O OUTONO EGÍPCIO
Bandeira gigante do Egipto numa
manifestação anti-Morsi no Cairo a 28 de Novembro.
in “The Times” at http://www.thetimes.co.uk/tto/news/world/middleeast/article3613374.ece
A
“Primavera Árabe” já está distante. Particularmente no caso do Egipto, as
ilusões primaveris foram amarfanhadas nas eleições de Outono-Inverno. O Verão, muito
provavelmente, vai esmagá-las. Depois de muitas vicissitudes, tudo indica que
que vai ser no Verão que se vai definir o futuro político do Egipto no
curto-médio prazo. E começa já este fim-de-semana.
Nesse fim-de-semana de Junho, os
eleitores escolheram por pequena margem Mohammed Morsi, o candidato da
Irmandade Muçulmana, para Presidente.
Em Agosto, Morsi remodelou as
chefias das forças armadas. Em Setembro incrementou os ataques ao aparelho
judicial. Em Novembro, publicou um decreto auto-atribuindo-se plenos poderes e
colocando-se acima da lei (sic).
Esta deriva totalitária resulta de vários factores, o
principal dos quais é o desejo e a urgência da Irmandade em controlar as
alavancas de poder no Egipto. Para tal, precisa de fazer aprovar uma nova constituição por si
formatada e desencadear um processo eleitoral legislativo para garantir uma
(presumível) maioria parlamentar. A partir daí, com presidência, governo,
parlamento por si controlados e constituição a gosto, a Irmandade Muçulmana
poderá prosseguir os seus objectivos de islamização política e social do Egipto
É óbvio que se tal for conseguido
com base em vitórias eleitorais democráticas, por muito que não se goste, não há muito a dizer. É óbvio também,
que se tal desiderato for atingido pela usurpação de poderes pelo Presidente,
pelo desrespeito e amarfanhamento do poder judicial e pela manipulação do
processo constituinte, então já haverá
muito a dizer.
Porém, haverá muito pouco a fazer.
Porquê a urgência? Porque o Egipto está com sérias dificuldades económicas e de
financiamento pelo facto de estar a atravessar um PREC (Período Revolucionário
Em Curso) desde Janeiro de 2011, durante o qual muita da actividade económica
do Egipto quase paralisou e também, as grandes receitas provenientes do turismo
secaram. Para ultrapassar a situação, o governo terá de tomar medidas
impopulares, como a redução brutal de certos subsídios governamentais, como o
dos combustíveis, ou do pão. Urge pois consolidar o poder antes de este poder
ser contestado nas urnas.
No já referido post O Verão Egípcio, escrevi: existem dois pólos de poder político e fáctico no
Egipto, os militares com o lastro do regime anterior e os islamitas, congregados
em torno da Irmandade Muçulmana e, em menor grau, dos Salafistas. O que
se disser sobre outras forças e influências, é mero entretenimento.
Isso continua a
ser verdade. Os militares não demonstram muita vontade de exercer o poder
político e ser responsabilizados pelos resultados da governação. No entanto,
querem manter a sua autonomia e os seus privilégios institucionais,
corporativos e económicos, ou seja, continuarem a ser uma realidade paralela.
Os islamitas, pelo seu lado, compreendem que não é do seu interesse afrontar o
exército e, provavelmente, perder. Garantirem o poder e ficarem excluídos da
esfera militar será algo com que podem viver por uns anos.
A partir do
momento em que os poderes fácticos arranjaram um modus vivendi mutuamente
vantajoso, resta pouco que os restantes grupos possam fazer. Daí o ataque ao
poder judicial, que era o poder remanescente. As manifestações serão a última
arma da oposição secular, liberal, de esquerda, cristã, o que seja. Até agora
mostraram alguma eficácia, ao ponto de Morsi ter revogado o seu decreto. Mas no
que realmente interessa: presidente, governo, parlamento, constituição da
Irmandade e poderes e privilégios das forças armadas, salvaguardados,
provavelmente haverá pouco a fazer.
E depois da Primavera das esperanças
desmedidas, e da quente realidade do Verão, o Outono no Egipto também é um
tempo de folhas caídas: esperanças estilhaçadas, instalação de poderes
intransigentes e um esfriar da democracia. Resta aguardar o que o Inverno trará
aos Egípcios….