o chamado projecto europeu, a sua colegialidade e altruísmo, a forma como permitia que os pequenos tivessem a mesma voz que os grandes, etc, etc.

Quem destoava deste cenário idílico eram os maus dos Britânicos, ou de quando em vez uns Escandinavos mais assertivos, que pareciam sempre querer sabotar o tal projecto.

Nunca subscrevi esse cenário róseo, mas sempre me encontrei em (larga) minoria. Talvez por isso, não consigo deixar de sorrir com os gritos das virgens ofendidas quando há uns anos os líderes do Reino Unido, França, Alemanha e Itália combinaram uma cimeira a quatro à revelia dos parceiros menores. O mesmo acontece agora com a crise da zona euro (quase com 2 anos), com cimeiras a serem marcadas, desmarcadas e remarcadas ao sabor de Angela Merkel, e Nicolas Sarkozy enquanto os outros 15 papalvos fazem a figura do desesperado com dores de dentes, horas na sala de espera do dentista. Sim, porque as medidas supostamente tomadas para combater a crise são como nos arrancar os dentes.

A mim não me choca a manifestação de poder por parte de quem o tem (o que não quer dizer que me agrade). É a ordem natural das coisas, nomeadamente nas Relações Internacionais.

O que me aborrece é a cantiga da falsa fraternidade. Por que é que não assumem que cada Estado-Membro está na EU para defender e promover os seus interesses, mesmo que tal tenha custos para os parceiros?

Ainda pior são os Estados que não conseguem defender capazmente esses interesses e acham que vergando a cerviz aos poderosos é a melhor maneira de sair do buraco em que se meteram (cf. “O Eixo” em http://tempos-interessantes.blogspot.com/2011/08/o-eixo.html ).

Finalmente, ainda pior do que exercer o poder que se tem (Alemanha e França) é exercê-lo de forma incompetente, hesitante, ineficaz.

Isso traduz-se em incontáveis cimeiras inconsequentes, em fundos de resgate insuficientes para tranquilizar os mercados e acudir aos fogos presentes e aos previsíveis desta crise, na negação irracional do inevitável default grego (cf. “Falidos” em  http://tempos-interessantes.blogspot.com/2011/08/o-eixo.html escrito em 10 de Abril), mesmo que disfarçado de haircut voluntário, na aposta cega e unidireccional no combate aos deficits (sem negar a prioridade) apostando em aumentos da carga fiscal que afundam as economias e criam uma espiral negativa.

Em suma, estamos reféns. Reféns de uma dívida e de um déficite escandalosa e inadmissivelmente altos, fruto de incompetência criminosa própria. Estamos reféns de um Governo com palas que está determinado a resolver os seus problemas com o dinheiro e o sacrifício sem nexo dos cidadãos e das empresas. Finalmente, estamos reféns dos poderosos Alemães e dos influentes Franceses, que rivalizam na incompetência e na falta de visão e de capacidade de decisão.

Entretanto, o Projecto Europeu que na realidade era um Projecto Franco-Alemão e agora é um projecto Germano-Francês vai navegando à vista até ao iceberg final!

21 outubro, 2011

O Carrasco e o Coveiro

O CARRASCO E O COVEIRO


 
 O CARRASCO


E O COVEIRO


Um amigo meu, o Paulo, dizia há mais de um ano, que José Sócrates e Pedro Passos Coelho eram parecidos. Escusado acrescentar que ele não gostava nem de um, nem do outro.

Eu continuo a achar que Passos não é tão mau como Sócrates, mas o caminho que escolheu percorrer vai levá-lo a concluir o trabalho de Sócrates: um deu cabo do país; o outro, no afã (inepto) de o salvar, vai enterrá-lo…

11 outubro, 2011

A Madeira é um Jardim

A MADEIRA É UM JARDIM



O establishment dos comentadores políticos e económicos nacionais, cultores indefectíveis do politicamente correcto e que, consequentemente debita as verdades politicamente correctas de cada momento, odeia Alberto João Jardim.

Odeia-o porque ele é politicamente incorrecto, não lhes presta vassalagem, nem subserviência, aliás entretém-se a achincalhá-los e depois ainda tem o descaramento de ganhar eleições. Para ser mais exacto, ganha as eleições todas!

Alberto João Jardim


Devo dizer que não sou “Jardinista”. Não sou adepto do registo e não gosto das ocasionais e oportunistas tiradas anti-patrióticas e da linguagem vernacular. Mas reconheço-lhe qualidades. A qualidade de fazer obra e de ter modernizado a Madeira (sim, não gosto do buraco financeiro, mas a ele, pelo menos, corresponde muita obra visível e palpável, outros buracos há em troca dos quais não se vê coisa nenhuma). A qualidade de ser uma máquina de ganhar eleições. E a qualidade de dizer muitas verdades, das tais que arrepiam os comentadores instalados, que muito poucos ousam dizer.

Dito isto, dá um certo gozo ver a azia dos jornais ditos de referência no dia de ontem. O PSD e Jardim ganharam pela enésima vez com maioria absoluta na Madeira, mesmo perdendo votos e mandatos. O CDS conseguiu um resultado histórico (17%), mais do que triplicou a votação e tornou-se o 2º maior partido da Madeira. O PS levou um banho eleitoral, descendo para o 3º lugar. O PCP perdeu votos e ficou reduzido a 1 deputado. O BE foi varrido do mapa.

E quais foram os títulos dos jornais? “Público”: “Jardim obtém a mais pequena maioria de sempre na Madeira”. “Diário de Notícias”: “A vitória mais magra de jardim em 33 anos”. Ah, se a azia pagasse imposto….

Para um homem de direita como eu, dá-me uma enorme satisfação ver os resultados das eleições da Madeira: PSD em 1º com maioria; CDS em 2º. A esquerda socialista, stalinista e trotskista reduzida à expressão mais simples.

Em percentagem: Direita 66% - Esquerda 17%.

Em deputados: Direita  34 – Esquerda 7

A Madeira é mesmo um jardim!!!

07 outubro, 2011

Crato e Crasso

CRATO E CRASSO


O assunto não é novo. Mas ainda é recente e a indignação que me provocou faz com que ainda teça umas breves considerações sobre ele.

General Marco Crasso (115 A.C. – 53 A.C.), membro do Primeiro Triunvirato com Júlio César e Pompeu, morreu na Batalha de Carras, frente aos Partos, na qual cometeu uma série de erros….crassos.



O corte da componente monetária dos prémios de mérito aos alunos do ensino secundário é um erro crasso de Nuno Crato. Esta atitude tem várias componentes extremamente negativas:
1-   MESQUINHEZ – Num tempo de austeridade, mas em que ainda se vêm poucos cortes e muitos aumentos de receitas (impostos, taxas, preços), cortar um prémio que no seu total representaria umas dezenas de milhares de euros, é uma gestão à Tio Patinhas ou Ezbener Scrooge – unhas de fome, mesquinho e absolutamente inconsequente.
2-   ATAQUE AO MÉRITO – Ao transformar o prémio à excelência dos alunos num subsídio à escola para financiar projectos que “a todos” beneficiasse, Crato, consegue duas coisas: não faz nada relevante, pois 500 euros numa comunidade escolar significará pouco, e mostra aos alunos de mérito que o seu esforço resulta na “nacionalização” do prémio, distribuindo-o por todos, o excelente, os bons e os medíocres. Estes, continuarão a sê-lo, incentivados pela cultura estatal reinante do apoio ao coitadinho.
3-   CINISMO – Retirar o prémio 3 dias antes da entrega é cruel. Reduzir tudo a um problema de comunicação é desonesto e cínico. O mínimo que se esperaria do Ministro da Educação seria um pedido de desculpa e humildemente admitir o erro, repor o prémio e anunciar, se assim o entendesse, o cancelamento do mesmo para 2012.

Resumindo, foi um desastre total. Estes jovens de valor provavelmente estarão a pensar em que países é que o mérito é incentivado, valorizado e premiado e nós continuaremos a ser governados pelos niveladores por baixo, até porque a excelência pode sempre ser uma ameaça….para os medíocres.

30 setembro, 2011

NINE/ELEVEN

NINE/ELEVEN

 
O mundo mudou no dia 11 de Setembro de 2001.

De tantas vezes repetida, esta afirmação quase se tornou um cliché. Como nem tudo mudou, importa indagar o que realmente mudou. Eis algumas propostas:

RELAÇÕES INTERNACIONAIS
As Relações internacionais mudaram. A declaração de “War on Terror” de George W. Bush subverteu as prioridades internacionais. Passou-se da gestão algo indolente do pós-Guerra Fria para o frenesim da(s) guerra(s). E elas multiplicaram-se: Afeganistão, Iraque, Iémen, mas também EUA, Reino Unido, Espanha, Indonésia, Turquia, Arábia Saudita, Paquistão… As alianças também mudaram: a Rússia e a China apoiaram o ataque ao Afeganistão, enquanto que a Alemanha e a França se opuseram à invasão do Iraque.

Sucessivamente, o mundo unipolar atingiu o seu apogeu e começou o declínio. Este gerou o delírio dos “GG”. Ao G7 original, somou-se o G8, depois o G20 e já houve quem divisasse um G2. À revelia dos “GG”, a proliferação de WMD alastrou e a Coreia do Norte tornou-se a 9ª potência nuclear e o Irão aspira a ser a 10ª.

O refluxo das guerras, levou à sublimação da diplomacia, elevada de ferramenta a um fim em si mesma. Assiste-se a negociações que são agregados de monólogos, que prosseguem porque uns participantes não conseguem enfrentar as consequências do falhanço e outros beneficiam do arrastar destes exercícios fúteis.

GUERRA
Também ela mudou. Com a excepção da 1ª fase das Guerras do Afeganistão e do Iraque, os conflitos inter-estaduais deram lugar aos conflitos assimétricos, entre Estados e organizações sub-estaduais. Os carros de combate perderam protagonismo para os Humvees, os drones tornaram-se uma arma de eleição, as forças especiais “roubaram” espaço às grandes unidades de infantaria. Proteger/salvaguardar os inimigos civis tornou-se tão importante como destruir os inimigos armados. Constrói-se, investe-se, desenvolve-se ao mesmo tempo que se mata, bombardeia e destrói. Já não se conquista o país, tenta-se conquistar as boas graças dos habitantes (antigos conquistados). As agências que promovem a reconstrução são o braço civil das forças armadas e os militares são diplomatas cultivadores de boas vontades.

Ah! As guerras (quase) deixaram de ter vencedores e vencidos: “Os EUA não podem vencer os Taliban e estes não conseguem derrotar aqueles!” Já não há victory parades, declarações de guerra nem rendições. Até há guerras que não o são. Para Obama, por exemplo, os bombardeamentos americanos na Líbia não constituem actos de guerra!!!

Não obstante, na guerra original proclamada em 2001, the War on Terror, os avanços são significativos. Os serviços secretos e de inteligência dos principais países desenvolveram armas e competências para descobrir conspirações e meios para capturar ou liquidar os terroristas que não existiam de todo antes do 11 de Setembro. O resultado é o decapitamento quase completo da Al-Qaeda nuclear original, culminando com a morte do próprio Bin Laden.

INSEGURANÇA
Todos ficamos mais inseguros. Os alvos da Al-Qaeda em New York, Londres, ou Bali não eram políticos, militares, polícias, ou edifícios do Estado. Eram lugares públicos (edifícios de escritórios, metropolitanos, discotecas, aviões) e visavam cidadãos comuns na sua rotina diária. To da a gente se tornou um alvo potencial. Não por ser o Senhor X, mas por estar no local Y à hora H.

SEGURANÇA
Esse estado de insegurança motivado pela generalização dos alvos e pelo desconhecimento dos atacantes, conduziu inevitavelmente ao drástico incremento da segurança. Os controlos nos aeroportos tornaram-se intrusivos, os poderes das polícias aumentaram, as câmaras de vigilância tornaram-se omnipresentes, as escutas telefónicas e o controlo da Internet e dos e.mails multiplicaram-se. E, de facto, ficamos mais seguros. Há 6 anos que não acontece um atentado de grande dimensão no Ocidente. E não foi por falta de vontade e de tentativas.

LIBERDADE
O que se ganhou em segurança, ter-se-á perdido em liberdade e direitos. O conflito é antigo (já Hobbes considerava que a segurança acarretava um custo elevado em liberdade. É um trade-off inevitável em tempos de ameaças de elevado risco. O busílis reside no doseamento: calibrar os custos em liberdade com os riscos e os custos da ameaça. Compreende-se e aceita-se melhor câmaras de vigilância em Piccadilly Circus ou Times Square, do que no Largo da Oliveira, ou na Avenida dos Aliados. O risco é generalizado, mas não é repartido uniformemente.

À medida que a memória do Nine/Eleven se vai afastando, todas estas mudanças são interiorizadas e assimiladas e entram na normalidade. A mudança tem um prazo de validade muito curto: ao ser, já era.

O grande triunfo do post-NINE/ELEVEN é mesmo esse: ao contrário do que a Al-Qaeda almejava, life goes on. Os Britânicos mostraram-no de forma exemplar imediatamente a seguir ao atentados de Londres de 2005: adaptando-se aos novos constrangimentos, a vida prossegue. A memória do terror não desaparece, mas fica arrumada num canto…

11 setembro, 2011

Twin Towers

TWIN TOWERS

 New York City skyline, com as Twin Towers do World Trade Center em destaque.

As Twin Towers do World Trade Center em New York desapareceram do skyline de Manhattan há precisamente 10 anos, mas permanecerão sempre na memória e no imaginário de quem lá esteve, de quem as viu, mesmo que, como eu, apenas na televisão ou no cinema. Por isso as coloco aqui no Tempos Interessantes intactas. Como sempre as recordarei.
 

06 setembro, 2011

Atento, Venerador e Obrigado

ATENTO, VENERADOR E OBRIGADO


Pedro Passos Coelho, presentemente Primeiro-Ministro de Portugal, fez um périplo pela Europa Ocidental, sendo que a paragem que mereceu maior destaque foi a que fez em Berlim.

Ouvi-lo falar ao lado da Chanceler Angela Merkel, fez-me lembrar um episódio dos primórdios da nossa História: a deslocação de Egas Moniz e família à corte de D. Afonso VII de Leão, com a corda ao pescoço, por não ter sido capaz de honrar a palavra dada (que na realidade dependeria da vontade de D. Afonso Henriques e não da sua).
 
Egas Moniz em Toledo perante D. Afonso VII.
Painel de azulejos da Estação de S. Bento, no Porto.
 
Contudo, há duas grandes diferenças na atitude de Egas Moniz e de Passos Coelho:

1- Egas Moniz foi lavar a sua honra que tinha sido manchada. Passos Coelho foi colocar-se a ele e ao país que representa numa posição  servil de forma gratuita.

2- Egas Moniz ofereceu um sacrifício pessoal. Passos Coelho oferece os nossos sacrifícios para placar a fúria do Bundestag e dos Alemães.

Basicamente, Coelho agradeceu a Merkel o grande favor (???) que fez a Portugal, prometeu-lhe que ia fazer tudo o que ela quisesse, ao ponto de se empenhar em alterar a nossa (???) Constituição para lhe agradar.

Em troca, Merkel deixou cair alguns elogios e disse que queria que os Portugueses (e os outros) tivessem as mesmas regras que os Alemães (reformas, férias, impostos). A seguir devem vir os mesmos feriados e, quiçá, a mesma bandeira e a mesma língua!!!

Eu sei que também estamos com a corda ao pescoço, mas gostaria de ver um Primeiro-Ministro de Portugal digno e de cabeça levantada, em vez de um político atento, venerador e obrigado perante um poder maior.
 
P.S. Em Castelo de Vide, Passos Coelho fez duas declarações lamentáveis:

1- Que era de somenos que no final do mandato lhe agradecessem muito ou pouco. E que tal se não agradecêssemos nada? Ou julgará ele que temos de ser atentos, veneradores e obrigados com ele? Por acaso está a fazer algum jeito ou frete aos Portugueses?

2- Fez um aviso soturno de que não permitiria que se queimasse bens ou se praticasse vandalismo em nome do descontentamento. Ficou-lhe mal a ameaça. Primeiro, não precisa de anunciar que não tolerará vandalismo, pois é a sua obrigação; em segundo lugar, tresanda a manobra intimidatória prévia de quem receia constestação social que, diga-se, seria bem merecida para quem, ainda ontem, tratou de abrir caminho a novos assaltos fiscais aos Portugueses.





23 agosto, 2011

O Eixo


O EIXO



O Eixo (Berlim-Roma) não é uma designação que traga saudades (bem pelo contrário) na Europa.



Curiosamente, o segundo Eixo (antes Paris-Bonn, Berlim-Paris depois) parece gerar muito mais entusiasmo do que apreensão.

É evidente que este Eixo está muito distante, para melhor, do outro, mas francamente, encontro mito pouco de bom nesta parceria que, depois de uns anos de afrouxamento, vem arrogando novamente um direito de propriedade exclusiva da União Europeia.

Vem isto a propósito da recente cimeira Alemanha-França, na qual Angela Merkel e Nicholas Sarkozy decidiram que a zona euro vai passar a ter um governo (???) económico e que querem impor uma alteração constitucional aos restantes 15 parceiros (???). A petulância vai ao ponto de já terem seleccionado um cinzento Belga como chefe desse governo.

Este Eixo, tal como o outro, tem um forte pendor germânico e percebe-se uma vontade da Alemanha em assumir de forma inequívoca os cordelinhos económicos da EU, certamente para garantir os seus mercados de exportação, os créditos dos seus bancos e impor medidas que lhe sejam convenientes aos seus parceiros (???), como por exemplo, a subida do imposto sobre as empresas na Irlanda.



À França pouco mais restou do que entrar na locomotiva alemã para manter as aparências de co-liderança.
A primeira reacção do Governo de Portugal foi de um lamentável apoio entusiástico que roçou o servilismo. O facto de o país estar empobrecido não implica necessariamente perder a dignidade e o amor-próprio e vergar a cerviz. Nesse aspecto, honra lhe seja feita, Cavaco Silva objectou ao Diktat constitucional.




in “The Economist”

E assim segue a EU, aos repelões, balançando num eixo desequilibrado, atropelando soberanias, sem saber o que fazer ao euro, desastrada com os mercados, errática nos bailouts, atolada nas dívidas e nos déficites, sujeita aos humores da Chanceler e sem ideias claras para um novo rumo económico de efectivo sucesso.

22 agosto, 2011

Mais do Mesmo

MAIS DO MESMO


Neste mês de Agosto, esperava-se que o Governo apresentasse um blueprint dos famosos cortes de despesas prometidas na campanha eleitoral e repetidamente reiteradas durante o mês de Julho.

Quando o Ministro das Finanças, Vítor Gaspar, abriu a boca foi para.... anunciar um brutal aumento do IVA sobre a electricidade e o gás. A taxa do IVA quase TRIPLICOU de 6% para 23%!!! E como o sorvedouro estatal é imparável, a nova taxa entra em vigor já em Outubro deste ano.

O pretexto é o mesmo que levou o Governo a substituir o Pai Natal por um salteador: derrapagem nas contas públicas. Não sei qual é a razão da derrapagem, mas com a economia em contracção e com Passos & Gaspar a fugirem dos cortes na despesa, não é de espantar.

Seja como for, vai-se reforçando a ideia já antiga de muitos Portugueses: “São todos iguais! É mais do mesmo!”
Isto é brutal. Para além do custo exorbitante que tem na qualidade de vida (e na capacidade de sobrevivência) das pessoas e das famílias, é mais um golpe na credibilidade da Democracia Portuguesa.

O mais do mesmo é, neste caso, um sentimento bem merecido e, por isso mesmo, devastador.

É o mais do mesmo de fazer o mais fácil que é aumentar impostos, preços e taxas (em pouco mais de um mês já se regista aumentos de IRS, transportes públicos – até 25%!!!- e agora o IVA sobre produtos/serviços básicos).

É o mais do mesmo de poupar o sorvedouro público e penalizar ainda e sempre os cidadãos.

É o mais do mesmo de prometer uma coisa e fazer o seu contrário!

P.S. Pelo que disse o Professor Marcelo Rebelo de Sousa ontem na TVI, o Governo poderá estar a preparar-se para vançar com o projecto do TGV. A ser verdade, acentuar-se-á farsa política.

13 agosto, 2011

Vândalos em Londres

VÂNDALOS EM LONDRES


Vi, como toda a gente, as imagens dos distúrbios em Londres. Vi-as com um misto de horror, tristeza e nojo.

Horror perante a dimensão incontrolada da violência e destruição.
 
Tristeza perante a perda e a impotência de inocentes cidadãos que se viram empobrecidos e destituídos de forma gratuita e injustificada.

Nojo da horda de vândalos, desordeiros, arruaceiros, gangsters, que a pretexto de coisa nenhuma, deram livre curso à sua má índole, aos seus instintos criminosos, à sua má formação (??), à sua maldade e vilania.

Ignorando as explicações índole sociológica, que tudo justificam e todos desresponsabilizam quando se trata de energúmenos, sou da opinião que estas manifestações de vândalos devem ser duramente e rapidamente reprimidas à nascença, para tentar cortar o mal pela raiz. Não se pode aceitar que uma força policial tenha uma postura essencialmente passiva perante o descalabro da ordem pública.

Pelo contrário, as intervenções do Primeiro-Ministro David Cameron foram ao cerne do problema: exigiu responsabilização e severo castigo dos vândalos e firmeza à polícia. Aliás, quando o número de polícias aumentou e a sua postura mudou, os distúrbios esmoreceram no espaço de horas.

É incompreensível e indefensável um sistema judicial, uma postura policial, uma atitude social, que desculpabiliza e iliba os criminosos e pune pela indiferença e ausência de justiça as vítimas.

A cultura (de esquerda) do coitadinho do bandido e do bandido do polícia, condena-nos à insegurança e mantém-nos reféns dos vândalos e dos bandidos.

A firmeza da polícia não é confundível com a Gestapo ou o KGB. A polícia deve ter por máxima o respeito pelos cidadãos, mas tem como dever protegê-los. Tal exige, por vezes, o recurso à violência. Ela, a violência (legítima), é um monopólio do Estado e deve ser usada para manter a ordem pública e a segurança dos cidadãos cumpridores.

Se essa segurança não for garantida, rompe-se (mais) um dos compromissos sagrados do Estado perante os cidadãos e dá-se mais um passo na direcção da ruptura desse vínculo. Então, teremos regressado ao ponto de partida de Thomas Hobbes: o estado natureza, onde é vigente a lei da selva.

P.S. Sobre esta temática, ver também "Roma e os Bárbaros" em http://tempos-interessantes.blogspot.com/2010/12/roma-e-os-barbaros.html

11 agosto, 2011

As Gémeas


AS GÉMEAS

 

 

Na realidade não são gémeas. A brincar, digo que são as minhas quase-Gémeas, porque nasceram a 29 de Julho (a Sofia) e a 1 de Agosto (a Sara). Ou seja, a Sofia nasceu em 2007 e fez 4 anos há duas semanas e a Sara nasceu em 2009 e fez 2 anos na semana passada.
 
O que importa é que são as minhas duas Bebés, são lindas e eu sou um Pai tremendamente babado.
 



25 julho, 2011

O Grito em Oslo

O GRITO EM OSLO


O Grito (1893) de Edvard Munch.




O Grito é a obra mais conhecida do pintor norueguês Edvard Munch (1863-1944) e retrata uma situação limite de desespero.

Sendo uma obra de um pintor da Noruega, retratando uma doca de Oslo, e uma cena de desespero, parece-me a imagem mais adequada para retratar um post sobre o mais mortífero (93 mortos até ao momento) atentado na Europa desde 2005.

É uma evidência que o radicalismo islâmico é, actualmente, o mais organizado, empenhado, seguido e, consequentemente, o mais perigoso e letal

Não obstante, o facto de o duplo atentado na Noruega ter sido da autoria de um extremista cristão, e não dos habituais radicais islâmicos, vem demonstrar que o problema, a ameaça, ao nível da segurança, provêm dos extremismos, seja qual for a sua proveniência.

Além de combater de forma implacável os extremismos violentos, seja qual for a sua proveniência e motivação, é também importante resolver os problemas que lhes subjazem. E a imigração, a intolerância religiosa e a coabitação inter-cultural estão na linha da frente desse desafio. Ignorá-los, ou manter as estafadas abordagens politicamente correctas, é o mesmo que enfiar a cabeça na areia.

14 julho, 2011

The Moody's Blues

THE MOODY'S BLUES


Numa altura em que a mood dos Portugueses anda muito mal, poderia dizer que andamos com os blues, pensei que uma boa música que junta os dois conceitos - Moody Blues - poderia animar um pouco os espíritos.

Enquanto que não abre a época da caça ao coelho (ainda sem segunso sentido), abriu em Portugal a caça à Moody’s.

É evidente que não fiquei contente com o downgrade da dívida soberana portuguesa para junk, seguindo os passos da Grécia e seguido, poucos dias depois, da Irlanda. Escusado será dizer que não tenho qualquer interesse pessoal no sucesso ou insucesso desta ou de qualquer outra agência de rating.

Isto para dizer que me parece um pouco surreal a demonização da Moody’s em Portugal, com o argumento que esta agência (mais a Standard & Poor’s e a Fichte) visam destruir o euro.
Embora não me pareça que tenha havido novidades que justificassem a descida do rating de Portugal, a realidade é que Portugal está num fosso de difícil saída, como o próprio Primeiro-Ministro vai apregoando para justificar o novo assalto à carteira dos Portugueses. E se as finanças públicas portuguesas se encontram no estado desgraçado em que estão, não é devido à Moody’s, mas sim a vários governos que foram gastando este mundo e o outro.
 
As agências de rating são empresas comerciais, que estão no mercado e que querem ter lucro. Para terem lucro, precisam de credibilidade. Se deixarem de a ter, perdem clientes e podem fechar. Pode dizer-se que a Moody’s perdeu credibilidade em Portugal e por isso começou a perder clientes (mais por motivos políticos do que outros). Não consta, contudo, que os começasse a perder nos EUA, no Reino Unido, na Alemanha, ou no Japão. Certamente porque esses clientes continuam a acreditar nas avaliações que a Moody’s faz.

Em Portugal e na EU foi o desvario. Cavaco Silva, olimpicamente indiferente aos crónicos e descarados desvios aos programas eleitorais, escandalizou-se e tentou (sem sucesso) mobilizar os Chefes de Estado dos 27 em defesa do euro e no ataque as agências de rating. Dois comissários europeus queriam impor proibições à actuação das agências na Europa (como se tal fosse possível). Outros, do PS ao BE, advogaram a criação de uma agência de rating europeia, no espírito que “se é nossa, só vai dizer bem de nós!” E assim poderíamos, quiçá, guindarmo-nos a AAA+++ sem ter sequer de atacar a dívida e o deficit.

Entretanto, a anti-europeia Moody’s, anunciou uma eventual revisão em baixa do rating dos Estados Unidos (AAA), dada a crise orçamental que se avizinha (em 2 de Agosto os EUA entrarão em incumprimento e os serviços do Estado fecharão, se não for elevado o plafond de endividamento federal). Este anúncio segue-se a um idêntico da Standard & Poor’s.
Trata-se, seguramente, de uma manobra de diversão do tal esquema tenebroso de tramar Portugal para rebentar com o euro! Como diria o Eça, não há pachorra!

01 julho, 2011

Outro Mentiroso

OUTRO MENTIROSO


Nem foi preciso um mês. Bastaram 25 dias para Pedro Passos Coelho mentisse descaradamente ao eleitorado. A história é a de sempre: as coisas estavam pior do que pensávamos bla bla bla, é um imperativo nacional bla bla bla, é um último sacrifício que vai valer a pena bla bla bla.

Pois. Passos Coelho ignorava as exigências da Troika em termos de objectivos, desconhecia o estado das contas públicas e, se calhar, até pensava que ia ser Primeiro-Ministro da Noruega ou da Suíça.

O facto é que se continua a recorrer à mentira para ganhar eleições. Ainda em Abril, Passos Coelho rotulava de “disparates” os rumores de que iria cortar no subsídio de Natal. Também disse mais do que uma vez que, se tivesse absoluta necessidade de aumentar impostos preferia fazê-lo com os impostos sobre o consumo (IVA) do que sobre os do rendimento (IRS, IRC). MENTIRA!
 
O outro facto relevante é que continua a roubalheira. Por muitas promessas e intenções que tenha de reduzir o peso, a presença e o custo do Estado, também Coelho não resistiu a assaltar os Portugueses, 13 meses depois de ter sido cúmplice de Sócrates noutro assalto. VERGONHA!

Eu não acredito que os políticos e os partidos são todos iguais (entenda-se igualmente maus), mas perante a repetição do padrão de mentira e do continuado esbulho das magras poupanças dos Portugueses, não se pode recriminar quem assim pense.

O ano passado Passos Coelho pediu desculpa por ter mentido. Este ano limitou-se a pedir (exigir) dinheiro. Dentro de 4 anos virá pedir votos. Se não arrepiar caminho drasticamente, espero que ninguém lhos dê.

26 junho, 2011

Guerra e Eleitoralismo

GUERRA E ELEITORALISMO


Depois de muita especulação (como é habitual), Barack Obama deu a conhecer o como e o quando do fim do surge – o aumento de 33.000 tropas dos EUA no Afeganistão que decidiu fazer em Dezembro de 2009.

Como se sabe, já nessa altura Obama anunciou que em Julho de 2011 começaria a retirar os reforços que então começava a enviar. Tal era uma péssima ideia como tive ocasião de referir na altura em “It’s 3 A.M. and the Red Phone Rings” ( http://tempos-interessantes.blogspot.com/2009_12_01_archive.html ) :

Francamente negativo foi o anúncio de um deadline de 18 meses para iniciar a retirada. Supostamente, para pressionar o governo afegão a arrepiar caminho e para dar tempo ao novel exército afegão para assumir o grosso da luta contra os Taliban. Na realidade, o factor principal foi a vontade que Obama tem de fugir a sete pés do Afeganistão e a necessidade de dar um rebuçado à ala pacifista maioritária no Partido Democrata, à qual pertence. Falta a Obama o fighting spirit e a consciência geopolítica de que o poder e a disponibilidade para o usar ainda são factores incontornáveis nas Relações Internacionais.
 
Dentro de 18 meses, o exército afegão ainda não terá a dimensão e a capacidade para arcar autonomamente com o esforço de guerra. Pior do que isso, é que os Taliban e a Al-Qaeda também vêem e lêem as notícias e sabem que lhes basta resistir durante 18 meses e esperar que o inimigo comece a fazer as malas. Então sim, o espírito de Saigão poderá voltar para assombrar a Casa Branca, poderá não haver margem para gastar mais uns meses a deliberar e a escolha poderá ser apenas entre a derrota total e o reforço maciço de tropas. Por outras palavras, um beco sem saída. É evidente que os 18 meses não são inocentes: para além de placar o Partido Democrata, em Julho de 2011 estar-se-á a 16 meses das eleições presidenciais norte-americanas e Obama quer retirar as tropas do Afeganistão a tempo de o Afeganistão sair da mente e da memória do eleitorado, ou seja, a prioridade é vencer em 2012; a guerra está em segundo plano.

Dito e feito. 10.000 soldados retiram até ao final deste ano e os restantes 23.000 deixam o Afeganistão até Setembro de 2012. De pouco serviu que as chefias militares solicitassem que o grosso dos 33.000 ficassem até ao final de 2012, permitindo que estivessem mais dois ciclos de guerra (Primavera-Outono) no terreno, consolidando os progressos obtidos até agora.

Aliás, já há meses que conselheiros civis do Presidente (leia-se assessores de campanha) que era impensável que estas tropas permanecessem no teatro de guerra até ao final de 2012. Como já era previsível há 18 meses atrás, o importante era ter as tropas nos Estados Unidos antes das eleições. Já se sabe, também, que para Obama a prioridade é “Me first!”. Longe vão os tempos em que o Afeganistão era a guerra que valia a pena combater e ganhar. Essa era a altura de angariar votos. A guerra é a mesma, a necessidade de angariar votos também, só mudou a estratégia eleitoral para os obter.
 
A morte de Osama Bin Laden tem sido apontada off the record como uma das motivações para acelerar a retirada do Afeganistão. É o conto do vigário. A eliminação de Bin Laden foi muito importante pelo carácter simbólico de que se revestiu:
 
… a morte de Bin Laden é uma grande vitória pelo valor simbólico que tem. No Ocidente, o alívio e alegria pelo desaparecimento do rosto da maligna organização, que na mente de muitos se confundia com a própria organização. Para os islamitas radicais é o oposto: desaparece o líder, a referência, o fundador, a figura reverencial e consensual. (in “A Morte da Besta” at
http://tempos-interessantes.blogspot.com/2011/05/morte-da-besta.html
No entanto, a sua relevância operacional era muito reduzida. Ou seja, a sua liquidação não altera no curto prazo a realidade no teatro de guerra afegão. Fazer o link entre a morte de Osama e a conclusão da Guerra no Afeganistão é demagogia grosseira.
Enquanto a condução de uma guerra for fluindo ao sabor dos interesses eleitorais conjunturais de um Presidente, é óbvio que os superiores interesses políticos e geoestratégicos dos Estados Unidos são relegados para segundo plano, seja no Afeganistão, no Médio Oriente ou na Europa. Com este Presidente, assim será.

Post Scriptum: A postura de Obama nas questões do Médio Oriente tem sido diferente, mas disso trataremos noutro post.