07 outubro, 2011

Crato e Crasso

CRATO E CRASSO


O assunto não é novo. Mas ainda é recente e a indignação que me provocou faz com que ainda teça umas breves considerações sobre ele.

General Marco Crasso (115 A.C. – 53 A.C.), membro do Primeiro Triunvirato com Júlio César e Pompeu, morreu na Batalha de Carras, frente aos Partos, na qual cometeu uma série de erros….crassos.



O corte da componente monetária dos prémios de mérito aos alunos do ensino secundário é um erro crasso de Nuno Crato. Esta atitude tem várias componentes extremamente negativas:
1-   MESQUINHEZ – Num tempo de austeridade, mas em que ainda se vêm poucos cortes e muitos aumentos de receitas (impostos, taxas, preços), cortar um prémio que no seu total representaria umas dezenas de milhares de euros, é uma gestão à Tio Patinhas ou Ezbener Scrooge – unhas de fome, mesquinho e absolutamente inconsequente.
2-   ATAQUE AO MÉRITO – Ao transformar o prémio à excelência dos alunos num subsídio à escola para financiar projectos que “a todos” beneficiasse, Crato, consegue duas coisas: não faz nada relevante, pois 500 euros numa comunidade escolar significará pouco, e mostra aos alunos de mérito que o seu esforço resulta na “nacionalização” do prémio, distribuindo-o por todos, o excelente, os bons e os medíocres. Estes, continuarão a sê-lo, incentivados pela cultura estatal reinante do apoio ao coitadinho.
3-   CINISMO – Retirar o prémio 3 dias antes da entrega é cruel. Reduzir tudo a um problema de comunicação é desonesto e cínico. O mínimo que se esperaria do Ministro da Educação seria um pedido de desculpa e humildemente admitir o erro, repor o prémio e anunciar, se assim o entendesse, o cancelamento do mesmo para 2012.

Resumindo, foi um desastre total. Estes jovens de valor provavelmente estarão a pensar em que países é que o mérito é incentivado, valorizado e premiado e nós continuaremos a ser governados pelos niveladores por baixo, até porque a excelência pode sempre ser uma ameaça….para os medíocres.

30 setembro, 2011

NINE/ELEVEN

NINE/ELEVEN

 
O mundo mudou no dia 11 de Setembro de 2001.

De tantas vezes repetida, esta afirmação quase se tornou um cliché. Como nem tudo mudou, importa indagar o que realmente mudou. Eis algumas propostas:

RELAÇÕES INTERNACIONAIS
As Relações internacionais mudaram. A declaração de “War on Terror” de George W. Bush subverteu as prioridades internacionais. Passou-se da gestão algo indolente do pós-Guerra Fria para o frenesim da(s) guerra(s). E elas multiplicaram-se: Afeganistão, Iraque, Iémen, mas também EUA, Reino Unido, Espanha, Indonésia, Turquia, Arábia Saudita, Paquistão… As alianças também mudaram: a Rússia e a China apoiaram o ataque ao Afeganistão, enquanto que a Alemanha e a França se opuseram à invasão do Iraque.

Sucessivamente, o mundo unipolar atingiu o seu apogeu e começou o declínio. Este gerou o delírio dos “GG”. Ao G7 original, somou-se o G8, depois o G20 e já houve quem divisasse um G2. À revelia dos “GG”, a proliferação de WMD alastrou e a Coreia do Norte tornou-se a 9ª potência nuclear e o Irão aspira a ser a 10ª.

O refluxo das guerras, levou à sublimação da diplomacia, elevada de ferramenta a um fim em si mesma. Assiste-se a negociações que são agregados de monólogos, que prosseguem porque uns participantes não conseguem enfrentar as consequências do falhanço e outros beneficiam do arrastar destes exercícios fúteis.

GUERRA
Também ela mudou. Com a excepção da 1ª fase das Guerras do Afeganistão e do Iraque, os conflitos inter-estaduais deram lugar aos conflitos assimétricos, entre Estados e organizações sub-estaduais. Os carros de combate perderam protagonismo para os Humvees, os drones tornaram-se uma arma de eleição, as forças especiais “roubaram” espaço às grandes unidades de infantaria. Proteger/salvaguardar os inimigos civis tornou-se tão importante como destruir os inimigos armados. Constrói-se, investe-se, desenvolve-se ao mesmo tempo que se mata, bombardeia e destrói. Já não se conquista o país, tenta-se conquistar as boas graças dos habitantes (antigos conquistados). As agências que promovem a reconstrução são o braço civil das forças armadas e os militares são diplomatas cultivadores de boas vontades.

Ah! As guerras (quase) deixaram de ter vencedores e vencidos: “Os EUA não podem vencer os Taliban e estes não conseguem derrotar aqueles!” Já não há victory parades, declarações de guerra nem rendições. Até há guerras que não o são. Para Obama, por exemplo, os bombardeamentos americanos na Líbia não constituem actos de guerra!!!

Não obstante, na guerra original proclamada em 2001, the War on Terror, os avanços são significativos. Os serviços secretos e de inteligência dos principais países desenvolveram armas e competências para descobrir conspirações e meios para capturar ou liquidar os terroristas que não existiam de todo antes do 11 de Setembro. O resultado é o decapitamento quase completo da Al-Qaeda nuclear original, culminando com a morte do próprio Bin Laden.

INSEGURANÇA
Todos ficamos mais inseguros. Os alvos da Al-Qaeda em New York, Londres, ou Bali não eram políticos, militares, polícias, ou edifícios do Estado. Eram lugares públicos (edifícios de escritórios, metropolitanos, discotecas, aviões) e visavam cidadãos comuns na sua rotina diária. To da a gente se tornou um alvo potencial. Não por ser o Senhor X, mas por estar no local Y à hora H.

SEGURANÇA
Esse estado de insegurança motivado pela generalização dos alvos e pelo desconhecimento dos atacantes, conduziu inevitavelmente ao drástico incremento da segurança. Os controlos nos aeroportos tornaram-se intrusivos, os poderes das polícias aumentaram, as câmaras de vigilância tornaram-se omnipresentes, as escutas telefónicas e o controlo da Internet e dos e.mails multiplicaram-se. E, de facto, ficamos mais seguros. Há 6 anos que não acontece um atentado de grande dimensão no Ocidente. E não foi por falta de vontade e de tentativas.

LIBERDADE
O que se ganhou em segurança, ter-se-á perdido em liberdade e direitos. O conflito é antigo (já Hobbes considerava que a segurança acarretava um custo elevado em liberdade. É um trade-off inevitável em tempos de ameaças de elevado risco. O busílis reside no doseamento: calibrar os custos em liberdade com os riscos e os custos da ameaça. Compreende-se e aceita-se melhor câmaras de vigilância em Piccadilly Circus ou Times Square, do que no Largo da Oliveira, ou na Avenida dos Aliados. O risco é generalizado, mas não é repartido uniformemente.

À medida que a memória do Nine/Eleven se vai afastando, todas estas mudanças são interiorizadas e assimiladas e entram na normalidade. A mudança tem um prazo de validade muito curto: ao ser, já era.

O grande triunfo do post-NINE/ELEVEN é mesmo esse: ao contrário do que a Al-Qaeda almejava, life goes on. Os Britânicos mostraram-no de forma exemplar imediatamente a seguir ao atentados de Londres de 2005: adaptando-se aos novos constrangimentos, a vida prossegue. A memória do terror não desaparece, mas fica arrumada num canto…

11 setembro, 2011

Twin Towers

TWIN TOWERS

 New York City skyline, com as Twin Towers do World Trade Center em destaque.

As Twin Towers do World Trade Center em New York desapareceram do skyline de Manhattan há precisamente 10 anos, mas permanecerão sempre na memória e no imaginário de quem lá esteve, de quem as viu, mesmo que, como eu, apenas na televisão ou no cinema. Por isso as coloco aqui no Tempos Interessantes intactas. Como sempre as recordarei.
 

06 setembro, 2011

Atento, Venerador e Obrigado

ATENTO, VENERADOR E OBRIGADO


Pedro Passos Coelho, presentemente Primeiro-Ministro de Portugal, fez um périplo pela Europa Ocidental, sendo que a paragem que mereceu maior destaque foi a que fez em Berlim.

Ouvi-lo falar ao lado da Chanceler Angela Merkel, fez-me lembrar um episódio dos primórdios da nossa História: a deslocação de Egas Moniz e família à corte de D. Afonso VII de Leão, com a corda ao pescoço, por não ter sido capaz de honrar a palavra dada (que na realidade dependeria da vontade de D. Afonso Henriques e não da sua).
 
Egas Moniz em Toledo perante D. Afonso VII.
Painel de azulejos da Estação de S. Bento, no Porto.
 
Contudo, há duas grandes diferenças na atitude de Egas Moniz e de Passos Coelho:

1- Egas Moniz foi lavar a sua honra que tinha sido manchada. Passos Coelho foi colocar-se a ele e ao país que representa numa posição  servil de forma gratuita.

2- Egas Moniz ofereceu um sacrifício pessoal. Passos Coelho oferece os nossos sacrifícios para placar a fúria do Bundestag e dos Alemães.

Basicamente, Coelho agradeceu a Merkel o grande favor (???) que fez a Portugal, prometeu-lhe que ia fazer tudo o que ela quisesse, ao ponto de se empenhar em alterar a nossa (???) Constituição para lhe agradar.

Em troca, Merkel deixou cair alguns elogios e disse que queria que os Portugueses (e os outros) tivessem as mesmas regras que os Alemães (reformas, férias, impostos). A seguir devem vir os mesmos feriados e, quiçá, a mesma bandeira e a mesma língua!!!

Eu sei que também estamos com a corda ao pescoço, mas gostaria de ver um Primeiro-Ministro de Portugal digno e de cabeça levantada, em vez de um político atento, venerador e obrigado perante um poder maior.
 
P.S. Em Castelo de Vide, Passos Coelho fez duas declarações lamentáveis:

1- Que era de somenos que no final do mandato lhe agradecessem muito ou pouco. E que tal se não agradecêssemos nada? Ou julgará ele que temos de ser atentos, veneradores e obrigados com ele? Por acaso está a fazer algum jeito ou frete aos Portugueses?

2- Fez um aviso soturno de que não permitiria que se queimasse bens ou se praticasse vandalismo em nome do descontentamento. Ficou-lhe mal a ameaça. Primeiro, não precisa de anunciar que não tolerará vandalismo, pois é a sua obrigação; em segundo lugar, tresanda a manobra intimidatória prévia de quem receia constestação social que, diga-se, seria bem merecida para quem, ainda ontem, tratou de abrir caminho a novos assaltos fiscais aos Portugueses.





23 agosto, 2011

O Eixo


O EIXO



O Eixo (Berlim-Roma) não é uma designação que traga saudades (bem pelo contrário) na Europa.



Curiosamente, o segundo Eixo (antes Paris-Bonn, Berlim-Paris depois) parece gerar muito mais entusiasmo do que apreensão.

É evidente que este Eixo está muito distante, para melhor, do outro, mas francamente, encontro mito pouco de bom nesta parceria que, depois de uns anos de afrouxamento, vem arrogando novamente um direito de propriedade exclusiva da União Europeia.

Vem isto a propósito da recente cimeira Alemanha-França, na qual Angela Merkel e Nicholas Sarkozy decidiram que a zona euro vai passar a ter um governo (???) económico e que querem impor uma alteração constitucional aos restantes 15 parceiros (???). A petulância vai ao ponto de já terem seleccionado um cinzento Belga como chefe desse governo.

Este Eixo, tal como o outro, tem um forte pendor germânico e percebe-se uma vontade da Alemanha em assumir de forma inequívoca os cordelinhos económicos da EU, certamente para garantir os seus mercados de exportação, os créditos dos seus bancos e impor medidas que lhe sejam convenientes aos seus parceiros (???), como por exemplo, a subida do imposto sobre as empresas na Irlanda.



À França pouco mais restou do que entrar na locomotiva alemã para manter as aparências de co-liderança.
A primeira reacção do Governo de Portugal foi de um lamentável apoio entusiástico que roçou o servilismo. O facto de o país estar empobrecido não implica necessariamente perder a dignidade e o amor-próprio e vergar a cerviz. Nesse aspecto, honra lhe seja feita, Cavaco Silva objectou ao Diktat constitucional.




in “The Economist”

E assim segue a EU, aos repelões, balançando num eixo desequilibrado, atropelando soberanias, sem saber o que fazer ao euro, desastrada com os mercados, errática nos bailouts, atolada nas dívidas e nos déficites, sujeita aos humores da Chanceler e sem ideias claras para um novo rumo económico de efectivo sucesso.

22 agosto, 2011

Mais do Mesmo

MAIS DO MESMO


Neste mês de Agosto, esperava-se que o Governo apresentasse um blueprint dos famosos cortes de despesas prometidas na campanha eleitoral e repetidamente reiteradas durante o mês de Julho.

Quando o Ministro das Finanças, Vítor Gaspar, abriu a boca foi para.... anunciar um brutal aumento do IVA sobre a electricidade e o gás. A taxa do IVA quase TRIPLICOU de 6% para 23%!!! E como o sorvedouro estatal é imparável, a nova taxa entra em vigor já em Outubro deste ano.

O pretexto é o mesmo que levou o Governo a substituir o Pai Natal por um salteador: derrapagem nas contas públicas. Não sei qual é a razão da derrapagem, mas com a economia em contracção e com Passos & Gaspar a fugirem dos cortes na despesa, não é de espantar.

Seja como for, vai-se reforçando a ideia já antiga de muitos Portugueses: “São todos iguais! É mais do mesmo!”
Isto é brutal. Para além do custo exorbitante que tem na qualidade de vida (e na capacidade de sobrevivência) das pessoas e das famílias, é mais um golpe na credibilidade da Democracia Portuguesa.

O mais do mesmo é, neste caso, um sentimento bem merecido e, por isso mesmo, devastador.

É o mais do mesmo de fazer o mais fácil que é aumentar impostos, preços e taxas (em pouco mais de um mês já se regista aumentos de IRS, transportes públicos – até 25%!!!- e agora o IVA sobre produtos/serviços básicos).

É o mais do mesmo de poupar o sorvedouro público e penalizar ainda e sempre os cidadãos.

É o mais do mesmo de prometer uma coisa e fazer o seu contrário!

P.S. Pelo que disse o Professor Marcelo Rebelo de Sousa ontem na TVI, o Governo poderá estar a preparar-se para vançar com o projecto do TGV. A ser verdade, acentuar-se-á farsa política.

13 agosto, 2011

Vândalos em Londres

VÂNDALOS EM LONDRES


Vi, como toda a gente, as imagens dos distúrbios em Londres. Vi-as com um misto de horror, tristeza e nojo.

Horror perante a dimensão incontrolada da violência e destruição.
 
Tristeza perante a perda e a impotência de inocentes cidadãos que se viram empobrecidos e destituídos de forma gratuita e injustificada.

Nojo da horda de vândalos, desordeiros, arruaceiros, gangsters, que a pretexto de coisa nenhuma, deram livre curso à sua má índole, aos seus instintos criminosos, à sua má formação (??), à sua maldade e vilania.

Ignorando as explicações índole sociológica, que tudo justificam e todos desresponsabilizam quando se trata de energúmenos, sou da opinião que estas manifestações de vândalos devem ser duramente e rapidamente reprimidas à nascença, para tentar cortar o mal pela raiz. Não se pode aceitar que uma força policial tenha uma postura essencialmente passiva perante o descalabro da ordem pública.

Pelo contrário, as intervenções do Primeiro-Ministro David Cameron foram ao cerne do problema: exigiu responsabilização e severo castigo dos vândalos e firmeza à polícia. Aliás, quando o número de polícias aumentou e a sua postura mudou, os distúrbios esmoreceram no espaço de horas.

É incompreensível e indefensável um sistema judicial, uma postura policial, uma atitude social, que desculpabiliza e iliba os criminosos e pune pela indiferença e ausência de justiça as vítimas.

A cultura (de esquerda) do coitadinho do bandido e do bandido do polícia, condena-nos à insegurança e mantém-nos reféns dos vândalos e dos bandidos.

A firmeza da polícia não é confundível com a Gestapo ou o KGB. A polícia deve ter por máxima o respeito pelos cidadãos, mas tem como dever protegê-los. Tal exige, por vezes, o recurso à violência. Ela, a violência (legítima), é um monopólio do Estado e deve ser usada para manter a ordem pública e a segurança dos cidadãos cumpridores.

Se essa segurança não for garantida, rompe-se (mais) um dos compromissos sagrados do Estado perante os cidadãos e dá-se mais um passo na direcção da ruptura desse vínculo. Então, teremos regressado ao ponto de partida de Thomas Hobbes: o estado natureza, onde é vigente a lei da selva.

P.S. Sobre esta temática, ver também "Roma e os Bárbaros" em http://tempos-interessantes.blogspot.com/2010/12/roma-e-os-barbaros.html

11 agosto, 2011

As Gémeas


AS GÉMEAS

 

 

Na realidade não são gémeas. A brincar, digo que são as minhas quase-Gémeas, porque nasceram a 29 de Julho (a Sofia) e a 1 de Agosto (a Sara). Ou seja, a Sofia nasceu em 2007 e fez 4 anos há duas semanas e a Sara nasceu em 2009 e fez 2 anos na semana passada.
 
O que importa é que são as minhas duas Bebés, são lindas e eu sou um Pai tremendamente babado.
 



25 julho, 2011

O Grito em Oslo

O GRITO EM OSLO


O Grito (1893) de Edvard Munch.




O Grito é a obra mais conhecida do pintor norueguês Edvard Munch (1863-1944) e retrata uma situação limite de desespero.

Sendo uma obra de um pintor da Noruega, retratando uma doca de Oslo, e uma cena de desespero, parece-me a imagem mais adequada para retratar um post sobre o mais mortífero (93 mortos até ao momento) atentado na Europa desde 2005.

É uma evidência que o radicalismo islâmico é, actualmente, o mais organizado, empenhado, seguido e, consequentemente, o mais perigoso e letal

Não obstante, o facto de o duplo atentado na Noruega ter sido da autoria de um extremista cristão, e não dos habituais radicais islâmicos, vem demonstrar que o problema, a ameaça, ao nível da segurança, provêm dos extremismos, seja qual for a sua proveniência.

Além de combater de forma implacável os extremismos violentos, seja qual for a sua proveniência e motivação, é também importante resolver os problemas que lhes subjazem. E a imigração, a intolerância religiosa e a coabitação inter-cultural estão na linha da frente desse desafio. Ignorá-los, ou manter as estafadas abordagens politicamente correctas, é o mesmo que enfiar a cabeça na areia.

14 julho, 2011

The Moody's Blues

THE MOODY'S BLUES


Numa altura em que a mood dos Portugueses anda muito mal, poderia dizer que andamos com os blues, pensei que uma boa música que junta os dois conceitos - Moody Blues - poderia animar um pouco os espíritos.

Enquanto que não abre a época da caça ao coelho (ainda sem segunso sentido), abriu em Portugal a caça à Moody’s.

É evidente que não fiquei contente com o downgrade da dívida soberana portuguesa para junk, seguindo os passos da Grécia e seguido, poucos dias depois, da Irlanda. Escusado será dizer que não tenho qualquer interesse pessoal no sucesso ou insucesso desta ou de qualquer outra agência de rating.

Isto para dizer que me parece um pouco surreal a demonização da Moody’s em Portugal, com o argumento que esta agência (mais a Standard & Poor’s e a Fichte) visam destruir o euro.
Embora não me pareça que tenha havido novidades que justificassem a descida do rating de Portugal, a realidade é que Portugal está num fosso de difícil saída, como o próprio Primeiro-Ministro vai apregoando para justificar o novo assalto à carteira dos Portugueses. E se as finanças públicas portuguesas se encontram no estado desgraçado em que estão, não é devido à Moody’s, mas sim a vários governos que foram gastando este mundo e o outro.
 
As agências de rating são empresas comerciais, que estão no mercado e que querem ter lucro. Para terem lucro, precisam de credibilidade. Se deixarem de a ter, perdem clientes e podem fechar. Pode dizer-se que a Moody’s perdeu credibilidade em Portugal e por isso começou a perder clientes (mais por motivos políticos do que outros). Não consta, contudo, que os começasse a perder nos EUA, no Reino Unido, na Alemanha, ou no Japão. Certamente porque esses clientes continuam a acreditar nas avaliações que a Moody’s faz.

Em Portugal e na EU foi o desvario. Cavaco Silva, olimpicamente indiferente aos crónicos e descarados desvios aos programas eleitorais, escandalizou-se e tentou (sem sucesso) mobilizar os Chefes de Estado dos 27 em defesa do euro e no ataque as agências de rating. Dois comissários europeus queriam impor proibições à actuação das agências na Europa (como se tal fosse possível). Outros, do PS ao BE, advogaram a criação de uma agência de rating europeia, no espírito que “se é nossa, só vai dizer bem de nós!” E assim poderíamos, quiçá, guindarmo-nos a AAA+++ sem ter sequer de atacar a dívida e o deficit.

Entretanto, a anti-europeia Moody’s, anunciou uma eventual revisão em baixa do rating dos Estados Unidos (AAA), dada a crise orçamental que se avizinha (em 2 de Agosto os EUA entrarão em incumprimento e os serviços do Estado fecharão, se não for elevado o plafond de endividamento federal). Este anúncio segue-se a um idêntico da Standard & Poor’s.
Trata-se, seguramente, de uma manobra de diversão do tal esquema tenebroso de tramar Portugal para rebentar com o euro! Como diria o Eça, não há pachorra!

01 julho, 2011

Outro Mentiroso

OUTRO MENTIROSO


Nem foi preciso um mês. Bastaram 25 dias para Pedro Passos Coelho mentisse descaradamente ao eleitorado. A história é a de sempre: as coisas estavam pior do que pensávamos bla bla bla, é um imperativo nacional bla bla bla, é um último sacrifício que vai valer a pena bla bla bla.

Pois. Passos Coelho ignorava as exigências da Troika em termos de objectivos, desconhecia o estado das contas públicas e, se calhar, até pensava que ia ser Primeiro-Ministro da Noruega ou da Suíça.

O facto é que se continua a recorrer à mentira para ganhar eleições. Ainda em Abril, Passos Coelho rotulava de “disparates” os rumores de que iria cortar no subsídio de Natal. Também disse mais do que uma vez que, se tivesse absoluta necessidade de aumentar impostos preferia fazê-lo com os impostos sobre o consumo (IVA) do que sobre os do rendimento (IRS, IRC). MENTIRA!
 
O outro facto relevante é que continua a roubalheira. Por muitas promessas e intenções que tenha de reduzir o peso, a presença e o custo do Estado, também Coelho não resistiu a assaltar os Portugueses, 13 meses depois de ter sido cúmplice de Sócrates noutro assalto. VERGONHA!

Eu não acredito que os políticos e os partidos são todos iguais (entenda-se igualmente maus), mas perante a repetição do padrão de mentira e do continuado esbulho das magras poupanças dos Portugueses, não se pode recriminar quem assim pense.

O ano passado Passos Coelho pediu desculpa por ter mentido. Este ano limitou-se a pedir (exigir) dinheiro. Dentro de 4 anos virá pedir votos. Se não arrepiar caminho drasticamente, espero que ninguém lhos dê.

26 junho, 2011

Guerra e Eleitoralismo

GUERRA E ELEITORALISMO


Depois de muita especulação (como é habitual), Barack Obama deu a conhecer o como e o quando do fim do surge – o aumento de 33.000 tropas dos EUA no Afeganistão que decidiu fazer em Dezembro de 2009.

Como se sabe, já nessa altura Obama anunciou que em Julho de 2011 começaria a retirar os reforços que então começava a enviar. Tal era uma péssima ideia como tive ocasião de referir na altura em “It’s 3 A.M. and the Red Phone Rings” ( http://tempos-interessantes.blogspot.com/2009_12_01_archive.html ) :

Francamente negativo foi o anúncio de um deadline de 18 meses para iniciar a retirada. Supostamente, para pressionar o governo afegão a arrepiar caminho e para dar tempo ao novel exército afegão para assumir o grosso da luta contra os Taliban. Na realidade, o factor principal foi a vontade que Obama tem de fugir a sete pés do Afeganistão e a necessidade de dar um rebuçado à ala pacifista maioritária no Partido Democrata, à qual pertence. Falta a Obama o fighting spirit e a consciência geopolítica de que o poder e a disponibilidade para o usar ainda são factores incontornáveis nas Relações Internacionais.
 
Dentro de 18 meses, o exército afegão ainda não terá a dimensão e a capacidade para arcar autonomamente com o esforço de guerra. Pior do que isso, é que os Taliban e a Al-Qaeda também vêem e lêem as notícias e sabem que lhes basta resistir durante 18 meses e esperar que o inimigo comece a fazer as malas. Então sim, o espírito de Saigão poderá voltar para assombrar a Casa Branca, poderá não haver margem para gastar mais uns meses a deliberar e a escolha poderá ser apenas entre a derrota total e o reforço maciço de tropas. Por outras palavras, um beco sem saída. É evidente que os 18 meses não são inocentes: para além de placar o Partido Democrata, em Julho de 2011 estar-se-á a 16 meses das eleições presidenciais norte-americanas e Obama quer retirar as tropas do Afeganistão a tempo de o Afeganistão sair da mente e da memória do eleitorado, ou seja, a prioridade é vencer em 2012; a guerra está em segundo plano.

Dito e feito. 10.000 soldados retiram até ao final deste ano e os restantes 23.000 deixam o Afeganistão até Setembro de 2012. De pouco serviu que as chefias militares solicitassem que o grosso dos 33.000 ficassem até ao final de 2012, permitindo que estivessem mais dois ciclos de guerra (Primavera-Outono) no terreno, consolidando os progressos obtidos até agora.

Aliás, já há meses que conselheiros civis do Presidente (leia-se assessores de campanha) que era impensável que estas tropas permanecessem no teatro de guerra até ao final de 2012. Como já era previsível há 18 meses atrás, o importante era ter as tropas nos Estados Unidos antes das eleições. Já se sabe, também, que para Obama a prioridade é “Me first!”. Longe vão os tempos em que o Afeganistão era a guerra que valia a pena combater e ganhar. Essa era a altura de angariar votos. A guerra é a mesma, a necessidade de angariar votos também, só mudou a estratégia eleitoral para os obter.
 
A morte de Osama Bin Laden tem sido apontada off the record como uma das motivações para acelerar a retirada do Afeganistão. É o conto do vigário. A eliminação de Bin Laden foi muito importante pelo carácter simbólico de que se revestiu:
 
… a morte de Bin Laden é uma grande vitória pelo valor simbólico que tem. No Ocidente, o alívio e alegria pelo desaparecimento do rosto da maligna organização, que na mente de muitos se confundia com a própria organização. Para os islamitas radicais é o oposto: desaparece o líder, a referência, o fundador, a figura reverencial e consensual. (in “A Morte da Besta” at
http://tempos-interessantes.blogspot.com/2011/05/morte-da-besta.html
No entanto, a sua relevância operacional era muito reduzida. Ou seja, a sua liquidação não altera no curto prazo a realidade no teatro de guerra afegão. Fazer o link entre a morte de Osama e a conclusão da Guerra no Afeganistão é demagogia grosseira.
Enquanto a condução de uma guerra for fluindo ao sabor dos interesses eleitorais conjunturais de um Presidente, é óbvio que os superiores interesses políticos e geoestratégicos dos Estados Unidos são relegados para segundo plano, seja no Afeganistão, no Médio Oriente ou na Europa. Com este Presidente, assim será.

Post Scriptum: A postura de Obama nas questões do Médio Oriente tem sido diferente, mas disso trataremos noutro post.

22 junho, 2011

São Tomé

SÃO TOMÉ

Tomou posse o XIX Governo Constitucional, resultante de um acordo entre o PSD e o CDS e suportado por uma confortável maioria parlamentar

Todos sabemos que enfrenta tempos difíceis, resultado de muitos anos de desleixo e, especialmente, da gestão danosa de que Portugal foi vítima nos últimos 6 anos. Contudo, se a situação contextualiza a actuação do novo Governo, ela não desculpabiliza eventuais maus desempenhos, até porque todos os membros do Governo são-no de livre vontade e com conhecimento da situação.
 
Além da superação do estado de falência, espera-se que o Governo seja capaz de diminuir o peso e custo do Estado e de todas as suas estruturas periféricas e aliviar o jugo fiscal colocado sobre os cidadãos para financiar a incontinência orçamental socialista. Não esqueço que Pedro Passos Coelho se arrogou o direito de fazer ajustamentos ao Memorando da Troika, atacando mais a despesa do que a receita e mantendo o cumprimento dos objectivos nele inscritos.

A coligação PSD-CDS é o melhor cenário governativo que se podia esperar das eleições de 5 de Junho. Infelizmente, anteriores intenções de reduzir o Estado e de devolver dinheiro aos cidadãos saíram goradas. Assim, é com o espírito de São Tomé que olho para este Governo: ver para crer!


Post Scriptum: Acho um desperdício a colocação de Paulo Portas nos Negócios Estrangeiros. No Ministério da Administração Interna teria influência e poderia fazer a diferença; no MNE, não.

21 junho, 2011

KO ao 2º Assalto

KO AO 2º ASSALTO


 
Dois rápidos assaltos foi quanto durou a candidatura efectiva de Fernando Nobre ao cargo de Presidente da Assembleia da República (PAR).

Fernando Nobre, a mais desastrada indicação de um cidadão para PAR em 36 anos, foi abatido pela conjugação da coerência do CDS com a revanche da esquerda, que não lhe perdoou o seu oportunista e interesseiro volte-face político-ideológico.
Finalmente, o coup de grace foi desferido por 3 incógnitos deputados do PSD que recuperaram a máxima milenar de que “Roma não paga a traidores”!

P.S. A obcessão pela novidade não é boa conselheira. Pedro Passos Coelho fez questão fechada de colocar um independente (?) como PAR, como se tal fosse uma prioridade nacional, ou tivesse mesmo alguma relevância política. Como alternativa, fez eleger a primeira mulher a ocupar o cargo de PAR. Nada contra o facto, apenas me desagrada a sensação de se querer fazer diferente, simplesmente por isso, por ser a primeira vez. Ainda bem que não há marcianos no Grupo Parlamentar do PSD…

07 junho, 2011

Desejos Satisfeitos

DESEJOS SATISFEITOS

 
Os resultados das Eleições Legislativas estiveram dentro daquilo que previa e do que desejava (ver Desejos para Hoje – 05/06/2011 em http://tempos-interessantes.blogspot.com/2011/06/desejos-para-hoje-05062011.html ). Posso mesmo dizer, que foram desejos satisfeitos praticamente na íntegra. Foram também o reflexo da situação política, económica e social que Portugal tem vivido nos últimos tempos.

Assim, a vitória do PSD era, num quadro que excluísse a insanidade colectiva, uma inevitabilidade. Apesar das hesitações e dos percalços, a liderança do PSD manteve, durante a campanha, um índice de tranquilidade e de determinação que foram suficientes para aligeirar alguns receios de que o PSD não estivesse preparado para assumir o poder. Essa será a prova dos nove de Pedro Passos Coelho: cumprir as metas de redução do deficit e de devolver competitividade à economia, colocando o ónus principal do ajustamento na fonte dos problemas (Estado e sector público) e não nas vítimas (os cidadãos).

A derrocada do PS, só ultrapassada pela hecatombe de 1985, foi um tardio ajuste de contas do eleitorado português com José Sócrates. A oportunista e ruinosa política de expansão descontrolada da despesa pública em 2008/09, a total incapacidade de a controlar, conter e reduzir em 2010 e a contínua extorsão fiscal dos cidadãos, levou à ruptura financeira de Portugal, ao prolongamento e agravamento do estado recessivo da economia, ao empobrecimento da classe média e à miséria económica e social de muitos Portugueses. 28% é uma punição duríssima do PS se olharmos ao seu histórico eleitoral. 28% é um resultado fantástico se olharmos à gestão danosa da coisa pública realizada pelo PS de José Sócrates.

O crescimento eleitoral do CDS é notável porque, pela primeira vez, foi feita em conjunto com a subida do PSD. Embora tenha sabido a pouco em face das sondagens e da performance do partido e de Paulo Portas, este resultado coroa a viragem à direita que os Portugueses operaram em 2011. Espera-se que o CDS assegure que os valores de direita são defendidos e promovidos no novo governo e que coarcte alguns tiques negativos dos partidos dominantes do sistema político português.

A muralha de aço do PCP resistiu mais uma vez e até conseguiu crescer. O legado de coerência a roçar a obstinação deixado por Álvaro Cunhal continua a dar frutos: enquanto que os PC’s reconvertidos por essa Europa já foram extintos ou reduzidos a forças residuais, assim, com 16 deputados, se vê a força do PC…P.

O Bloco de Esquerda teve o seu momento PRDiano (a criação eanista dos anos 80 que teve 45 deputados nas primeiras eleições a que concorreu em 1985, teve 7 nas segundas em 1987 e 0 –zero- nas subsequentes). Reduzida a metade dos votos e dos deputados, a salada soviética de trotskistas, stalinistas e maoistas que é o BE, teve o seu pogrom eleitoral. Nem foi preciso o Gulag ou a Revolução Cultural: foram dizimados nas urnas pelo eleitorado, certamente saturado da arrogância, intolerância e radicalismo do BE, quiçá enjoado de tanto caviar de esquerda. Vamos aguardar pelo pogrom interno…

E agora vamos verrar os dentes para arrostar o temporal!!!

05 junho, 2011

Desejos para Hoje (05/06/2011)

DESEJOS PARA HOJE

(05/06/2011)

As eleições legislativas em Portugal começam dentro de algumas horas. Eis os meus desejos para esse acto eleitoral:

1- Que o PSD ganhe com clareza mas sem maioria absoluta. Um resultado na ordem do que lhe têm atribuído as sondagens, entre os 35% e os 38%, estaria bem.

2- Que o PS tenha um resultado remotamente em linha com os resultados da sua governação. Digo remotamente, porque a legislação eleitoral portuguesa não contempla a possibilidade de ter uma votação negativa, tipo -25%. Tendo em conta a realidade social e política de Portugal, desejo que o PS fique abaixo dos 30%.

3- Que o CDS tenha um bom resultado, cerca dos 12%, preferivelmente perto dos 15%, para poder ter uma influência e responsabilidade fortes no próximo governo.

4- Que o PCP tenha um resultado apreciável (cerca de 10%), que aumenta as perdas do PS e lhe permita regressar ao posto de 4º partido nacional.

5- Que o BE seja relegado para o 5º lugar, com não mais de 8%, assim penalizando as suas arrogância, intolerância e radicalismo.

6- Que todos os Portugueses que queiram votar o possam fazer sem problemas nem entraves, penalizadores do livre exercício do acto mais nobre da democracia e que mancharam de forma vergonhosa as últimas eleições presidenciais.

E que Deus nos ajude (e os Portugueses também!)!

13 maio, 2011

Fraude ou Suicídio?

FRAUDE OU SUICÍDIO?


No início da semana o Público e a TVI divulgaram a segunda de uma série de 8 sondagens, que mostrava o PS (35%) colado ao PSD (36%). Mesmo não alimentando grandes ilusões acerca do próximo acto eleitoral, fiquei surpreendido.
 
Hoje, a 3ª sondagem coloca o PS à frente das intenções de voto! Fico atónito! Um partido que governa sozinho há 6 anos, a maior parte do tempo com maioria absoluta, e que conduziram o país a galope na direcção do abismo, da falência, da dívida incontrolável, da austeridade sem sentido, da recessão, da omnipresença ineficiente do Estado, da implacável extorsão dos rendimentos e poupanças da classe média e dos pensionistas, está bem colocado para ganhar as eleições?

in “Público” at http://www.publico.pt/Política/ps-passa-psd-e-cds-dispara-para-os-134_1494074

Confesso que aquilo que pensei foi: ou a sondagem é uma fraude miserável (ou fruto de grande incompetência), o que quero crer que não seja verdade, ou o país está tão mal, tão mal que já tem um forte pulsar suicidário! Sim, depois destes anos agonizantes em que todos os indicadores económicos relevantes se agravaram inapelavelmente, votar no PS em grandes números só pode significar uma irresistível e suicida atracção pelo abismo!
 
Post Scriptum PSD: Não obstante as sondagens me deixarem um pouco incrédulo, tenho de reconhecer que a liderança do PSD tem feito a sua parte para arranjar os sarilhos em que parece se ter metido, como podem recordar nestes 3 posts publicados em Março e Abril:


 
Post Scriptum CDS: É a melhor notícia das sondagens: o CDS aparece forte, com 10.5% e 13.4% nas duas sondagens. Penso que um CDS com peso eleitoral para influenciar o futuro governo seria bom para Portugal. E como o partido é habitualmente desvalorizado pelas sondagens…

Post Scriptum PCP: Desde o tempo do Estado Novo que o lema do PCP é a resistência e as sondagens indicam isso mesmo: continua a resistir com resultados entre 8% e 7% e até aparece em 4º lugar.

Post Scriptum BE: A outra boa notícia: o mais intolerante, radical e arrogante dos partidos cai para 5º com votações entre os 7% e os 6%.